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Olimpismo & Direitos Humanos

Quem Defende os Atletas?

O Comité Olímpico de Portugal (COP) convocou a Assembleia Eletiva para a Comissão de Atletas Olímpicos (CAO) para o mandato 2013-2016. A apresentação de candidaturas foi realizada até ontem, dia 16 de setembro. É tempo de aparecer gente que, dentro do COP, para além de todos os incómodos que nunca serão poucos, esteja verdadeiramente interessada em defender os interesses dos Atletas Olímpicos, porque, como diria Pierre de Coubertin, para que possam existir muitos praticantes desportivos é necessário que alguns, tais como, entre nós:

António Borges d'Almeida, Hélder de Souza Martins, Luís Cardoso Meneses, José Mouzinho d'Albuquerque, Mário de Noronha, Paulo d'Eça Leal, Jorge de Paiva, Frederico Paredes, João Sasseti, Henrique da Silveira, Luís Mena e Silva, Domingos de Sousa Coutinho, José Beltrão, Duarte Bello, Fernando Bello, Fernando Silva Paes, Francisco Valadas Júnior, Luís Mena e Silva, Joaquim Mascarenhas Fiúza, Francisco Rebello de Andrade, Mário Gentil Quina,  José Manuel Gentil Quina, Armando Marques, António Leitão, Carlos Lopes, Rosa Mota, Francis Obikwelu Nuno Delgado, Rui Silva, Hugo Rocha, Nuno Barreto, Fernanda Ribeiro, Sérgio Paulinho, Vanessa Fernandes, Nelson Évora, Emanuel Silva e Fernando Pimenta,

sejam capazes de realizar feitos extraordinários.

Por isso, os desportistas, de acordo com a Carta Olímpica, devem ser protegidos de todos os abusos sejam eles de que natureza forem.

Porque, quando os desportistas, em nome dos interesses de uma qualquer superestrutura ideológica de esquerda ou de direita e no respeito incondicional pelos ditames de uma hierarquia seja ela qual for, são obrigados a subordinarem-se à vontade totalitária dos dirigentes públicos ou privados, está-se perante uma situação protofascista de desenvolvimento pelo que, à revelia da Carta Olímpica, o desporto deixa de ser “uma filosofia de vida ao serviço da humanidade”.

O Caso Fernando Pimenta

O caso Fernando Pimenta, um atleta olímpico da canoagem (K2; K4), medalhado (prata, K2) nos Jogos Olímpicos de Londres leva-nos  a questionar se, realmente, os dirigentes desportivos estão a cumprir a sua missão e a conduzir o desporto pelos melhores caminhos em direção a um destino promissor, ou, pelo contrário, se movidos exclusivamente pela esquizofrenia das medalhas olímpicas estão, tão só, aproveitando-se da queda do muro de Berlim, numa visão protofascista do desporto, a repetir às claras, aquilo que as ditaduras chauvinistas de ambos os lados têm vindo a praticar de há demasiados anos a esta parte?

O caso Fernando Pimenta é importante porque ultrapassa o próprio atleta. O caso Fernando Pimenta põe em causa o modelo de desenvolvimento do desporto que o Bloco Central tem vindo paulatinamente, ao longos dos últimos anos, a institucionalizar no País.

Conflito

Em finais de julho de 2013, menos de um ano depois de Fernando Pimenta e Emanuel Silva terem ganho a medalha de prata (canoagem - K2) nos Jogos Olímpicos de Londres (2012) o País foi surpreendido pela notícia de que Fernando Pimenta e a Federação Portuguesa de Canoagem (FPC) estavam em conflito. E, em consequência, por incrível que possa parecer, o atleta acabou por não participar Campeonato do Mundo (2013), que se realizou em agosto na Alemanha.

Qual Era o Problema?

Fernando Pimenta pretendia competir em K1, conciliando com o K2 (com Emanuel Silva) ou o K4 (com Emanuel Silva, João Ribeiro e David Fernandes).

Pelo seu lado a FPC não aceitou os desejos de Fernando Pimenta entendendo que o atleta só devia participar nas provas por equipas.

