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Mil Novecentos e Oitenta e Sete

Cavaco Silva

Anda uma certa comunicação social a tentar branquear o que se passou em 1987, quando a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, com 129 votos, um apelo para a libertação incondicional de Nelson Mandela. Os únicos três países que votaram contra foram os Estados Unidos da América, de Reagan, a Grã-Bretanha, de Thatcher, e o governo português de Cavaco Silva.

O argumento é o de que numa outra resolução posterior o Governo Português votou pela libertação de Nelson Mandela.

Mas porque é que Portugal não se absteve como outros países europeus?

Não se absteve simplesmente para fazer um frete aos EUA e à Inglaterra.

A desculpa cavaquista de que o fez para proteger os cerca de 600 mil portugueses que viviam na África do Sul, para além de ser de mau pagador, revela uma inversão absoluta daquilo que, ao tempo, se passava naquele país. O que aconteceu foi que com a sua posição o Governo Português pôs muito mais em risco os portugueses que viviam na África do Sul do que, simplesmente se se tivesse abstido.

Porque, ao contrário daquilo que se quer fazer passar, a luta armada era feita pelo governo sul-africano contra os cidadãos negros que, simplesmente, reivindicavam os seus direitos de cidadania no seu próprio País.

Não existem explicações plausíveis. E aqueles que não o compreendem deviam ler a estória exemplar do jovem artilheiro de Victor Hugo descrita no "Quatrevingt-Treize". E, agora, a ida de Cavaco Silva ao funeral de um homem que, para todos os efeitos, ele pretendeu manter na cadeia para, depois, o tentar libertar, representa a condenação à morte do jovem artilheiro do "Quatrevingt-Treize" um dos mais brilhantes romances da história da literatura.

GP, 2013-12-07

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Story | by Dr. Radut