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Educação & Desporto

Pinto CorreiaA Educação e o Desporto e a Educação pelo Desporto

José Pinto Correia (*)

As sociedades modernas nos países mais desenvolvidos da Europa, da América do Norte e mais recentemente da Ásia são principalmente baseadas no conhecimento, quer de carácter científico e tecnológico quer artístico e literário, sendo as pessoas, com as suas capacidades e competências diversificadas e criadoras, determinantes nos níveis de progresso contínuo material e imaterial.

A escola, desde os primeiros níveis até ao ensino universitário, continua a ser a instituição fundamental para a transmissão dos conhecimentos historicamente adquiridos, bem como para a criação das aptidões de criatividade, ousadia, visão do futuro, resolução de problemas complexos, espírito crítico e vontade de ruptura, que os jovens adultos detêm e que pelas suas iniciativas transferem ao longo das suas vidas para a sua sociedade.

No seio da escola existem actividades desportivas, ligadas aos respectivos curricula, nomeadamente através da denominada educação física. Há muitos anos que se faz conceptualmente a distinção entre desporto e a simples actividade física ou mesmo a curricular educação física. Ora, é precisamente no desporto que podem encontrar-se as características essenciais que apoiarão os jovens praticantes a mais eficazmente contribuírem para a evolução pessoal e social das suas comunidades nacionais.

De facto, no desporto exigem-se níveis de concentração e competição, estratégias e tácticas pessoais ou de equipa, coesão de grupo associada a emergência de líderes, graus elevados de eficácia relativamente ao alcance de objectivos, níveis de eficiência ambiciosos que conduzam a bons resultados, cumprimento de regras de jogo, espírito de corpo e de sacrifício pessoal e colectivo, tudo elementos que ajudam a corporizar nos praticantes desportivos uma filosofia de vida que concorre para a sua inclusão e para a sua capacidade sadia de afirmação nos domínios diversos da vida social, económica e cultural moderna.

A UNESCO acabou de publicar, em conjugação com outras entidades, entre as quais o “Comité Olímpico Internacional (IOC)” e o “Conselho Internacional para a Ciência do Desporto e a Educação Física (ICSSPE)”, um guia de orientação para a prática da educação física de qualidade (“Quality Physical Education”, QPE, 2015). Logo no seu prefácio, a directora-geral daquela organização das Nações Unidas, Irina Bokova, afirma que “A nossa visão é clara – o desporto e a educação física são essenciais para a juventude, para vidas saudáveis, para sociedades resilientes, para lutar contra a violência. Mas isto não acontece por si mesmo – entra em acção pelos Governos e pelo apoio da comunidade internacional.” Há aqui, desde logo, um reconhecimento do papel transversal que o desporto pode deter na estabilização das relações sociais ou na promoção de vidas mais saudáveis, evitando níveis de conflitualidade elevados ou favorecendo a inclusão dos jovens em situação de perigo de exclusão.

Todavia, a UNESCO no mesmo documento continua a fazer a equivalência da contribuição do desporto e da simples educação física para o favorecimento de condições de vida individual mais efectiva, salutar e inclusiva. E isso é expressamente assumido na seguinte afirmação (do referido documento da UNESCO): “A participação na educação física de qualidade demonstrou que instila uma atitude positiva para com a actividade física, diminui as possibilidades dos jovens se envolverem em comportamentos de risco e tem impactos positivos no desempenho académico, ao mesmo tempo que fornece uma plataforma para a mais larga inclusão social.” Não é de agora este entendimento de que a educação física estaria no mesmo patamar do que o desporto, porque de facto já na Declaração de Berlim em 2013 da Conferência dos Ministros do Desporto da UNESCO, a MINEPS V, se afirmava também o seguinte: “A educação física é o meio mais eficaz para fornecer a todas as crianças e jovens as competências, atitudes, valores, conhecimento e entendimento para a participação ao longo da vida na sociedade.”

