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Mauperrin Santos, Jaime

Jayme Mauperrin Santos (1857-1913)

Comité Olímpico de Portugal, à revelia da história, vai  hoje,  28 de ovembro de 2013,  comemerar o 104º aniversário. E assim, os seus dirigentes revelam a mais profunda ignorância relativamente à institucionalização do Movimento Olímpico em Portugal. É pena, contudo, é compreensível porque, no fundo, vendo bem as coisas, tal atitude representa tão só o estado em que o desporto e o País se encontram.

Contudo, os senhores dirigentes deviam demonstrar um pouco de respeito por aqueles que foram os verdadeiros fundadores do Comité Olímpico Português fundado em 30 de Abril d 1912. Portanto, no passado dia 30 de abril, o COP comemorou 101 anos. Parabéns.

O  primeiro presidente do COP foi Jayme Mauperrin Santos que devia merecer da parte do actual presidente todo o respeito.

Jayme Mauperrin Santos era Bacharel em Filosofia e Medicina pela Universidade de Coimbra. Era lente do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa e médico dos Hospitais Civis. Era, ainda, diretor e proprietário da Escola Académica que tinha sido fundada pelo seu pai em 1847. Entusiasta do Desporto foi fundador de várias associações desportivas.

Na qualidade de Diretor da Escola Académica, Mauperrin Santos foi um pedagogo de mérito e um dos maiores promotores do desenvolvimento do desporto nacional, desde logo pelo seu empenho na organização dos Jogos Olímpicos Nacionais (JON). Ele, enquanto educador que era, estava, certamente, consciente acerca dos inconvenientes da burocracia e das complicações do modelo sueco estandardizado de ginástica, comparativamente às vantagens educativas da prática desportiva de livre iniciativa proveniente das ideias pedagógicas de Thomas Arnold (1795-1842) prosseguidas nas escolas públicas inglesas.

Fundação do Comité Olímpico Português

Ao tempo, Manuel Egreja e José Pontes pensaram encarregar a Liga Sportiva de Trabalhos Athleticos de organizar o COP. Contudo, por interposição de Mauperrin Santos, concordaram que o Comité devia ser eleito em assembleia de clubes e jornalistas desportivos, aproveitando-se para este facto as reuniões conjuntas de delegados de clubes, jornalistas e diretores da SPEFN que organizavam os JON. E foi o que aconteceu a 30 de Abril de 1912.

Não é de estranhar que Mauperrin Santos tenha defendido que o processo de institucionalização do COP partisse da SPEFN e não da LPTA. Na realidade, Mauperrin Santos nada tinha a ver com a LPTA, enquanto, no que diz respeito à SPEFN, ele era o seu vice-presidente e, como Penha Garcia não se encontrava em Portugal, porque estava voluntariamente exilado na Suíça devido à institucionalização no País do regime republicano, na prática, era o seu presidente embora interinamente. Portanto, Mauperrin Santos foi o primeiro a reconhecer que era necessário fundar um CON porque, de facto, a SPEFN nada tinha a ver com os JO internacionais. E ele, por experiência própria enquanto diretor da Escola Académica, sabia-o bem.

Carta para Pierre de Coubertin

De acordo com as decisões havidas na reunião constituinte do COP, em 12 de maio de 1912, Mauperrin Santos escreveu uma carta a Pierre de Coubertin em que lhe apresentava as homenagens pessoais bem como as do Comité Olímpico Português, ao qual informava presidir.

Esta carta confirma a fundação do COP, tanto mais que é escrita em papel timbrado da SPEPN, da qual Mauperrin Santos era vice-presidente e presidente interino. Mas então porque é que Mauperrin Santos escreveu em papel timbrado da SPEFN? Quanto a nós por duas razões. Em primeiro lugar porque não tinha outro. Em segundo lugar, porque, ao fazê-lo, perante Pierre de Coubertin, conferia credibilidade institucional à fundação do COP. Quer dizer, a SPEFN, que do ponto de vista ideológico superintendia a educação física nacional, reconhecia a fundação do COP. Na carta em questão, Mauperrin Santos procurava também resolver o problema da demissão de membro do COI apresentada por António Lancastre, propondo a sua substituição pelo Conde de Penha Garcia. Este viria a ser o segundo português membro do COI até à sua morte em 25 de abril de 1940. Foi substituído por José Pontes.

