1912. Fundação do Comité Olímpico Português
Novo livro de Gustavo Pires (**)
Manuela Hasse (*)
Em síntese, teria existido alguma relação entre os adeptos da ginástica sueca, higiénica e da educação física e os adeptos do fenómeno desporto – em particular no que respeita a criação do Comité Olímpico Português?
Na sequência da criação do Comité Olímpico Internacional (COI), que representava a vontade de P. de Coubertin de usar o desporto como um factor de união das diferentes nações entre si - o que viria a desencadear a criação dos Comités Olímpicos Nacionais (CON), em que ano foi de facto criado, oficialmente, o Comité Olímpico Português? Perante dúvidas e inexatidões, que se levantaram desde há uns anos, quais as razões para que tal tenha ocorrido?
Ainda que estas questões possam não interessar a todos os adeptos do desporto e os mais apaixonados pelo desporto, elas fazem parte do conhecimento da vida humana e social e, também, de uma cultura desportiva. E, por outro lado, não deixam de se prender com o arranque de uma outra realidade marcada pela vontade de transformar a população portuguesa e, ainda, a atitude generalizada de desinteresse e de apatia que, no geral, a dominavam. Em contrapartida, o que se propunha? Através da iniciativa individual e coligada, também, em sociedades e associações diversas (por exemplo, o Real Ginásio Clube Português, o Centro Nacional de Esgrima, a Sociedade de Propaganda da Educação Física, entre tantas outras e as associações recreativas, culturais e desportivas, os múltiplos clubes e uniões desportivas) actuava-se no sentido de fomentar uma profunda mudança nacional. E essa transformação das pessoas e das coisas – o estado de marasmo dominante – segundo aquilo que se pensava e as propostas que chegavam do estrangeiro, nomeadamente a Suécia e a Inglaterra, mas também a Alemanha, França, Suíça, Bélgica, e outros países – essa transformação, acreditava-se, só seria possível ou através da educação formal, marcada pela disciplina, a ordem, a submissão a um modelo que se apresentava como o mais avançado e seguro nos seus efeitos por ser baseado em princípios científicos, tais como a anatomia, a fisiologia e a mecânica ou, segundo outros, através do desporto, factor de energia, iniciativa, coragem, determinação e fortalecimento, um processo animado de paixões múltiplas, marcadamente social que, através do mais puro divertimento, proporcionava um espectáculo extraordinário, uma forma poderosa de associação, um exemplo único de iniciativa e de imaginação, de dinamização de energias, um poderoso factor de afirmação social.
É por toda esta agitação que a investigação de G. Pires avança. Na dispersão das referências informativas, das propagandas em confronto, pela ginástica e a saúde, pelo desporto e pela vida social e colectiva, pelas sociedades que se constituíam de cada um dos lados em oposição, pelo meio de todos os intervenientes (poucos são aqueles que não são mencionados, participantes a diferentes níveis e em diferentes espaços de intervenção), a persistência do investigador prossegue a desbravar caminho no sentido do conhecimento. Do molhe de gente interveniente, médicos e militares são as figuras destacadas pela sua presença e intervenção a vários níveis de que a imprensa informa e difunde uma fecunda quantidade de artigos de opinião de especialistas das matérias em causa: a educação física, e os seus esforços no sentido da legislação e integração obrigatória no sistema escolar ainda incipiente em 1920, o desporto e os seus regulamentos, as suas leis, técnicas, os primeiros indícios de preocupação com o treino.
Empenhado no presente, e nas dificuldades que persistem no sentido da compreensão destas dinâmicas sociais em confronto, o autor conduz-nos por um passado do qual organiza os dados por forma a permitir que o leitor, simples interessado, estudioso ou cientista social, siga com vivo interesse os caminhos e as questões, raciocínio e lógica que se alinham por forma a clarificarem um tempo e um espaço complexo, denso e tenso. Primeira questão, as dinâmicas em causa...interessam a alguém? Talvez não. Talvez interessem apenas a uns quantos curiosos, a alguns apaixonados pela história, talvez não interessem a mais ninguém. Se for esse o caso, não é um bom sinal. A desvalorização da história, tal como o seu branqueamento, a sua instrumentalização, podem ser perigosas. Não só fará prevalecer o desinteresse, o indiferentismo, como – o que acontece sempre – alimenta a ignorância. É que as perguntas formuladas - que lançam o investigador determinado e persistente, como o demonstra ser G. Pires, às voltas com as questões por resolver durante 16 anos, para os caminhos da investigação – as perguntas só podem ser formuladas no seio de um presente onde, precisamente, há coisas que não fazem sentido. Onde é necessário estar atento, em particular, numa área social onde tanto a impunidade, quanto o oportunismo, parecem ser um campo sem limites.
