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Olimpicamente Desajustado

José Manuel Constantino e os aneisA Proteção do Emblema Olímpico

O imperativo categórico de Kant diz-nos que devemos agir de maneira a que as nossas atitudes em relação às circunstâncias possam ser adquiridas como leis universais.

Ora bem, esta assunção leva-nos a aceitar que as nossas ações individuais e coletivas devem estar imbuídas de um sentido crítico que procura aferir da justa aplicação do princípio categórico enunciado.

Assim sendo,

a pergunta que se coloca é a que procura saber da legitimidade da utilização de crianças  numa campanha de marketing comercial e pessoal.

Teve muita pressa o Comité Olímpico de Portugal (COP) em constituir um número de mais de dez Comissões, sem saber muito bem, na lógica da tradição do Movimento Olímpico desde o tempo de Coubertin para o que é que elas serviam e servem! As Comissões, não só por tradição como pelo que está expresso na Regra 21 da Carta Olímpica têm uma missão que só por incultura ou desconhecimento pode ser ignorada. Contudo, na sua ânsia de mostrar serviço e privilegiando a quantidade em detrimento da qualidade, o COP esqueceu-se de criar uma Comissão de Ética.

Todavia, o COP, em função da própria Carta Olímpica, devia considerar que se existe Comissão que,  desde o primeiro momento, devia ter sido criada era uma Comissão de Ética. Até porque, se outros argumentos não existissem, a Comissão de Ética é a única que tem direito a regra própria no articulado da Carta Olímpica. Diz a Regra 22 da Carta Olímpica:

A Comissão de Ética do COI é responsável pela definição e atualização de um quadro de princípios éticos, incluindo o Código de Ética, fundado em valores e princípios defendidos na Carta Olímpica, da qual o referido Código, na íntegra, constitui parte integrante. Adicionalmente, investiga sobre queixas que lhe tenham sido apresentadas em relação com o incumprimento daqueles princípios, incluindo casos de violações do Código de Ética, e, se necessário, propõe sanções à Comissão Executiva do COI.

Ora, o que acontece é que, nas circunstâncias atuais, qualquer cidadão, desde logo os atletas, que se sinta injustamente atingido pelas práticas  desenvolvidas pela instituição não tem uma entidade a quem se dirigir a fim de alertar para uma qualquer falha que eventualmente põe em causa os princípios, os valores, os direitos ou deveres que devem presidir à ação do COP.

Esta falha inaceitável não é de agora pelo que, em consequência, ao longo da história do COP cometeram-se muitos erros desnecessários promotores de injustiças como foram, entre muitas outras, a cometida contra Saul Cristóvão Ferreira Pires (trataremos brevemente deste assunto), ou até, mais recentemente, contra a Federação Portuguesa de Vela e o seu presidente José Leandro sem que existisse uma entidade livre, justa e independente a quem apelar.

Nestas circunstâncias, a Comissão Executiva do COP funciona em “roda livre” quer dizer que, para além de uma Assembleia Plenária presidida pelo próprio presidente do COP, não existe nenhum órgão de controlo institucional no domínio dos princípios e dos valores!

E hoje, a pergunta que se faz é a que procura saber a quem se deve dirigir um cidadão (que até pode ser um pai ou encarregado de educação) em protesto contra a utilização por parte do COP de crianças, aparentemente organizadas para o efeito, a fim de criarem uma imagem de propaganda de uma empresa comercial e de uns senhores dirigentes que não se coibiram de se associar à imagem.

Porque, a notícia divulgada no portal do COP bem como no da empresa patrocinadora a REN diz que:

Para assinalar a formalização desta parceria, cerca de 100 crianças de escolas locais praticaram uma série de modalidades olímpicas e formaram os cinco anéis olímpicos.

Por isso, a pergunta é a que procura saber se:

o COP e a REN obtiveram da parte dos pais ou responsáveis legais das crianças uma autorização formal para que elas fossem fotografadas e as suas imagens utilizadas numa campanha de publicidade e marketing?