O Relatório dos Jogos Olímpicos de Estocolmo (1912)

Mas se do ponto de vista interno a edição d’ Os Sports Ilustrados de 4 de maio de 1912 bem como a carta de Mauperrin Santos para Coubertin atestam inequivocamente a fundação do COP, do ponto de vista externo é o próprio relatório dos JO de Estocolmo (1912) a fazê-lo a páginas 14 quando publica a fotografia dos presidentes e secretários do CONs dos diversos países do mundo e lá estão as fotografias de Mauperrin Santos como Presidente e José Pontes como Secretário do CON português.

Relatório dos JO de Estocolmo quando, a páginas 14, a par dos demais dirigentes olímpicos dos diversos países participantes, Mauperrin Santos e José Pontes, com as respetivas fotografias, são apresentados como presidente e secretário do COP.

A Morte de Francisco Lázaro

Enquanto presidente do COP Mauperrin Santos cumpriu com zelo e eficiência todos os procedimentos relativos à morte de Francico Lázaro. E, em 21 de agosto de 1912, escreveu para o COJO de Estocolmo:

Lisbon, 21 August, 1912.

At an ordinary meeting held under my presidency, the Portuguese Olympic Committee unanimously resolved to write to you to express the deep sense of recognition and gratitude for your unwearied care and protection of the Portuguese competitors during the whole of their stay in Stockholm, as well as for the tokens of deep sympathy you evinced on the lamentable occasion of the death of our fellow — countryman, Francisco Lazaro. The only return the Portuguese Olympic Committee can make for all this exceeding kindness is this expression of its indelible sense of gratitude.

With fraternal greetings,

Dr. Jayme Mauperrin Santos

Presidente

Na realidade, foi Mauperrin Santos enquanto presidente do COP e não Penha Garcia enquanto presidente da SPEFN que escreveu para o COJO de Estocolmo a agradecer a receção à Missão portuguesa. Tal como foi o próprio Mauperrin Santos a desencadear a cerimónia das exéquias que, com pompa e circunstância, se haviam de fazer aquando da chegada da urna com o corpo de Lázaro a Lisboa.

As Exéquias de Francisco Lázaro

Neste sentido, conforme refere a A Capital de 31/07/1912, o COP reuniu-se na Escola Académica, sob a presidência de Jayme Mauperrin Santos, seu presidente, a fim de tratar da manifestação a prestar a Francisco Lázaro aquando da chegada da urna a Lisboa. Em conformidade, a 15 de agosto, seguiu uma carta circular com a identificação do próprio COP a convidar todas as sociedades desportivas para uma reunião a realizar em 26 de agosto, a fim de se tratarem das questões relativas ao funeral de Francisco Lázaro.

O ambiente em Lisboa estava ao rubro na emotividade da frustração dos portugueses. Ao morrer jovem em pleno combate, Francisco Lázaro, no regresso à pátria amada, já morto, interpretou o papel trágico do grande herói grego. Em conformidade, as circunstâncias do seu segundo funeral, para além de todas as justificações porque os mitos não se justificam, foram tratadas de acordo com o ambiente emocional que envolvia o malogrado atleta. Esperava-se, como dizia a carta endereçada por Mauperrin Santos aos clubes desportivos, que Lázaro trouxesse uma medalha para Portugal.

... Francisco Lázaro em quem o Comité Olímpico Português tinha as mais fundadas esperanças que conseguiria para Portugal um lugar de honra e destaque no grandioso certame desportivo dos Jogos Olímpicos de Stocholmo.

Infelizmente, Mauperrin Santos morreu no ano seguinte.

O Sucessor de Mauperrin Santos

Segundo a “Revue Olympique n.º 97, Janvier 1914 o Conde de Fontalva foi eleito Presidente do COP. Diz a revista:

Le Comité Olympique portugais a été récemment éprouvé par la mort de son distingué président M. le Dr. Mauperrin Santos. Le Comte de Fontalva a été élu à la présidence à la suite de ce triste événement. O Conde de Fontalva até esta data tem sido ignorado pelo COP como tendo sido o seu segundo presidente.

Mas já havia pouco a fazer. As disputas políticas e partidárias que assolavam o País, como não podia deixar de ser, tiveram enormes repercussões no mundo do desporto que também se envolveu em lutas intestinas, pelo que acabou por não resistir nem à voragem da República nem, depois, à tragédia que foi a Iª Grande Guerra Mundial (1914-1918).

A continuar

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