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Eleições para a Presidência do COI

São Seis os Candidatos à Presidência do COI

A eleição que determinará quem vai ser o próximo presidente do Comité Olímpico Internacional (COI) está prevista para ocorrer a10 de setembro, durante a 125ª Sessão do Comité Olímpico Internacional (COI)  a realizar de 7 a 10 setembro em Buenos Aires. As candidaturas num total de seis foram apresentadas até ao passado dia 6 de junho. São elas por ordem alfabética:

1.  Ching-Kuo Wu (chinês de Taiwan),
2.  Denis Oswald (suiço),
3.  Richard Carrión (porto-riquenho),
4.  Ser Miang Ng (singapurense),
5.  Sergey Bubka (ucraniano),
6.  Thomas Bach (alemão).

Cada um dos candidatos, no próximo dia 4 de Julho em Lausana terá oportunidade de apresentar aos membros do COI o seu programa de candidatura.

Claro que todos dirão que, no espírito da Carta Olímpica as suas candidaturas serão livres e independentes de preconceitos de género raça etc., etc., bem como dos governos dos respetivos países. Porém, uma coisa é o folclore das proclamações diplomáticas e outra, completamente diferente, a realidade dos factos e das circunstâncias da vida real.

Entre os candidatos que se apresentam o chinês de Taiwan, Ching-Kuo Wu, parece-nos ser aquele que está na pior situação. A bem ver, ele está completamente fora do concurso. Só pela mais pura irresponsabilidade, a assembleia eleitoral do COI poderá alguma vez eleger alguém que causaria o mais profundo desagrado à nomenclatura dirigente da Republica Popular da China (RPC). A candidatura de Ching-Kuo Wu aos olhos da diplomacia da RPC será sempre vista como mais uma provocação de Taiwan na linha de mútuas provocações que, desde 1952, tem caracterizado as relações dos dois países no seio do Movimento Olímpico internacional. Seria voltar a trazer para o MO a questão das “duas chinas” que, tendo-se iniciado em 1952 levaria, em 1956, a RPC a abandonar o MO. O seu regresso só veio a acontecer em 1979 muito embora a questão das “duas chinas” ainda não esteja totalmente concluída.

No que diz respeito ao porto-riquenho Richard Carrión ele é proveniente de um território sem personalidade jurídica que aguarda a aprovação do Congresso dos EUA a fim de se transformar em mais um estado dos EUA. Num recente referendo mais de 65% da população porto-riquenha votou pela integração do território nos EUA. Por isso, a eleição de Carrión, a acontecer, parecerá sempre a eleição de um cidadão norte-americano. Ora, ainda não estão resolvidos todos os problemas que Avery Brundage o único americano que presidiu ao COI, por lá deixou ficar nos seus vinte anos de presidência. Por isso, não nos quer parecer que Carrión esteja em muito boa posição para vir a ocupar a presidência do COI.

A candidatura do ucraniano Sergey Bubka, um antigo atleta olímpico, pode aparecer aos olhos de alguns como fortíssima mas ela tem “pés de barro”. Bubka, do ponto de vista desportivo, do ponto de vista académico e do ponto de vista do dirigismo, tem um currículo impressionante. Todavia, ele é proveniente de um país que, para além de não oferecer a necessária tranquilidade aos membros do COI dos países ocidentais, quer-nos, também, parecer que jamais terá o apoio da Rússia que se moverá certamente contra a sua eleição. Portanto, Bubka dificilmente será eleito.

A desconfiança também atinge o alemão Thomas Bach. Com formação académica na área jurídica e política, faz parte de vários conselhos de administração de várias empresas. Enquanto praticante desportivo foi campeão olímpico nos JO de Montreal (1976) e várias vezes campeão do mundo. Na qualidade de dirigente desportivo foi um dos fundadores em 2006 da Confederação Olímpica do Desporto Alemão uma união da Confederação Alemã de Desporto e do Comité Olímpico Nacional Alemão que havia sido fundado em 1895. Apesar destas credenciais, muitos dos membros do COI devem lembrar-se que a Alemanha, ainda hoje, deve à instituição alguns compromissos que sobraram dos Jogos Olímpicos de Munique (1972). Depois, aos olhos do mundo, os alemães estão a revelar-se extremamente egoístas incapazes sequer de compreenderem os problemas da Europa para além do seu umbigo. A atitude dos seus dirigentes fazem-nos acreditar que as possibilidades de Bach serão muito limitadas. Até porque, hoje, na Europa, pelo menos, parece estarem a surgir na mente de milhões de cidadãos europeus alguns fantasmas do passado, pelo que a candidatura de um alemão à presidência do COI não deve vir a ter uma adesão por aí além. Uma Alemanha com mais um palco para a firmar toda uma arrogância contida desde 1945 é qualquer coisa que não deve interessar ao Movimento Olímpico.