Tendo em atenção a opinião de Marcous Vinicius Freire expressa no livro “Ouro Olímpico – A História do Marketing dos Aros” esta situação estranhamente configura uma situação de “marketing de guerrilhas “inocentemente” promovida pelo próprio COP e assumida pela REN.

Perguntamos:

Porque é que o COP e a REN enquanto empresa privada que é não trataram de promover o acordo estabelecido através da utilização de atletas olímpicos ainda em atividade?

Quanto a nós pela simples razão de que a utilização da imagem de atletas ainda em atividade desportiva custava muito dinheiro e a imagem das criancinhas sempre é  de graça.

Assim sendo, torna-se imperativo formular uma nova pergunta:

A quem é que se pode dirigir não só um cidadão qualquer bem como os próprios progenitores ou os encarregados de educação das crianças envolvidas, a fim de manifestar o seu repúdio por os portais do COP e da REN publicarem uma imagem de caráter comercial utilizando crianças especialmente organizadas  para o efeito?

Claro que, em Portugal, a ninguém!

Infelizmente, vivemos num País com uma sociedade civil alienada dos seus direitos que abdicou de controlar o seu próprio futuro. E é por isso que o País está como está, e hoje os portugueses estão a pagar estádios de futebol absolutamente inúteis (para além de outros “elefantes brancos”) enquanto uma enorme percentagem deles vive num enorme sofrimento.

A este propósito recordamos que o COJO de Nova Iorque,  em termos práticos, acabou por ser afastado da competição da candidatura à realização dos Jogos da XXX Olimpíada que acabaram por se realizar em Londres no ano passado, devido a uma Comissão de Cidadãos ter dado um parecer negativo à construção de um novo estádio.

Entretanto, também diremos que, ao consultarmos o portal da REN, deparámos com o discurso que se segue:

Adotámos o modelo de gestão e de fiscalização de inspiração anglo-saxónica que integra o Conselho de Administração como órgão de administração dos negócios sociais e a Comissão de Auditoria como órgão de supervisão e controlo da atividade social.

Nestes termos, sempre apelamos à Comissão de Auditoria como órgão de supervisão e controlo da atividade social da REN que se debruce sobre esta situação na medida em que não fica nada bem a uma empresa com tantos pergaminhos ser envolvida em tal situação.

Para além do mais, quando o Sr. Rui Cartaxo, presidente e CEO da REN afirma que à empresa se aplica o princípio em que:

"a ausência de notícias é geralmente boa notícia",

ele tem razão porque, nos termos em que o acordo COP/REN foi divulgado, acabou por não ser uma boa notícia pelo que o melhor teria sido certamente não ter havido notícia nenhuma. O que seria uma boa notícia.

É a REN responsável?

Estamos em crer que não.

Há muito que o Comité Olímpico Internacional na sua estratégia de marketing está interessado em proporcionar aos seu patrocinadores as melhores soluções e o melhor aconselhamento no sentido de haver uma "joint venture" com amplos benefícios para ambas as partes. Ora bem, em nossa opinião, a REN em todo este processo não foi bem aconselhada desde logo porque, em termos comerciais, não fica bonito "brincar-se" com  crianças independentemente de ter havido ou não o acordo dos progenitores ou encarregados de educação.

E era ao COP que competia ter salvaguardado a empresa REN de tal situação que, de maneira nenhuma, a pode prestigiar.

Voltando ao imperativo categórico de Kant, levanta-se a seguinte questão:

É este o padrão universal que o COP quer instituir no desporto nacional?

Porque é que levantamos esta questão?

Porque se os aspetos comerciais que, naturalmente, envolvem a generalidade das organizações, dos eventos e das práticas desportivas não forem temperados com princípios e valores de ordem ética e moral o Movimento Olímpico corre o risco de se transformar numa instituição protofascista ao serviço de interesses que nada têm a ver com o desporto ao serviço do desenvolvimento humano.

O "marketing olímpico" é uma questão demasiado séria para estar exclusivamente nas mãos de... (continua).

 A Direção (Gustavo Pires; Margarida Mascarenhas; Carlos Colaço; João Marcelino), 2013-11-14.

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Story | by Dr. Radut