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Olimpismo e Lágrimas de Crocodilo

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Pierre de Coubertin (1863-1937) foi um exemplo de abnegação em defesa do neo-olimpismo como ele lhe chamava. E a sua generosidade foi de tal maneira elevada que acabou por delapidar o património da família ao serviço do Comité Olímpico Internacional (COI). Nos primórdios do desporto foram muitos senão todos os dirigentes que, à custa do seu próprio património, levantaram um empreendimento à escala do Planeta. Pagavam uma cota anual ao COI, as deslocações e as estadias decorriam por conta deles, muitas vezes, avançaram com o seu próprio dinheiro a fim de pagarem as atividades da organização.

Numa entrevista dada, já com a idade de 98 anos, a Baronesa de Coubertin disse nunca ter perdoado ao marido ter dado cabo do património familiar ao ponto dele próprio, já na fase final da sua vida, ter passado por enormes dificuldades. O COI sobreviveu pelo entusiasmo, dedicação e persistência de Coubertin que ficou à frente dos seus destinos durante quase trinta anos e só não continuou porque estava completamente falido.

Continua a ser necessário que os dirigentes desportivos cumpram as suas funções com dedicação e competência. Contudo, hoje, não é legítimo e, menos ainda, racional sugerir aos dirigentes atuais que se comportem como a generalidade dos dirigentes da primeira metade do século XX. Independentemente de ter ou não fortuna pessoal, nenhum dirigente desportivo pode ser prejudicado no seu rendimento profissional ou pessoal pelo facto de querer dar a sua contribuição ao desenvolvimento do desporto.

Todavia, também não se pode cair no lado oposto. Não se pode aceitar que existam dirigentes desportivos para quem desporto não passa de um complemento de reforma ou um meio de enriquecimento (refiro-me ao que se está a passar em Espanha). Dirigente em “roda livre” que presidem ao órgão a quem devem prestar contas. Porque, quando assim acontece, a tendência é para que todos aqueles que estão à sua volta e o suportam, desejem também participar no banquete financeiro. Então, é um fartar vilanagem. E o desporto e os seus atletas passam a ser o que menos interessa.

Nos últimos anos, têm chegado ao desporto muitos aventureiros de fortuna que, na maior das promiscuidades, perante a incapacidade e, por vezes até, por incrível que possa parecer, conveniência das tutelas políticas, pretendem instituir uma nova cultura desportiva, fundamentada exclusivamente no comercialismo. Podem eles defender os valores do desporto e promover o seu desenvolvimento ao serviço da pessoa humana? Claro que não podem. Eles não sabem sequer o que é o desporto. Não conhecem a sua história. Não fazem ideia do que é a sua cultura e, menos ainda, como deve ser desenvolvido, como refere a Carta Olímpica, ao “serviço da humanidade”.

 Por isso, todos aqueles que por opção ou omissão aceitam conviver na promiscuidade que, em muitas situações, hoje, envolve o vértice estratégico das mais diversas organizações desportivas, depois, quando a “bomba relógio” lhes rebentar nas mãos, como por diversas vezes aconteceu nos últimos anos, não vão para a comunicação social lamentar-se, até porque o País está farto de lágrimas de crocodilo.

 

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Story | by Dr. Radut