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Serpa, Homero (1927-2007)

Homero Serpa

Manuel Sérgio, um seu Amigo (*)

Desde que me conheço o conhecia. Era o Homero. Pertencíamos ambos a uma geração que, nos bairros lisboetas de Belém e da Ajuda, proclamava o seu belenensismo, ao mesmo tempo que a alma do Tejo inundava de esperança as nossas próprias almas. Ante os meus olhos passa agora essa extinta freguesia de Belém, onde o Belenenses nasceu, onde no Homero e em mim próprio floriram os primeiros sonhos da nossa juventude e onde o Homero nunca deixou de estar, por mais longe que se encontrasse, empurrado pela sua profissão de jornalista.

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“Belém é a minha Pátria”, repetia ele, aquecendo-se ao calor da emoção e da saudade.

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Ao Tejo chamava-lhe “pai”, tantas foram as vezes que se sentiu carinhosamente abraçado pelo veludo das suas ondas. Praticante exímio de natação, no Belenenses, foi no tanque do Jardim Colonial e no Tejo, que aprendeu a nadar. Demais, filho de uma família que a Ajuda e Belém respeitavam. O seu avô Domingos Serpa “tinha o perfil do cidadão íntegro e era figura admirada nos bairros irmãos de Belém e Ajuda, em particular no sítio da Alcolena. A sua poesia triste, revolucionária, mas sensível e comovente, parecia destinada ao coração dos pobres, dos humilhados e dos explorados”, como o Homero o recorda no livro Na Estrada, a sua última obra. O seu avô Domingos Serpa que, homenageado e contemplado com um “envelope mistério” pelas mãos solidárias dos amigos que conheciam as dificuldades monetárias em que se encontrava, foi dar aos mais pobres do Alto da Ajuda e do Monsanto todo o dinheiro que recebera. Era um novo S. Francisco de Assis o Domingos Serpa! Era um novo S. Francisco de Assis o Homero Serpa! “Gostava de ser generoso e bom, como o meu avô!” confessou-me ele, de lágrimas nos olhos, dentro do Estádio do Restelo, onde semanalmente almoçávamos e conversávamos sem tempo, contemplando o Tejo, rio sagrado da Humanidade, como o Ganges e como o Nilo. Respondi-lhe emocionado: “Sempre te conheci igual ao teu avô Domingos”...
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O Homero Serpa era um temperamento literário que ficou sempre literário, em todas as manifestações do seu espírito. A literatura, nele, não era uma aptidão, nem um hábito, era uma segunda natureza. Comentem-se os seus livros; analisem-se criticamente as suas reportagens no jornal A Bola (onde ele e eu aprendemos a ler) – e por trás de cada sensação e por trás de cada paisagem havia um artigo, havia a página de um livro, havia um pensamento que o surpreendia, havia dentro da máxima simplicidade a máxima expressão. O Homero era um escritor, em todos os momentos da sua vida. E um escritor de culto sempre aceso pela beleza (incluindo a beleza moral), pela generosidade, pela solidariedade, por um ideal que fazia dele um perpétuo semeador de estrelas, um eterno lavrante da esperança, um apaixonado por aqueles valores sem os quais impossível se torna viver humanamente: valores morais, valores estéticos, valores políticos. Heidegger afirmou que uma tragédia de Sófocles diz mais sobre a essência da Ética do que um livro de Ética. Eu diria o mesmo dos livros do Homero Serpa onde a Ética ressalta, em páginas de idílio e de mágoa, da própria vida. Reynaldo dos Santos, nome grande da história da medicina portuguesa, recomendou um dia aos escritores lusófonos que bebessem todos os dias uma colher de Ramalho. Eu, se me permitem, aconselho aos jornalistas, nomeadamente àqueles que se ocupam do desporto, uma colher diária de Homero Serpa. Para termos a certeza que não morreu a fresca e cantante língua que falamos e que a ratio do jornalista e do crítico não pode confundir-se com a fides do clubismo acéfalo, ou do charlatanismo de alguns dirigentes.
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Outra maneira de contar desporto, Cândido de Oliveira: uma biografia, Largo da Memória, Na Estrada e ainda, em colaboração com o Vítor Serpa, “uma história do futebol, a coincidir com o Europeu de 2004, encomendada pelos CTT, e um volume extenso sobre os primórdios do desporto em Portugal, editado pelo Piaget”: são as suas principais obras. Mas em todos estes livros persiste um imaginário que se prende à sua freguesia de Belém, à sua família e às pessoas que mais afectuosamente lhe acenaram. O Homero Serpa foi um homem de liturgia vital. Poderia cantar com Miguel Torga:

Quem for homem de carne tenha um sonho, 

tenha um sonho da brancura do leite que bebeu;

 vista-se de quimera e tenha um sonho

 com raízes na terra onde nasceu”.

 

“Nestes versos se define a obra de Miguel Torga. Mutatis mutandis, define-se também a obra de Homero Serpa. Na hora da sua entrada no misterium tremendum, a que ele foi tão sensível, quero também destacar, como seu amigo convivial, o seu quilate moral que sempre nos remetia para a gravidade do nosso destino e para o apelo irreprimível a um sentido último, embora sem nítida qualificação religiosa. Sem pretender exagerar, dada a amizade verdadeiramente fraterna que nos unia, o Homero Serpa foi, em todas as circunstâncias, um estrénuo defensor da liberdade e profeta do humano no homem..

O Homero Serpa morreu! Está de luto o jornal A Bola e o jornalismo português, que poderão (deverão) evocá-lo, na competência do seu trabalho, na elevação do seu pensamento, na firmeza das suas convicções! Está de luto o Clube de Futebol “Os Belenenses” onde a sua figura inesquecível avulta como nadador, como secretário-técnico do departamento de futebol, como membro ilustre do Conselho Geral. Morreu o neto, o filho, o pai, o avô, o marido, o sogro, o bisavô de uma ternura infinita e em permanente comunicação com a sua família, para ele tão sagrada como a dos santos. E morreu o amigo que me dizia: “A nossa amizade, entre os destroços morais do nosso tempo, é uma sobrevivência”. Pois é, meu querido Amigo e... Irmão, é uma sobrevivência a que, como tu, quero ser fiel até à morte.
 
(*) Trabalho publicado n' "A Bola" de 2 de Janeiro de 2008. Publicado no Fórum Olímpico de Portugal com o consentimento do autor e a nossa vénia ao diário "A Bola".

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Story | by Dr. Radut