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FITescola

A Força pela Saúde - O Corpo ao Serviço da Pátria

Gustavo Pires

 

… ao estudar a sciencia da educação physica temos de assenta-la n’um conhecimento exacto  dos principios geraes  e fundamentaes da anatomo-physiologia,  donde decorre já uma pedagogia; mas temos a coroa-la também os dados de uma sciencia sobrenatural que a completa, afina e justifica.

                                                                                                                                          Weiss de Oliveira, 1929

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No editorial “Uma Oportunidade Única” da Revista Olimpo nº 142 referente aos meses de Abril / Junho de 2015 assinado pelo presidente do Comité Olímpico de Portugal José Constantino pode ler-se:

...a aplicação às escolas a partir do próximo ano letivo da plataforma interativa FITescola permitindo para além de uma avaliação quantitativa de atributos físicos para desempenho desportivo, a avaliação qualitativa das habilidades motoras e das capacidades funcionais por parte dos professores de Educação Física é uma oportunidade de rastrear o potencial dos jovens em idade escolar e proceder a um aconselhamento mais influente.

Quando o presidente do COP refere tal desiderato como uma “oportunidade única” ele não esclarece para quem. Por isso, e porque estamos perante uma disciplina curricular (a disciplina de educação física), que deve garantir a igualdade de oportunidades para todos os estudantes portugueses temos de perguntar:

  • Trata-se de uma oportunidade para o Estado que, assim, à semelhança do que se passava na antiga República Democrática Alemã, coloca a disciplina de educação física ao serviço da honra e da glória do regime?
  • Trata-se de uma oportunidade para uns académicos para quem a “biologização” do Movimento Olímpico é uma oportunidade para produzirem mais uns artigos que, muitas vezes, nos circuitos fechados em que funcionam as revista científicas, não passam de “lixo científico”?
  • Trata-se de uma oportunidade para os políticos que, através de uma esquizofrénica obsessão por medalhas olímpicas esquecem os princípios determinados no artigo 79º da Constituição da Republica Portuguesa: (1º) Todos têm direito à cultura física e ao desporto. (2º) Incumbe ao Estado, em colaboração com as escolas e as associações e coletividades desportivas, promover, estimular, orientar e apoiar a prática e a difusão da cultura física e do desporto, bem como prevenir a violência no desporto?
  • Trata-se de uma oportunidade para uns senhores dirigentes desportivos bem instalados nos “meandros” do desporto para quem uma medalha olímpica vale bem mais do que 100 mil praticantes desportivos?
  • Finalmente, trata-se de uma oportunidade para a populaça que, na alienação de uns resultados olímpicos sem significado para o desenvolvimento do desporto e do País, na mais profunda ilusão, sublima as frustrações da sua vida?

Estamos em crer que a “oportunidade única” não vai ser nem para os alunos, sobretudo para a grande maioria que, em nome do rendimento, vai ser expurgada do sistema por incapacidade, nem para os professores que, perante a ausência de políticas públicas devidamente integradas, acabam por ser transformados em simples instrumentos de desígnios que nada têm a ver nem com a Constituição da República Portuguesa quando determina que “todos têm direito à cultura física e ao desporto”, nem com os valores do Olimpismo “enquanto filosofia de vida que coloca o desporto ao serviço do desenvolvimento humano”.

Perante a esquizofrenia política das medalhas olímpicas que tomou conta dos dirigentes políticos e desportivos a partir de 2004/2005 (Contrato-programa de desenvolvimento desportivo nº 48/2005), parafraseando Karl Popper, diremos que, quando o presidente do COP rejubila pela aplicação do FITescola à disciplina de educação física, é a miséria do Olimpismo do Olimpismo que ele está a promover. Porque, ao rastear-se o potencial dos jovens em idade escolar afim de “proceder a um aconselhamento mais influente” no âmbito da prática desportiva, à revelia do princípio da universalidade que deve reger os princípios da disciplina de educação física, acaba-se a promover uma estratégia da mais pura “eugenia pedagógica” que, em última análise, “coloca o corpo dos alunos ao serviço da pátria”.

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Story | by Dr. Radut