Manobras de Diversão

Para além de todo o “ruído” que o Presidente da Federação Portuguesa de Canoagem (FPC) produziu na comunicação social, o que é verdade é que nunca vimos um desmentido relativamente ao facto do atleta afirmar que, há muito, vinha a manifestar aos responsáveis da FPC o desejo de competir em K1.

Ele disse ao Recorde (2013-07-23):

Fico triste por não me deixarem competir em K1, uma vontade que tenho manifestado ao longo dos últimos anos.

Por outro lado, não temos conhecimento que tenha sido desmentido pela FPC o facto de, como Fernando Pimenta refere, lhe terem prometido poder vir a competir em K1.

Um Problema que o Tempo Havia de Resolver!

Ora, perante estes factos, tudo leva a acreditar que a política da FPC relativamente a Fernando Pimenta foi a de empatar uma decisão com o objetivo de fazer com que o tempo acabasse por resolver a questão.

O problema é que o tempo dos atletas não é o tempo dos dirigentes. Enquanto o tempo dos atletas passa a uma velocidade vertiginosa, já os dirigentes mantêm-se agarrados ao poder, desmultiplicando-se, como é o caso do Presidente da FPC, anos a fio, por vários cargos, muitas vezes em prejuízo dos atletas e das modalidades, até porque não têm tempo para estudar e menos para compreender a complexidade dos problemas a fim de os resolverem com competência.

E como referiu o presidente da FPC:

A camisola de Portugal deve usar-se por dever .

Tal como as gerações de sessenta tiveram de, por dever, vestir o camuflado das forças armadas portugueses e partir para terras africanas, agora, também os atletas, em nome da pátria amada, são obrigados a vestir a camisola porque, sem quaisquer explicações plausíveis que um simples mortal possa entender, assim os senhores dirigentes, unilateralmente, o decidem.

Ao Serviço da Pátria Amada

Na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) foi idealizado um programa de educação física sob a divisa:

Prontos para a defesa e o trabalho.

No começo da década de trinta os soviéticos, libertos do infantilísmo desportivo que caracterizou os primeiros anos da revolução de Outubro, começaram a desenvolver um sistema hipercompetitivo com propósitos políticos a fim de glorificarem o Estado, aumentarem a produção e a melhorarem a condição militar.

Mussolini, inspirado no Nazismo, foi dos primeiros políticos a perceber que os grandes eventos desportivos e o efeito das vitórias dos ídolos desportivos podiam levar as pessoas a andarem pelas ruas a cantarem alegremente, independentemente de viverem ou não num regime democrático, terem uma economia estável, uma habitação condigna ou até, tão só, uma vida decente. Nesta perspetiva aquando do Campeonato do Mundo de Futebol de 1938 quando Benito Mussolini (1883-1945) enviou a seguinte missiva aos jogadores da equipa nacional:

Vençam ou morram.

Significativa foi igualmente a máxima o presidente do Paraguai entre 1954 e 1989 de seu nome Alfredo Stroessner (1912-2006) para quem o desportista devia colocar:

o corpo ao serviço da pátria.

Nos EUA em 1964, Robert Kennedy afirmava que:

É de interesse nacional os EUA afirmarem ao mundo a sua “força interior e vitalidade” a partir dos Jogos Olímpicos.

E acabaram todos no Vietname.

Em 1933, António Oliveira Salazar queria dar aos portugueses:

Pela disciplina da cultura física, o segredo de fazer duradoura a sua mocidade em nome de Portugal.

E, em 1936, instituiu a Mocidade Portuguesa.

Por tudo isto e por muito mais que ficou por dizer mas que, na primeira oportunidade, não deixaremos de o fazer, quando se afirma que "a camisola de Portugal deve usar-se por dever" é necessário entender muito bem o alcance de tal afirmação.

Modelo de Desenvolvimento

Há muita coisa que vai mal na alta competição nacional desde logo a exploração que na lógica do “socialismo científico” ou do "corporativismo fascista" alguns senhores dirigentes, pretendem fazer dos atletas. E hoje, aproveitando-se de um oportunista casamento entre o Estado e o mercado, numa lógica do mais primário mercantilismo selvagem, engendram sistemas em que os atletas não passam de “carne para canhão” numa espécie de “capitalismo científico” ao serviço das oligarquias instaladas.

