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Georges Magnane

O Seu Contributo para a Sociologia do Desporto

Vítor Rosa (*)

 

"O primeiro herói que eu encontrei fora de um livro era um corredor ciclista". É por estas palavras que René Catinaud (1907-1985), mais conhecido pelo pseudónimo de Georges Magnane, introduz o seu romance Les hommes forts, publicado em 1942 [1]. Ele evoca o encontro com o desporto e, em filigrana, a fascinação pelos corpos robustos que nos cruzamos nas práticas desportivas. Magnane estudou o desporto no contexto de três décadas: de 1930 a 1960. Decide de tomar o desporto como objeto de estudo, abordando-o sobre o ângulo da sociologia [2]. Em 1960, ele obtém um lugar no CNRS (França) e trabalha com uma equipa de investigadores dedicados à temática "Sociologia do Lazer e dos Modelos Culturais" [3].

O autor apoia-se em várias monografias realizadas pelos estudantes do Centro de Formação e de Estudos de Educação, da Escola Normal Superior de Educação Física, segundo os objetivos definidos por Magnane e sob a égide do CNRS, e de vários alunos das Escolas Normais de Instrutores. O seu estudo sobre as instituições desportivas beneficiou da preciosa ajuda dos seus colegas do Alto Comissariado dos Desportos.

O seu ensaio Sociologie du Sport (1964) [4], surge dois anos depois das obras de Joffre Dumazedier, Vers une civilisation du loisir, e de Edgar Morin, com L'Esprit du temps, duas obras que se preocupam com a massificação dos lazeres e da estandardização da cultura ligadas às transformações da sociedade industrial e a extensão dos lazeres na vida quotidiana. A sua obra é a primeira do género em França e constitui uma peça histórica interessante pelo número de pistas levantadas, que permitem pensar o fenómeno desportivo. Ele comporta quatro partes: "O desporto na vida quotidiana" (1.ª parte); "O desporto atividade de lazer" (2.ª parte); "Popularidade do desporto" (3.ª parte); e "Desporto, meio de cultura" (4.ª parte). A sua obra foi traduzida em várias línguas, nomeadamente o português [5].

A obra de Magnane abriu uma via para um conjunto de análises históricas, filosóficas e psicológicas, que Jacques Ulmann (1965), Michel Boeut (1968) e Bernard Jeu (1977) [6], [7], [8] continuaram depois.

A sua aproximação ao desporto, continua a ser considerada pertinente para alguns sociólogos contemporâneos, como Jacques Defrance [9] ou Jean-Paul Callède [10]. Note-se também que, quando a publicação de Magnane saiu, o campo disciplinar STAPS – Ciências e Técnicas das Atividades Físicas e Desportivas, fileira universitária francesa (74.ª sessão), que prepara para as diferentes profissões ligadas ao desporto: professores de educação física, educador desportivo, treinador, etc., ainda não tinha visto o dia, o que só viria a acontecer em 1980.

Mas não se pode reduzir Magnane a um simples observador crítico do fenómeno desporto. Ele viveu a "experiência desportiva" polivalente. Atleta, professor de inglês, romancista, tradutor, cinéfilo, maçom do Grande Oriente de France [11], Magnane quis-se fazer de sociólogo. Um sociólogo original e em consonância com o seu tempo, e inscreveu-se nas pesquisas sobre o lazer iniciado por Dumazedier (1962) [12]. Ele procurou compreender a sociedade e o sistema desportivo, através de um triplo olhar do homem de letras, do sociólogo e do desportivo.

No seu pequeno livro Regards neuf sur les Jeux Olympique [13], que não tem nada de sociológico numa primeira análise, coordenado por Joffre e Janine Dumazedier, ele propõe uma contribuição intitulada "L'esprit olympique". O desporto é suscetível de produzir os melhores e os piores efeitos, enquanto representação de um meio cultural O autor é, no entanto, convencido do interesse social do desporto. A propósito do espetáculo-desportivo, Meynaud [14] está de acordo com Magnane ao dizer que é uma espécie de "catarse coletiva" proposta e indispensável ao homem moderno.

Será que o livro Sociologie du sport continua a ser uma fonte de inspiração para o sociólogo do desporto e do historiador? Difícil de dizer, tanto o discurso parece díspar. No entanto, apesar da distância temporal, cremos que, num trabalho sério sobre o desporto, não se poderá deixar de consultar a sua obra. O impacto da obra de Magnane pode-se apreciar, retrospetivamente, em função de indicadores precisos, objetivos, e, por outro lado, baseado em diversas fontes de informação.

Para concluirmos, Georges Magnane, que não se considerava como um "autor de obras de sucesso" [2], contribuiu para um novo élan da sociologia francesa, nos anos 1960, permitindo individualizar e repertoriar domínios concretos da sociedade contemporânea (sociologia do lazer, sociologia urbana, sociologia do trabalho, sociologia da delinquência juvenil, etc.). A leitura do seu livro, que parece mais empírico do que científico, conheceu um sucesso importante, em particular junto daqueles que se interessam (ou se interessaram) pelo estudo do fato desportivo.

 

Referências

 

[1] O romance Les hommes forts (1942) é uma parábola da França de 1941, uma frança desfeita e abatida; uma França sem grandes esperanças no futuro. De 1942 a 1944, Magnane não escreve mais nenhum texto. A partir de 1944, encontra-se um contributo para a revista semestral L'Arbalète, consagrada à literatura americana com a tradução de um trecho do romance L'Homme de Dieu de Erskine Caldwell.

[2] Cf. http://www.ina.fr/audio/PHD99261921, entrevista a Georges Magnane, em 17 de janeiro de 1965, a partir de 6'24'', consultado em 20/06/2017.

[3] Bauer, Thomas (dir.) (2015). Georges Magnane : la plume et le sport. Paris : Épure.

[4] Magnane, Georges (1964). Sociologie du sport. Paris : Gallimard.

[5] Magnane, Georges (1974). Popularidade do Desporto. Lisboa: Direção Geral dos Desportos, Ministério da Educação e Cultura (Col. Cultura e Desporto, 9), 44 páginas.

[6] Ulmann, Jacques (1965). De la gymnastique aux sports modernes. Paris : Vrin.

[7] Bouet, Michel (1968). Significations du sport. Paris : PUF.

[8] Jeu, Bernard (1977). Le sport, l'émotion, l'espace. Paris : Vigot.

[9] Defrance, Jacques (1995). Sociologie du sport. Paris : La Découverte.

[10] Callède, Jean-Paul (2007). La sociologie française et la pratique sportive. Pessac : MSHA.

[11] O seu livro L'Épee du roi (1937), cuja ação se passa em Marselha, é um romance de iniciação maçónica. Magnane foi iniciado na maçonaria, numa loja situada em Marselha, "La Parfaite sincérité", do GODF, em 12 abril de 1935. Mais tarde, vai se afiliar numa loja parisiense "1793", assim denominada em lembrança dos Montagnards e de Robespierre. Cf. Arquivos do GODF (Paris). Correspondances de Loge - Boite d'archives n.° 1298 - Marseille "Parfaite sincérité" (1927-1940).

[12] Dumazedier, Joffre. Vers une civilisation de loisirs ?. Paris : Seuil.

[13] Magnane, Georges (1952). "L'esprit olympique". In Joffre e Janine Dumazedier (1952). Regards neufs sur les Jeux Olympiques. Paris : Seuil, pp. 11-15.

[14] Meynaud, Jean (1966). Sport et politique. Paris : Payot, p. 7.

 

(*) Docente/Investigador na ULHT - Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias

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Story | by Dr. Radut