Portuguese English

Os Jogos Olímpicos

Perspetivas Futuras (*)

João C. Boaventura

Druon apresentou, em 1980, à Comissão da Cultura e da Educação do Conselho da Europa, um extenso relatório onde historiou as origens dos Jogos Olímpicos para argumentar a necessidade de centrar, de uma vez por todas, a sede dos Jogos Olímpicos em Olímpia (Grécia), local geográfico da sua génese.

A razão ou razões da proposta: recuperar o espírito olímpico, perdido por motivos, económicos, comerciais e publicitários. Daqui a proposta do estabelecimento permanente dos Jogos na Grécia, à qual acresceria a eliminação dos jogos colectivos e a comercialização. Com o que se não concorda. Os excessos hão-de existir sempre, quer os jogos se realizem em Olímpia ou em Seul, Roma, Moscovo ou Los Angeles. Como diria Pierre de Coubertin: «A ideia de suprimir o excesso é uma utopia dos não desportistas». O excesso publicitário e comercial tem permitido ao Comité Internacional Olímpico obter uma boa fonte de receita, a qual lhe vem facultando, através da Solidariedade Olímpica, o poder acudir aos países menos favorecidos desportivamente.

Por outro lado, os Jogos ganharam a sua universalidade, porque festejados quadrienalmente em locais diferenciados, porque património da cidade que organiza. A festa, ao quebrar a rotina e ao mostrar ao homem o passado, amplia a sua experiência, aumenta as suas possibilidades de inovação e reduz-lhe o seu provincianismo. Os Jogos Olímpicos não podem voltar a ser os antigos Jogos do Mediterrâneo nem vir a ser os Jogos etnocêntricos do futuro, em termos geográficos.

A fantasia permite à cidade organizadora apresentar os Jogos cada vez mais ricos, mais alegres, mais criativos. Melburne foi diferente de Tóquio, Moscovo diferente de Los Angeles. Não se pode tirar a cada cidade a capacidade de festejar e fantasiar os Jogos Olímpicos.

Mesmo com excessos calculados os Jogos universalizam o homem, porque liberto das convenções, porque fugindo às normas do comportamento habitual. E a despeito do fracasso da organização, da derrota do país ou do desastre financeiro, a capacidade afirmou-se e apostou nos jogos, na vida, na alegria, na festa, independentemente dos resultados.

E ganhou em instalações desportivas que, de outra forma, não teria.

E, talvez por isso, porque a festa conhece o trágico, ela consiga subsistir: é uma afirmação da vida. E esta afirmação já não cabe em exclusivo a Olímpia ou à Nova Olímpia.

Pertence, todos os quatro anos, excepcionalmente, a uma cidade, a um país, a um continente.

O espírito olímpico não se perdeu. Afeiçoou-se ao tempo.

---***---

(*) Acabou de fazer um ano sobre o falecimento do Prof. João Correia Boaventura (1 de outubro de 1924 - 26 de março de 2013). Com autorização de sua filha Maria João Boaventura publicamos um pequeno texto do Prof. Boaventura publicado em 1986 que, passados que estão 28 anos, nos permite ver quanto, por vezes, as instituições estão profundamente erradas relativamente às pessoas que conhecem, sabem e estudam os problemas. Por isso,  perante as burocracias instaladas com todo o poder e nenhuma autoridade, felizmente, há sempre alguém que diz não vou por aí. E foi o que o Prof. Boaventura fez, perante um relatório do Conselho da Europa com uma proposta que passados que estão estes anos todos, com toda a clareza, podemos perceber quanto as suas propostas estavam erradas. Embora discordando delas o Prof. João Boaventura não o deixou de publicar o relatório no número 16 da coleção "Desporto e Sociedade" editada pela Direção-geral dos Desportos. Contudo, também não deixou de dizer que não concordava.

No fundo, o que o relatório do Conselho da Europa propunha era, em primeiro lugar, acabar com o comercialismo e a política nos Jogos Olímpicos, eventualmente até, para se voltar aos valores do “mens sana e corpore sano” de Juvenal. Em segundo lugar, o relatório pugnava pela entrega dos Jogos Olímpicos à Grécia e, em consequência, ao estado Grego passando o evento a realizar-se sempre na Grécia numa Nova Olímpia que havia de ser construída perto da antiga.  

Felizmente, como ao tempo o Prof. João Boaventura explicou, qualquer das propostas não tinha razão de existir. E a prová-lo aí estão os Jogos Olímpicos cada vez mais pujantes de cultura e modernidade.

Menu principal

Story | by Dr. Radut