Perante a Inoperância do Comité Olímpico de Portugal

E, tudo isto se passou e passa com o beneplácito do COP e o entusiasmo de alguma comunicação social que, tal como se viu nos JO de Seul  com Rosa Mota, ou nos JO de Pequim com Marco Fortes, agora se deleita a “crucificar” Fernando Pimenta e todos os atletas que, nas mais diversas modalidades desportivas, têm a coragem de dizer:

não vou por aí.

Entretanto, Fernando Pimenta acabou afastado da seleção nacional, perante um vergonhoso silêncio do COP onde, entre as dez Comissões folcloricamente anunciadas não consta uma Comissão de Ética!

Os Deuses do Olímpo

Felizmente, perante o desnorte ético da nomenclatura que hoje desgoverna o desporto, responderam os deuses do Olimpo que saíram em defesa de Fernando Pimenta quando a dupla Emanuel Silva e João Ribeiro ganhou a medalha de ouro em K2 500 m nos Campeonatos do Mundo. Ao fazê-lo, passaram um atestado de incompetência (medalha de ouro) ao Presidente da FPC que foi incapaz de resolver atempadamente e, sobretudo, dentro da Federação uma simples questão que até tinha solução à vista que ele, muito provavelmente pelos múltiplos afazeres que acumula, não foi sequer capaz de compreender que, mais dia, menos dia, ia rebentar.

Um Tal Jose Perurena

Quanto às patéticas afirmações do presidente da Federação Internacional de Canoagem (FIC) um tal Jose Perurena, enquanto membro do Comité Olímpico Internacional (COI), devia saber que é o desporto enquanto filosofia de vida que deve estar ao serviço da humanidade e não os atletas ao serviço da canoagem ou dos seus dirigentes.

E quando Perurena disse que:

quem manda na canoagem são os treinadores

alguém tem de explicar ao senhor que está absolutamente enganado.

Quem manda na canoagem são os dirigentes a começar pelo presidente da Federação porque, enquanto figuras institucionais eleitas democraticamente que são, exercem competências delegadas pelo Estado através do Governo. Assim sendo, quem manda na canoagem é o Governo que devia saber o que quer não só relativamente à canoagem como ao desporto em geral, da educação desportiva ao alto rendimento a fim de determinar o rumo do desenvolvimento do desporto. O problema é que o Governo não sabe o que quer a não ser que quer medalhas olímpicas porque, de há muito a esta parte, os governantes estão convencidos que as medalhas, só por si, são capazes de resolver os problemas que eles não têm sequer capacidade para perceber.

Desrespeito pela Inteligência dos Portugueses

E Perurena, à falta de melhores argumentos, num total desrespeito pela inteligência dos portugueses, pretendeu comparar a situação da canoagem com a de José Mourinho e disse: “Portugal têm a experiência do José Mourinho. Quem manda é o treinador. Ele é que tem de fazer as equipas.”

Perurena misturou “alhos com bugalhos”. O desenvolvimento da canoagem é muito mais do que fazer equipas ou organizar o processo de treino. O treinador funciona em função das decisões estratégicas de desenvolvimento definidas pelos dirigentes. Se assim não for, o melhor é mandarem os dirigentes para casa.

A Responsabilidade dos Dirigentes

O problema de Fernando Pimenta, ao contrário daquilo que Perurena quer fazer acreditar, não é da responsabilidade do treinador. O problema é da responsabilidade dos dirigentes que, até prova em contrário, não quiseram, não foram capazes ou não tiveram tempo para ir ao encontro dos anseios de Fernando Pimenta, oportunamente manifestados na hora de balanço que foi o término do Ciclo Olímpico de Londres.

Não Há o Direito de Assassinar

Depois, quando Perurena afirma que a posição de Fernando Pimenta foi “uma desconsideração para o companheiro”, ora bem, o mínimo que podemos dizer é que sendo Perurena presidente da FIC e membro do COI, mesmo assim, não lhe assiste o direito de tentar “assassinar” o atleta. Nem lhe fica bem fazê-lo em público.