No entanto, se a falta de interesse de uns é grave, o manifesto desinteresse das instituições académicas pelo esclarecimento de múltiplas questões que persistem – problemas de fundo ligados a esta investigação, e a outras, emergem – traduzido na desatenção e na mais completa ausência de uma genuína atitude culta, resulta na omissão, na opção por escolhas dispendiosas, com a apresentação absolutamente inacreditável de dados, diante de uma interpretação e explicação ausentes. Sejamos claros: a luta de poder, de que trata a investigação de G.Pires, entre os adeptos da ginástica e os adeptos do desporto – como, aliás, bem refere o autor – esse jogo de poder persiste. Não houve, ao longo de todos estes anos, mais de um século, a capacidade, a maturidade para resolver este impasse que só pode servir pequenos grupos em prejuízo de todos. Se então se lutava por um lugar, em cada um dos lados, hoje o confronto desloca-se, não apenas entre a academia e os campos dos desportos. Ela vive-se no seio da própria academia que, fechada em si própria, voltada para os seus pequenos interesses e intrigas, distraída das indicações apresentadas por investigadores experientes como Alexandre Quintanilha, insistem em barricar-se na medida, na ‘perspectiva cartesiana’, nas certezas cerradas que não permitem a dúvida, no colocar(-)se em causa, na abertura ao conhecimento da vida – entendida para além da sua dimensão natural, biológica, física. A vida do humano e do social, sem a qual, justamente, os redutos onde a discriminação e o preconceito dominam, ficam sem explicação – conveniente. Até quando se manterá este provincianismo? Dezasseis anos de trabalho, como é o caso deste trabalho, mereciam apoio, atenção, investimento institucional. Onde ficou a atitude culta de tantos que nos formaram – a todos? O desporto, a prática dos desportos, ou a sua ausência e dificuldade de acesso, o interesse e a paixão que desperta, a sua organização, a integração de meios e de gente de todos os quadrantes, de todos as regiões do mundo, veja-se a unanimidade parlamentar em matérias que – subitamente! – são despoletadas e revelam a unanimidade no espectro político, não suscitará perguntas que só as áreas sociais e humanas poderão tentar descobrir as razões e propor explicações? A relação entre tudo isso e o desenvolvimento das ciências do desporto (como são, em geral, denominadas), terão alguma relação com o imenso impacto do desporto na vida das sociedades modernas? É que, de acordo com Alexandre Quintanilha, que nos lembra aquilo que o desporto nos ensina, cada um de nós não é absolutamente nada sem os outros. Os outros todos, sem exclusão.
E no campo do desporto, no futebol em particular, é fundamental manter os princípios de respeito pelo adversário, pelos adversários a todos os níveis para que dessa forma esteja, realmente, a valorizar o desporto, a servir a sociedade. Que não se perca mais tempo com questiúnculas pois servir a sociedade, informar e formar é uma responsabilidade dos professores, mas é também uma responsabilidade de todos, imprensa e media incluídos. É preciso estudar, aprofundadamente - dedicadamente. Do trabalho de G. Pires ressalta, não só a paixão pelo desporto mas, acima de tudo, e apesar de tudo, a vontade de servir o desporto e a sociedade. O que, diante das dificuldades criadas, activa ou passivamente, só pode dar força a todos para melhorarmos. E, desse modo, afirmar o poder. O nosso, genuíno – que não precisa de destruir (ou excluir) os outros para sobressair, de se impôr – pois é evidente.
Tal como no desporto, na academia, a ciência e o conhecimento, o conhecimento e o saber - não podem viver em permanente conflito. Chegará o tempo em que todos vamos saber isso. De outro modo, ninguém avança, ninguém melhora. Ou seja, não melhoramos, não avançamos – nem no conhecimento ou na ciência (que representa o caminho para descobrir e compreender aquilo que não se sabe nem se compreende) nem tão pouco no saber. Sendo o desporto um factor de civilização, um símbolo da nossa sociedade ocidental, é preciso que aqueles que animam os desportos e a vida social, aquilo que o permite, sejam também estudados segundo uma atitude culta. Uma atitude marcada pela abertura ao mundo, ao desporto, aos desportos, a todas as áreas e níveis da vida.
A terminar, uma outra nota positiva: a editora, a edição, o editor. Uma nova editora (Primebook) que acolhe o estudo do desporto ao qual oferece uma edição atraente, exigente, excelente, dirigida por um editor, Jaime Cancela de Abreu – a lembrar, quem sabe a continuar, o trabalho pioneiro do grande editor Rogério Moura, apaixonado pelo desporto e o único, ao longo de décadas que, contra quase todos, investia nos estudos do desporto na sua editora Horizonte. O apoio do Instituto Português do Desporto e Juventude, assinalado na contracapa só pode ser louvado.
(*) Artigo publicado n' A Bola digital em 13-05-2016.
(**) Professora Agregada da Universidade de Lisboa, Faculdade de Motricidade Humana
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