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A Rutura de Pierre de Coubertin com a Educação Física

Prefácio

Carlos Colaço

Ao prefaciar este livro de Gustavo Pires começo com uma questão: - É o livro que faz o destinatário ou é o destinatário que faz o livro?

Muito provavelmente, acontecem, em simultâneo, as duas situações. Se, por um lado, o livro com a sua mensagem vai ao encontro do destinatário provocando-lhe curiosidade e interesse, por outro lado, o livro nasce porque existe um destinatário pronto para consumi-lo, quer dizer, interessado na problemática tratada no livro. É nesta dupla abordagem que entendo o livro que agora prefacio. É escrito para aqueles que se interessam pelo tema da génese do Movimento Olímpico internacional mas também é escrito para aqueles que, potencialmente, se poderão vir a interessar.

Sobre o autor direi que o livro, para abreviar o título, “A Rutura de Pierre de Coubertin com a Educação Física”, é escrito por alguém que, em Portugal, mais tem dedicado o seu tempo a estudar e a tentar perceber não só a “mítica” personalidade de Pierre de Coubertin como, no quadro do desenvolvimento e da gestão do desporto, a dinâmica do Movimento Olímpico moderno, tanto em termos nacionais como internacionais. Ao fazê-lo, Gustavo Pires, aliás como é timbre nos seus escritos, procura atingir um público mais vasto do que aquele que, enquanto docente, encontra na sala de aula, na perspetiva de colocar o trabalho ao alcance do interesse de um auditório bem mais vasto eventualmente interessado nas questões relativas aos primórdios do Movimento Olímpico que, ainda hoje, influenciam a maneira como as generalidade das pessoas olha para o desporto.

O que hoje parece estar fora de questão é que quem quiser perceber o fenómeno do Movimento Olímpico moderno no âmbito do desenvolvimento do desporto terá que, escrupulosamente, aprofundar o seu conhecimento sobre a vida e obra de Pierre de Coubertin bem como as batalhas que ele travou ao longo da sua vida. Não se trata de fazer uma história de relato, contemplativa e estática que pouco ou nada traz de novo a não ser, eventualmente mais factos desgarrados e desintegrados sobre os quais não se ensaia sequer a possibilidade para se relacionarem entre si e com outros. Trata-se de uma abordagem histórica a partir dos problemas com a complexidade das suas disputas e contradições que, no fundo, caracterizam as mentalidades dos protagonistas que, ao longo do correr da história e em cada contexto, quer dizer, na inteligibilidade das circunstâncias, tomaram as grandes decisões que organizaram e determinaram a vida dos homens e das sociedades. Assim Gustavo Pires olha para a história do Movimento Olímpico com objetividade sem deixar de interrogar, de a analisar e de a interpretar bastas vezes com perspetivas de análise singulares cruzando por exemplo, o pensamento de Pierre de Coubertin com o de Friedrich Nietzsche ou Hans-George Gadamer.

Gustavo Pires, numa lógica dedutiva, agarra na situação problema que foi a fase de arranque do Movimento Olímpico à escala mundial com intuição e imaginação tão necessárias a uma história que não se deseja abordada de uma forma fechada e nostálgica relativamente a um mundo que já passou. Ao fazê-lo, traz-nos um problema novo, sempre mais ou menos escamoteado, que foi a luta desigual que Pierre de Coubertin travou contra os prosélitos da ginástica e da EF que, na burocracia dos seus modelos já institucionalizados, viam na popularidade competitiva das mais diversas modalidades desportivas uma ameaça ao “status” corporativo de que gozavam. Ao fazê-lo, como refere Gustavo Pires, Coubertin estribou-se num conjunto de homens que foram para ele uma espécie de mentores tais como o pedagogo Thomas Arnold (1795-1842), o sociólogo Frédéric Le Play; o filósofo Hippolyte Adolphe Taine; o médico William Penny Brookes; o frade Henri Didon, ou até mesmo, no que diz respeito a esse conceito fundamental do Olimpismo que é a euritmia, o eclético John Ruskin (1819-1900).

Assim, o trabalho que agora prefacio, situa-se no domínio da história das ideias que, se de uma maneira geral, se encontra bem tratado numa profusão imensa de literatura, no que diz respeito à EF e ao desporto está quase tudo por fazer na medida em que a tradição da investigação tem estado muito mais vocacionada para o saber fazer da didática e da pedagogia sustentado nas ciências biológicas do que propriamente para as ciências sociais e humanas. Só assim se percebe a admiração levantada por Gustavo Pires acerca de Paschal Grousset quando estranha que a investigação em EF e desporto o tenham ignorado durante tanto tempo sabendo-se hoje que ele foi o primeiro, embora numa perspetiva diferente da de Pierre de Coubertin, a levantar em França a questão da institucionalização dos Jogos Olímpicos modernos. São estes “elementos ocultos” aos olhos da generalidade dos observados que o historiador há-de ir procurar a fim de dar sentido ao seu discurso e à sua história. Trata-se de devolver a memória a um passado que, no lavrar da história, acabou por ficar esquecido.

O que se verifica é que os desvios, as dificuldades e os estrangulamentos que hoje podem ser observados no mundo do desporto, ficam-se sobretudo a dever a uma confrangedora ausência da história das ideias que conduz ao desenvolvimento de políticas e à gestão dos processos sem que os fenómenos em causa sejam verdadeiramente conhecidos e compreendidos. Entre eles os relativos aos das disputas entre a EF e o desporto tendo como ideia central o conceito de euritmia na passagem do “mens sana…” de Juvenal para o “citius …” do frade Didon.