Nesta linha de falta de confiança também se encontra o singapurense Ser Miang Ng. Gestor formado pela Universidade de Singapura, foi membro do Parlamento (2002-2005) é embaixador na Hungria e na Noruega. É membro e preside a várias empresas. Praticante desportivo de diversas modalidades nunca atingiu um nível digno de menção. Dos candidatos é mesmo o que apresenta o currículo desportivo mais pobre. Enquanto dirigente, é vice presidente do Comité Olímpico de Singapura e da Federação Internacional de Vela. Preside à Academia Olímpica de Singapura. Foi presidente da Comissão Organizadora dos Jogos Olímpicos da Juventude de Singapura (2010). É presidente e vice-presidente de uma de uma espantosa coleção de organizações desportivas entre elas o COI. Singapura é considerado um dos tigres asiáticos com uma economia a crescer acima dos 8%. Se na perspetiva do COI esta circunstância até seria muito positiva e foi por isso que lá se realizaram os primeiros Jogos Olímpicos da Juventude em 2010, contudo, aos olhos dos ocidentais, a cidade estado é também vista com desconfiança. O Partido de Ação Popular (PAP) ganhou todas as eleições desde a concessão britânica de autonomia interna em 1959! Assim sendo, o regime é visto como autoritário e demasiado restritivo no que diz respeito às liberdades individuais dos cidadãos.

A bem ver, dos cinco candidatos até agora considerados, o único verdadeiramente conhecido é Sergey Bubka que ainda está presente na memória de muitos milhões de pessoas com as famosas subidas milimétricas da fasquia em função dos proventos económicos nos grandes eventos internacionais. Apesar disso somos de opinião de que as hipóteses mais favoráveis estão do lado do suíço Denis Oswald.

São três a razões que nos levam a pensar que Denis Oswald será o próximo presidente do Comité Olímpico Internacional. A primeira, é o seu currículo que, na realidade, não deixa margem para qualquer crítica. Do ponto de vista desportivo, Oswald foi atleta na modalidade de remo. Várias vezes campeão nacional participou nos JO do México (1968) (medalha de bronze), Munique (1972) e Montreal (1976). Do ponto de vista profissional é jurista, advogado e juiz do Tribunal Arbitral de Desporto, para além de professor universitário. Enquanto dirigente desportivo foi secretário-geral (1978-1989) e depois presidente (1989-) da Federação Internacional de Remo. Pertence ao COI desde 1991 e à sua Comissão Executiva há 12 anos. Por isso, segunda a Carta Olímpica, Oswald está no limite de tempo possível enquanto membro da CE (12 anos) pelo que, para lá continuar, tem de vencer as eleições. A segunda razão tem a ver com o facto de Oswald ser suíço. O estatuto da suíça no quadro das nações representa para ele uma vantagem competitiva sobre os demais membro que não pode ser desprezada. A terceira razão é histórica. Relaciona-se com os primórdios do Movimento Olímpico e a sucessão de Pierre de Coubertin.

Quando, durante a 1ª Guerra Mundial, em 1916, Coubertin se teve de alistar no exército, coube naturalmente a Godfroy de Bolonay (1869-1937) que era suíço e membro do COI desde 1899 substituir interinamente Coubertin o que aconteceu entre 1916 e 1919. Por isso, quando em 1925 Coubertin não se candidatou à presidência do COI todos esperavam que o seu sucessor fosse Godfroy de Blonay. De facto deve ter sido uma surpresa para todos porque, por exemplo, como se pode verificar na ata da Sessão de 1910, quando Coubertin que presidia às sessões desejava manifestar a sua opinião abdicava da presidência da mesma e pedia a Godfroy de Blonay para conduzir os trabalhos. Terminada a sua intervenção Coubertin voltava à primeira forma. Pode-se ainda constatar na ata da Sessão de 1919 (p. 6-7) o agradecimento e louvor de Coubertin dirigido a Godefroy pelo “zelo e competência com que ele o substituiu durante grande parte do período de guerra”.

O que é facto é que quem acabou por ser eleito foi o belga Henri Baillet-Latour. E porquê? Blonay já havia substituído anteriormente Coubertin devido a uma crise financeira pela qual este passara. Ora, na perspetiva de Coubertin, parece que Bloney exorbitou dos seus poderes. E, segundo David Miller,[i]  foi esta a razão pela qual Blonay  não foi naturalmente escolhido para substituir Coubertin.

Talvez tenha sido uma injustiça de Coubertin. É um assunto que está por esclarecer. Quer dizer, o que é que concreta e verdadeiramente aconteceu.

Entretanto, quer-nos parecer que chegou a hora de fazer alguma justiça se é que alguma justiça ainda pode ser feita. Assim sendo, os membros do COI vão ter a oportunidade de elegerem para seu presidente um suíço que para além de apresentar um currículo notável a sua eleição acabará por, 88 anos depois, pôr a história no seu lugar.

GP, 2013-07-01.

 

[i]David Miller (2008). The Official History of the Olympic Games and the IOC: From Athens to Beijing, 1894-2008. Edinburgh: Mainstream Publishing Company.

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Story | by Dr. Radut