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A Família Herédia e o Olimpismo

Francisco Fernandes

O Doutor Francisco Fernandes é um caso singular no mundo do desporto nacional. Nasceu no Funchal em 1952, viveu alguns anos na cidade da Horta, onde conclui os estudos no âmbito do ensino secundário. Posteriormente, em Lisboa, obteve uma Licenciatura em Finanças no Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa e, mais tarde, um Mestrado em Gestão do Desporto e um Doutoramento em Motricidade Humana na Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa. É, ainda, Doutor Honoris Causa em Administração Pública pela Universitas Sancti Cirilli de Malta.

O Doutor Francisco Fernandes tem dedicado com brio e proficiência a sua vida ao desporto. Foi jogador e treinador de basquetebol, fundou o Clube dos Amigos do Basquetebol na Região Autónoma da Madeira tendo sido seu dirigente. Nos anos noventa foi presidente do Instituto do Desporto da Região Autónoma da Madeira e, posteriormente, Secretário Regional de Educação e Cultura. O Doutor Francisco Fernandes para além de participar com regularidade em congressos científicos no âmbito do desporto tem vários livros publicados relativamente à problemática do desenvolvimento do desporto.

O ensaio da autoria do Doutor Francisco Fernandes que a coleção “Estudos Olímpicos” agora publica é uma homenagem à família Herédia que, a partir do seu patriarca D. Francisco Correia Herédia, visconde da Ribeira Brava, protagonizou alguns dos momentos mais significativos da institucionalização do desporto em Portugal.

Os ensaios históricos no domínio do desporto têm sido raros entre nós. Em consequência, o conhecimento histórico do desporto em Portugal, em especial no domínio do Movimento Olímpico, tem estado sujeito a erros, confusões e omissões, que acabam por construir uma espécie de “folclore histórico” que, muito embora não corresponda à veracidade dos factos, contudo, parece deixar o nosso nacional dirigismo desportivo mais ou menos satisfeito. Ora, tal situação deve ser superada através de trabalhos conduzidos com verdade, rigor e paixão, como é o caso do presente ensaio do Doutor Francisco Fernandes.

Como o autor faz notar, a dinâmica do Movimento Olímpico em Portugal ficou-se a dever a gente do povo para quem o desporto, quando não era um instrumento de trabalho, era um meio de supercompensação de uma vida cheia de dificuldades. Mas também se ficou a dever ao empenho de grupos sociais de diferente estatuto desde logo os membros da Família Real que, na qualidade de praticantes e de dirigentes, se envolveram nas questões desportivas.

Mas não foram só os membros da Família Real a empenharem-se no desenvolvimento do desporto. Outras famílias da nobreza bem como da burguesia mais ou menos abastada também o fizeram, a partir dos seus elementos mais jovens que, para além da vincada estratificação social, também se entregaram de alma e coração à prática de diferentes desportos. E se o desporto singrou em Portugal muito se ficou a dever a esta conjugação de esforços. E Francisco Fernandes dá-nos o exemplo das disputas entre Sebastião Herédia e outros campeões nacionais com José Bento Pessoa o grande campeão popular, como refere Romeu Correia.

Assim sendo, para além do folclore e até do eventual romantismo com que, muitas vezes, as questões do foro desportivo são tratadas, é necessário esclarecer os factos históricos como o Doutor Francisco Fernandes o faz, desde logo porque jamais será possível a um país, seja ele qual for, viver o presente e organizar o futuro a partir de um conhecimento histórico que não seja fidedigno daquilo que, na realidade, aconteceu. Quer dizer que, um futuro organizado sobre um passado que não aconteceu é um futuro sem futuro nenhum.

E a pergunta que se impõe é a seguinte: cabe à história a profecia?

Os historicistas dizem-nos que sim, pelo que, se para Ortega y Gasset (1883-1955) “a história só é labor científico na medida em que torne possível a profecia”, o que significa que “prever o futuro é pôr a história a andar ao contrário”, para George Orwell (1903-1950) “quem controla o passado controla o futuro e quem controla o presente controla o passado”. Assim sendo, muito embora se compreenda o sentido negativo da expressão de Orwell, é fundamental controlar o presente a fim de se controlar o passado e, deste modo, preservando a verdade histórica, organizar um futuro com um verdadeiro e promissor significado para as novas gerações. Portanto, se quisermos fazer o futuro acontecer, temos de partir de um passado ao qual possamos atribuir a máxima veracidade a fim de se poder projetar um futuro que valha a pena fazer acontecer.

E, porque à história do desporto nacional fica associada a figura do madeirense Sebastião Herédia que participou nos Jogos Olímpicos de Amesterdão (1928), em Esgrima/Florete, o Doutor Francisco, em busca das raízes do desporto nacional, aprofundou o estudo do perfil de Francisco Correia Herédia para, a partir dele, estudar a vida de desportistas de alto gabarito protagonizadas pelo seu filho, Sebastião Herédia, e pelos seus netos, Sebastião de Freitas Branco Herédia, António Guedes de Herédia e Maria Luísa Herédia. E assim, no quadro atual do desenvolvimento do desporto nacional este trabalho do Doutor Francisco Fernandes assume uma importância superior, na medida em que ultrapassa o discurso da tradição popular construído ao longo dos tempos para, a partir de uma abordagem rigorosa dos factos e da interpretação que, do ponto de vista científico, deles é possível fazer.

Na sequência do exercício das funções que exerceu, dos trabalhos académicos e científicos que elaborou, o Doutor Francisco Fernandes, com este novo livro, contribuiu com mais uma achega para melhor podermos controlar o passado, a fim de melhor esclarecermos o presente com o objetivo de melhor organizarmos um futuro que desejamos construir. Nesta perspetiva comungamos da ideia de que o futuro já está entre nós, pelo que, para o fazer acontecer é necessário conhecermos cada vez melhor o nosso passado. Ora este novo livro de Francisco Fernandes dedicado à família Herédia significa tão só mais um passo no sentido de fazer o futuro acontecer no respeito por aqueles que do seu futuro fizeram um presente que hoje nos é dado viver.

Assim sendo, neste seu segundo livro, a coleção “Estudos Olímpicos” traz à estampa um trabalho do Doutor Francisco Fernandes “Cem anos de Olimpismo, a Família Herédia e o Olimpismo”. Um trabalho que ao relatar a vida desportiva da família Herédia ajuda-nos a compreender o desenvolvimento do desporto no País.

Obrigado Doutor Francisco Fernandes.       

Gustavo Pires

2013-12-17

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Story | by Dr. Radut