A história alimenta-se de contextos, factos e protagonistas que organizam os grandes problemas que a explicam. Esta dimensão da sua análise é, por ventura, o contributo mais apetecido do discurso de Gustavo Pires que, até pela sua maneira rebelde e provocadora de ser, ignora a velha abordagem da história relato para se abraçar com entusiasmo naquilo a que a nova história designa por história problema, assumindo as ruturas necessárias a fim de, questionando os paradigmas vigentes, abrir novos ângulos de análise e proporcionar um conhecimento novo numa área de conhecimento que, infelizmente tem sido construída mais pelo politicamente correto do que por perspetivas novas e abertas em busca de um conhecimento melhor. A este respeito todo o discurso de Gustavo Pires recorda-nos que são os problemas que fazem a história. Sem eles não existe história nem é possível compreendê-la.

Gustavo Pires, com este trabalho, na linha de outros que tem produzido continua a explorar a ideia de que estudar a génese do Movimento Olímpico a partir da dinâmica dos seus princípios, dos seus valores, dos seus anseios e dos seu conflitos é a base para se compreender o processo de desenvolvimento e gestão do desporto. Porque, tanto o desenvolvimento como a gestão só se compreendem na sua plenitude se contextualizados ao espaço e ao tempo. Na realidade, não é possível organizar e desenvolver o desporto, à margem da sua história e da sua cultura circunstanciados a um espaço e um tempo, tal como a lógica da institucionalização do Movimento Olímpico bem como a ação de Coubertin só é possível de compreender nas suas circunstâncias relativas ao espaço e ao tempo. Um desporto sem história e sem cultura fica tão só reduzido a uma atividade acéfala que mais não faz do que alienar as populações da dimensão económica, social e política das suas próprias vidas, em prejuízo da sua qualidade.

Todavia a informação histórica é subjetiva pelo que o historiador tem de se mostrar capaz de a saber analisar e criticar. O espírito crítico pertence sobretudo àqueles que demonstram capacidade para sonhar. Assim sendo, ao abordar a disputa entre a EF e o desporto, Gustavo Pires fá-lo com a imparcialidade possível os factos, tomando naturalmente a sua posição de acordo com a sua formação em EF, homem do desporto, gestor e historiador, na reserva de que a objetividade do conhecimento histórico não passa de um mito. Um historiador que se prese põe, genuinamente, na sua escrita todo aquilo que ele é. Porque apesar de todos os avanços científicos relativos à recolha e tratamento de dados, na realidade, o discurso histórico não deixou de ser uma forma de criação que há-de estar sempre ligado à cultura, à personalidade, ao empenho e à arte do seu autor. É entre estes portos, onde ancora e zarpa, que o “homem-da-vela” navega, por vezes em águas tumultuosas.

A tese que Gustavo Pires defende é a de que Pierre de Coubertin, bem cedo e em tempos bem difíceis, decidiu assumir de forma mais ou menos explícita, uma rutura com a EF. Considerava ele que, naquele momento, a EF não era mais do que um equilíbrio higienista entre o corpo e o espírito retratada na velha máxima de Juvenal “mens sana in corpore sano”. Uma expressão era para Coubertin demasiado higiénica e muito pouco desportiva. Ao enveredar por este caminho, Gustavo Pires abre uma nova visão cultural de um tempo social que explica uma alteração importante, uma mudança que hoje percebemos ter sido da ginástica dos séculos XVIII e XIX papara o desporto.

Em rutura com o “mens san…”, Coubertin já e ainda, muito jovem, defendia a eloquência de uma atividade de excessos, parte integrante do desporto e, com Henri Didon, foi cúmplice de uma outra visão mais representativa do desporto manifestada na célebre expressão latina “citius, altius, fortis”, um verdadeiro símbolo na busca da superação e da excelência, apanágio da cultura de competição que ele, inspirado nos Jogos Olímpicos da antiguidade grega resolveu trazer para os tempos modernos.

A história não se explica unicamente pelo material, pelos equipamentos, as modalidades e os ressoltados porque nela intervêm fatores tanto ou mais importantes do domínio das ideias e representações, do psicológico, do social da própria dimensão ideológica dos problemas. Uma marca desportiva é bem mais do que um simples número traduzido em espaço ou tempo. Por detrás dos números estão ideias, projetos, ambições que determinam o comportamento dos homens e das suas ambições.

Coubertin, mais do que aqueles que o acompanharam, porque ele foi capaz de ver mais longe e primeiro questionou se a ideologia do equilíbrio estático do homem poderia alguma vez resolver as questões relativas ao desenvolvimento do desporto que ele, como explica Gustavo Pires expressou na sua “pirâmide de desenvolvimento, “para que cem…”. Pelo contrário, ele assumiu-se contra o equilíbrio estático do homem, a favor de um equilíbrio dinâmico derivado dos desequilíbrios desencadeados pela competição desportiva. Porque na sua perspetiva só os equilíbrios dinâmicos eram geradores de novas sinergias que entravam em rotura com os equilíbrios estáticos instalados a fim de assumirem uma dinâmica de desenvolvimento. Ao fazê-lo, Coubertin assumiu a impossível conciliação entre as duas visões, a da ginástica e a do desporto, demonstrando ser um homem que estava bem à frente do seu próprio tempo.

Gustavo Pires conta uma história, a sua própria história, recorrendo, contudo a informações concretas. É claro que o destinatário faz o livro. Tal depende tão só da vontade do autor, sem se deixar enganar por si próprio, chegar ao destinatário. Pelo seu lado, o destinatário fará sempre os seus possíveis entendimentos. Haverá quem discorde ou até quem não queira entender.

“ É possível levar um cavalo à água, mas é impossível obrigá-lo a beber”.

Assim sendo, missão cumprida.

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Story | by Dr. Radut