Ora, a educação física, tal como desde há muitos anos e ainda hoje é realizada em Portugal, tem muitos menos aptidões que a prática desportiva, mesmo a que é realizada em contexto escolar sob a “tutela” da educação física, para o desenvolvimento da personalidade individual complexa e criativa que a sociedade moderna do conhecimento e da globalização competitiva exige (como acima foi descrita). Porque é no desporto, e não na rudimentar e muito passiva educação física, que os indivíduos e as equipas aprendem a superar a competição, desenvolvem capacidades técnicas individuais e de grupo que lhes possibilitam a concretização de estratégias ou tácticas de jogo competitivo, aprendem a lidar com o fracasso e o sucesso que tem expressão no resultado do jogo, ultrapassam níveis de conflitualidade e agressividade próximos do incomportável, podem desenvolver e colocar em acção as suas capacidades individuais de liderança, e sustentam a sua auto-estima e valorização individual e de equipa.

Ora, é tudo isso que está subjacente à original essência do desporto que, aliás, conduz o documento da UNESCO em apreço a definir “o desporto como compreendendo todas as formas de actividade física que contribuem para a boa condição física, o bem-estar mental e a interacção social. Aquelas actividades incluem o jogo, a recreação; o desporto organizado, ocasional ou competitivo; e os desportos e jogos indígenas (Fonte: UN Inter-Agency Task Force on Sport for Development & Peace, 2003)”.

Devemos de imediato destacar que esta definição de desporto é bem diversa da própria definição que no mesmo documento se dá para a “Educação Física de Qualidade (QPE) [como sendo] a experiência inclusiva de aprendizagem planeada e progressiva que forma parte do currículo nos primeiros anos, na educação primária e secundária. A este respeito, QPE actua como a fundação para o envolvimento ao longo da vida na actividade física e no desporto. A experiência de aprendizagem oferecida às crianças e aos jovens através das lições de educação física deveriam ser desenvolvidamente adequadas para os ajudar a adquirirem competências psicomotoras, o entendimento cognitivo, e as competências sociais e emocionais que eles necessitam para liderar uma vida fisicamente activa (Fonte: adaptado de Association for Physical Education, Health Position Paper, 2008)”.

O desporto e a simples educação física não estão de facto ao mesmo nível na promoção das qualidades e capacidades individuais e grupais que as sociedades modernas exigem. Mas isso impõe que no contexto escolar, aos seus diferentes níveis, mas especialmente no básico e secundário e superior, a prática desportiva seja privilegiada, pois dela resultam evidentes benefícios individuais, sociais e económicos. Como afirmou o Presidente do IOC, Thomas Bach, quando apresentou o documento da UNESCO que temos vindo a referenciar “O desporto tem um papel central a desempenhar no sistema educativo, não apenas para lutar contra a obesidade e o comportamento sedentário, mas os estudos têm demonstrado sucessivamente os benefícios positivos que a actividade física tem no desenvolvimento social e intelectual dos jovens…”

De facto, a educação dos jovens, feita em contexto escolar e incluindo o universitário, deve promover a prática do desporto, porque dele decorrem benefícios individuais manifestos, incluindo a demonstrada associação entre a prática regular do desporto e os níveis de sucesso escolar, e deste modo realizar o princípio de que o desporto se faz na e pela educação. Mas ao mesmo tempo, o desporto deve sentir que tem de apoiar-se na educação, partindo da ideia de que um bom desportista tem ser um bom estudante, uma pessoa devidamente educada capaz de projectar as suas diversas capacidades e competências na sociedade em que vive.

A quinta Conferência dos Ministros do Desporto da UNESCO (MINEPS V, que decorreu em 2013 em Berlim) tinha uma primeira Comissão cujo lema era “Acesso ao desporto como um direito fundamental para todos” e nela se fez também mais esta afirmação: “A educação física orientada para os impactos e a política desportiva devem ser desenvolvia por todos os interessados envolvidos, incluindo os administradores nacionais do desporto, educação, juventude, e saúde; as organizações inter-governamentais e não-governamentais, as federações desportivas e os atletas; bem como o sector privado e os media.”

Assim sendo, o desporto e a educação têm de andar juntos, tirarem partido um da outra, e como isso contribuírem decisivamente para o desenvolvimento humano e económico, social e cultural.

14 de Fevereiro de 2015

(*) Mestre em Gestão do Desporto pela FMH

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Story | by Dr. Radut