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Reflexões Olímpicas

Os Jogos da Lusofonia na Índia

José Pinto Correia

De facto pode fazer-se parte da direcção de um movimento com fundamentos filosóficos que enaltecem a condição humana na sua vontade, audácia e ambição sem que se dêem os passos certos que praticam esses mesmos fundamentos. O nosso dirigismo no Movimento Olímpico tem-se comportado exactamente desse modo ao longo de muitos anos, sem competência, sem rigor no respeito aos princípios, com vacuidade de propósitos e ausência quase completa de resultados desportivos.

Fechou-se o ano passado entre nós um ciclo medíocre de direcção do Movimento Olímpico e imaginava-se um novo fôlego, com uma nova governação, melhor condução estratégica, clara definição de prioridades e fixação de objectivos desportivos. Passado esse ano completamente, tudo parece voltar a colocar-se ao mesmo nível de incapacidade e de desacerto do passado. O caso exemplar desta inadequação da liderança do Movimento Olímpico é o que se está a passar com os “Jogos da Lusofonia” a decorrerem na Índia, ou mais especificamente em Goa.

Os "Jogos da Lusofonia" ou lá o que são hoje na Índia...!

Se pensas podes existir. Se não pensas podes coexistir mas não tens ideias certas sobre o que fazes e porque o fazes. À falta de pensar, os dirigentes desportivos do Comité Olímpico de Portugal (COP) embarcaram há uns anos nesta "aventura inglória" a que chamaram "Jogos da Lusofonia". Os primeiros foram feitos em Macau, na República Popular da China quando este país já tinha garantido os Jogos Olímpicos de Pequim e Portugal aparecia como um bom veículo de penetração daquela potência global no espaço da CPLP em África. Depois, a segunda edição veio para Lisboa, onde decorreu sem grandes alardes e até com algumas cenas pouco edificantes. Sem estratégia, sem projecto, sem pensamento coerente, Portugal através dos seus dirigentes desportivos aceitou ir realizar a terceira edição à Índia (em Goa), depois de o Brasil ter declinado a sua realização, e isso na fascinada imaginação de que voltaríamos a estar ali como estivéramos há mais de cinquenta anos (e desde o Gama).

Agora, no meio das confusões e sem saberem muito bem o que têm a fazer, perante a submissão à língua inglesa em que esta edição dos Jogos da Lusofonia decorre, os mesmos dirigentes desportivos disparam em várias direcções sem quererem aceitar as responsabilidades que lhes são devidas por não terem pensado suficientemente sobre o que deviam e podiam ser estes "Jogos da Lusofonia" realizados num país da “Commonwealth”, que é hoje uma potência emergente à escala global.

Sem pensamento estratégico os actores vogam nas ondas ao sabor destas e do oceano que as comporta. E neste caso o oceano passou a ser o Índico e não o Atlântico que durante a nossa história foi o dos nossos desígnios. E como essa ingenuidade geoestratégica a nossa própria concepção de espaço de influência internacional passou a ser submetida à de uma nação muito mais poderosa e sem respeito efectivo pela nossa língua e espaço cultural.

Como se tudo isto não bastasse o cenário ainda piora pelo facto de o próprio Presidente do Comité Olímpico, o Dr. José Manuel Constantino, que é o principal responsável pela nossa participação desportiva nos Jogos em Goa, ter escrito em 2010 um texto de opinião em que argumentava categórica contra a realização dos Jogos da Lusofonia e o desperdício dos dinheiros públicos escassos que eles implicavam para o nosso desporto. Ou seja, antes os Jogos eram desperdício, mau uso de recursos escassos, viagens e turismo para dirigentes olímpicos e amigos. E quem o dizia há apenas três anos está hoje ao comando de uma comitiva que está na Índia nos mesmos Jogos.

Não se pode dizer que haja contradição. Mudam-se os tempos, os lugares, e aquilo que ontem era branco agora passa a ser vermelho. Claro que antes havia muito turismo, muitas viagens, mordomias várias. Mas isso era antes, quando se fazia o papel de “Velho do Restelo” (como diz um viajado professor doutor, sempre a expensas públicas certamente) e se pensava que os dinheiros públicos eram escassos e deviam ter bom uso. Vamos ver o que vai ser dito quando a “frustre embaixada” regressar à pátria. Espero que o relato seja feito em bom português e se apazigúem as consciências dos envolvidos nesta “navegação aérea”. Como Camões dizia pela boca do personagem “Velho do Restelo”:

“Deixais criar às portas o inimigo

por ires buscar outro de tão longe,

por quem se despovoe o Reino antigo

se enfraqueça e se vá deitando a longe;

buscas o incerto e incógnito perigo

por que a Fama te exalte e te lisonje

Chamando-te senhor com larga cópia

Da Índia, Pérsia, Arábia e da Etiópia.”

Na Índia sem cautela e sem glória...!

"A minha pátria é a língua portuguesa", disse o nosso genial Fernando Pessoa já no princípio do século vinte. Esta frase lapidar dá o consequente enquadramento ao espaço de afirmação do que pode ser um conceito da lusofonia, mas também permite elucidar sobre o que dele deve estar excluído ou ser-lhe objectivamente excêntrico.

Assim sendo, querer afirmar a lusofonia dentro de um espaço nacional que faz parte da "Commonwealth" é uma bizarria que só passa pela cabeça de quem não entende o que é força das nações e os jogos de poder mundial em que estas têm de se envolver. E a língua é um dos mais potentes laços e traços da afirmação nacional, porque reúne as imagens, as estórias, os sentimentos, quer dizer, “a alma” dos povos.

Mas por cá, neste Portugal em crise existencial e económico-financeira de agora, sempre houve gente incauta que vai para o mar sem se aviar em terra e depois passa mal quando as ondas são grandes lá pelo mar alto. Navegador intrépido e descobridor foi Vasco da Gama que chegou à Índia ainda durante o século quinze, mas esse ficou nos anais da história lusa e mundial pelo vulto do seu feito e pela abertura de uma era de globalização. Os portugueses que agora aterraram na Índia são apenas e só maus intérpretes de uma nação que já foi imperial, mas que naquele espaço do globo já deixou de o ser há mais de meio século. E não são sonhos ilusórios de um certo “imperialismo tardio”, transportado para um conceito mal definido de lusofonia, que podem dar a Portugal um protagonismo cultural e estratégico em zonas do globo nacional e culturalmente potentes.

Depois desta embaixada tristonha e vã de glórias talvez seja tempo de os dirigentes desportivos e de o governante da tutela desportiva retirarem lições e assumirem as responsabilidades por terem embarcado numa aventura muito pouco pensada e ainda pior realizada. E de olharem para dois países que sabem o que querem no seu desporto, o primeiro é a Suécia que acaba de desistir de envolver a sua capital na realização dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 porque entende que tem outras prioridades para o uso dos seus dinheiros públicos, e o segundo é o Reino Unido que acaba de definir oficialmente através da agência que gere o desporto de alta-competição, a UKSport, quais são os seus objectivos em termos de conquista de medalhas para a edição de Sochi dos Jogos de Inverno, que começa já em Fevereiro próximo.

Uma citação de Agostinho da Silva como lema para o nosso desporto…!

"A única salvação do que é diferente é ser diferente até o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas — batalhas para os outros, não para ele, que as percebe — há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos. Agostinho da Silva, "Diário de Alcestes".

23 de Janeiro de 2014

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Story | by Dr. Radut