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A Síndrome de Kallipateira

As Mulheres no Desporto

Gustavo Pires

Quando se fala da pouca participação das mulheres no desporto a primeira coisa que acontece é começar-se a zurzir na figura de Pierre de Coubertin porque, dizem, o homem não gostava de ver as mulheres a praticar desporto. Vão à Wikipédia, tiram umas notas, e desatam a lucubrar sobre a desgraçada situação das mulheres no que diz respeito à prática desportiva cujo primeiro responsável foi Coubertin que acusam de misoginia. Depois, perante os números respeitantes ao género nos Jogos Olímpicos de Londres concluem solenemente que “as certezas do barão de Coubertin caíram por terra”. Estão enganados.

Se existe característica na personalidade de Coubertin que marcou o seu comportamento ao longo da vida foi certamente a de, relativamente a diversos assuntos em matéria de desporto, ter tido o cuidado de nunca ter manifestado opiniões claras e definitivas acerca deles. Nem podia, desde logo porque o conceito de desporto era pouco claro e, por vezes, até confuso.

Coubertin marcou o seu grande objetivo estratégico que foi o da institucionalização do neo olimpismo através da realização dos Jogos Olímpicos da era moderna, para, depois, numa estratégia emergente de pequenos passos, levar a água ao seu moinho. E foi assim que, conseguiu sentar à mesma mesa e levar para os terrenos da competição desportiva as mais diferentes nacionalidades europeias que, habitualmente, se encontravam nos campos de batalha. Numa atitude política de “soft power” ele conseguiu ultrapassar com mestria os problemas fraturantes que perturbavam o desenvolvimento do Movimento Olímpico moderno.

Entre os problemas que estabeleciam situações de rutura nos primeiros tempos do MO moderno era a participação das mulheres. Para Coubertin como ele próprio refere num artigo publicado em 1912, sob o título “Les Femmes aux Jeux Olympiques”, depois da participação feminina em natação e ténis nos JO de Londres (1908) e Estocolmo (1912), a discussão sobre o assunto “continuava aberta”.

Atualmente, o Comité Olímpico Internacional (COI) recomenda uma modesta quota de 20% de mulheres para ocuparem os cargos de liderança nas organizações desportivas (In:5th IOC Conference on Women and Sport Los Angeles, 16-18 February 2012). Nestes termos, perante o que se está atualmente a passar nas candidaturas à liderança do COP é tempo de se perguntar se Pierre de Coubertin não tinha realmente razão quando dizia que a discussão sobre o assunto da participação das mulheres, tal qual síndrome de Kallipateira, continua em aberto.

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Story | by Dr. Radut