Fernando Pimenta tem o direito de querer evoluir sozinho e, pelo que se sabe, já demonstrou ter capacidades para isso. Se o seu companheiro de equipa (que se tem comportado com uma enorme dignidade) ficou sozinho foi por responsabilidade dos dirigentes que tiveram muito tempo para resolver um problema com uma ótima solução à vista mas demonstraram não ter sequer capacidade para a perceber.

Responsabilidades

Claro que somos um país em que nunca ninguém é responsável por nada e coisa nenhuma. Por isso, não estamos sequer à espera que o presidente da FPC peça desculpa aos atletas, aos praticantes e aos portugueses porque, a ver bem a situação, perante tamanho fracasso, o que ele devia fazer era demitir-se porque ao contrário daquilo que ele diz

muitos pensaram que a canoagem iria do céu para o inferno.

todos os portugueses desejavam excelentes resultados no campeonato do mundo. E foi o que aconteceu.

Quem, eventualmente, podia desejar o contrário era o próprio presidente da FPC que, se lhe resta algum discernimento, deve concluir que, muito provavelmente, os resultados na canoagem têm acontecido apesar da sua liderança. Se tivesse dado ouvidos e compreendido os anseios de Fernando Pimenta, muito provavelmente, teria sido conquistada mais uma medalha. Porque as medalhas de João Ribeiro e Emanuel Silva para além de provarem que são dois excelêntes atletas, provaram também que o presidente FPC estava completamente errado e, agora, parece que só ele não é capaz de ver. Um pouco de humildade não lhe ficava nada mal.

Mas se a posição do presidente da FPC foi má a do presidente do COP foi péssima.

A Abulia do Comité Olímpico de Portugal

O que mais se estranha em todo este dramático processo é o comportamento do presidente do Comité Olímpico de Portugal que, lesto em meter o bedelho onde não é chamado (por exemplo, no SLB), no que diz respeito à dramática situação de Fernando Pimenta que lhe diz respeito tem, pura e simplesmente, andado a apanhar bonés. Será que está à espera que Luís Filipe Vieira lhe retribua dizendo-lhe como deve tratar do assunto?

Não foram necessários seis meses para se confirmar que José Constantino não é a pessoa certa para ocupar a presidência do COP. Ele, antes de tudo, devia ser o provedor dos atletas. Pelo contrário, do alto da sua pequena importância está armado em ser o juiz.

Por Tudo Isto a Pergunta é:

Quem defende os atletas e os valores do desporto, quando o COP, à revelia da Carta Olímpica e da Lei de Bases da Atividade Física e do Desporto, para além do desenvolvimento, está transformado numa repartição pública a fim de ganhar medalhas olímpicas ao serviço do Governo que estiver no poder?

O verdadeiro problema do Movimento Olímpico em Portugal é que hoje não há quem defenda os direitos e os interesses dos atletas.

Por isso, encimámos o presente ensaio com uma foto do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, tirada durante a alocução proferida na abertura do XIII Congresso Olímpico que se realizou de 3 a 5 de outubro de 2009 na cidade de Copenhaga na Dinamarca. Disse ele:

O desporto pode ser visto em qualquer parte do mundo. Viajei por países repletos de pobreza. Por comunidades em luta pela sobrevivência. Por lugares devastados pela guerra, onde toda a esperança parecia perdida. De repente, aparecia uma bola feita de sacos plásticos ou de jornais atados com um cordel. E víamos o desporto dar vida aos sonhos e às esperanças.

Os dirigentes desportivos, através das organizações onde militam, têm a obrigação de, desde a base ao topo da pirâmide de Coubertin, dar vida aos sonhos e às esperanças dos praticantes desportivos. Porque como referiu o pai do Movimento Olímpico Moderno:

Para que cem se entreguem à cultura física é necessário que cinquenta pratiquem desporto. Para que cinquenta pratiquem desporto, é necessário que vinte se especializem. Para que vinte se especializem, é necessário que cinco sejam capazes de proezas espantosas.

Caso entendam que o caminho do Movimento Olímpico em Portugal é pôr os atletas ao serviço da camisola, seja ela qual for, do social fascismo ao capitalismo fascista, o melhor é irem para casa.

GP, 2013-09-07

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Story | by Dr. Radut