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Jogos Olímpicos

José Soares

Uma Visão Empresarial do Nosso Rendimento

José Soares
 
Existe em Portugal e, muito provavelmente, noutros países - particularmente nos mais subdesenvolvidos - uma tendência para exigir ao desporto aquilo que não exigimos a nós próprios. Queremos que um país que se situa muito abaixo da média europeia na maioria dos parâmetros pelos quais se mede o desenvolvimento de um Estado consiga ter uma performance semelhante à conseguida pelos povos que, ao longo dos anos mais recentes da História, se têm mantido na frente do pelotão. Se fizermos uma analogia com as empresas, é pedirmos aos nossos empresários das PME que compitam com as companhias de maior prestígio da Europa ou do mundo. É claro que há excepções: mas não são mais do que isso: encontram-se fora da mancha de concentração. São outsiders.
Desenganemo-nos quando pensamos que o nosso maior ou menor brilho na participação nos JO está relacionado com o facto de sermos um país pequeno. Isso seria como pensar que os suíços, os belgas ou os holandeses nunca seriam prósperos. No desporto como na economia, o tamanho nunca foi condição necessária para o desenvolvimento. Tudo depende da estratégia, da visão, dos planos e do investimento. O exemplo da Inglaterra é bem evidente. Quem conhece o desporto de alto rendimento percebe bem o empenho que esse país colocou na preparação para Pequim. O Instituto Britânico do Desporto tinha, há longo tempo, afirmado claramente como objectivo a conquista de um elevado número de medalhas nestes Jogos. Mas não o afirmou apenas, fez por isso. Os ingleses publicaram (onde está isso feito em Portugal?) as exigências de preparação para os atletas que iriam integrar os planos de preparação para os JO: quanto teriam de medir, quanto teriam de pesar, qual o perfil fisiológico. Isto está há muito publicado na Internet. Elaboraram um plano estratégico detalhado para a acção. Mais uma vez, no desporto como nas empresas. Depois de analisar a conjuntura (nível dos seus atletas, recursos estruturais e financeiros, etc.), as ameaças (adversários, condições ambientais, etc.), as oportunidades (modalidades em que teriam mais hipóteses de ter sucesso, por exemplo), investiram e acompanharam. Acompanhar é monitorizar.
É ir lado a lado, apoiando nos fracassos e estimulando nos sucessos. Não é desenhar o plano e aparecer no final para cobrar. Isso é desresponsabilização intencional. Não foi isso que a Inglaterra fez. Bem pelo contrário: disse que apoiava, como apoiava e que corria side by side com os seus atletas. Resultado: uma das maiores potências mundiais do desporto actual. E não são mil milhões ...
No desporto tal como nas empresas, é necessário avaliar, planear e executar. Não faz sentido que um país como o nosso, com parcos recursos, não determine previamente quais as modalidades mais ajustadas às nossas características, por exemplo, antropométricas.
Do mesmo modo que, nas empresas, teremos sempre de encontrar as áreas de investimento em que temos recursos humanos e tecnológicos mais competitivos, também no desporto teremos de passar por esse processo. Fazer do desporto ou das empresas como se faz com os antibióticos de largo espectro, utilizados de forma indiferenciada quando não se conhece o agente patogénico, não só é muitas vezes ineficaz, como debilita pela adaptação. No antibiótico, no desporto, nas empresas e na vida!
 
Artigo publicado na revista Executive Health & Wellness de Setembro de 2008
 

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Story | by Dr. Radut