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O Desporto como Valor

Educação & Futuro

Manuel Sérgio

Como pode negar-se o lugar proeminente que o Desporto ocupa, no mundo actual? Tanto o desporto social como o desporto espectáculo: aquele compreendendo o desporto-educação e o desporto-lazer; este manifestando-se, através do desporto de desempenho (ou de alta competição, ou de alto rendimento)  .

José Manuel Gomes Tubino e a FIEP

Manoel José Gomes Tubino, laboriosa e gloriosa figura do desporto brasileiro e antigo presidente da FIEP  (Fédération Internationale d’Éducation Physique), escreveu uma obra monumental, intitulada Dicionário Enciclopédico TUBINO do Esporte. Nela se encontram os mais importantes documentos, já considerados clássicos, do Desporto e da chamada Educação Física.

“A origem desses documentos é a mais diversa possível, pois vêm dos organismos internacionais da Educação Física e do Esporte (FIEP e ICSSPE), da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), do COI (Comité Olímpico Internacional) e outras instituições que resolveram oferecer posicionamentos à comunidade esportiva”. (op. cit., p. 576)

Zelando e guardando os valores que tradicionalmente definem o Desporto, estes documentos estão gravados, em síntese, na International Physical Education and Sports Charter da UNESCO (1978).

Deitando um olhar atento sobre esta Carta, de imediato se descobre que ela é um instrumento activo de cultura e que se ocupa de questões que dominam, hoje, no terreno das grandes preocupações dos que procuram uma nova ordem social e política:

  • a prática da Educação Física e do Desporto é um direito fundamental de todos;
  • a Educação Física e o Desporto são elementos essenciais da educação permanente, dentro do sistema global de educação;
  • os programas da Educação Física e do Desporto devem corresponder às necessidades dos indivíduos e da sociedade;
  • o ensino, o enquadramento e a administração da Educação Física e do Desporto devem ser confiados a pessoal qualificado; equipamentos e materiais são indispensáveis à Educação Física e o Desporto;
  • a pesquisa e a avaliação são elementos indispensáveis para o desenvolvimento da Educação Física e do Desporto;
  • a informação e a documentação contribuem à promoção da Educação Física e do Desporto; os meios de comunicação de massa deveriam exercer influência positiva na promoção da Educação Física e do Desporto;
  • as instituições nacionais, os poderes públicos, os órgãos não-governamentais e a cooperação internacional têm um papel primordial no desenvolvimento universal e equilibrado da Educação Física e do Desporto – tudo isto, apresentado em estilo breve e lapidar, resume objectivos inapagáveis de um Estado prestador de serviços, de uma sociedade na via do progresso e do desenvolvimento.

Democracia Electrónica

“É sabido que a democracia nasceu directa e deveio representativa. Na Ágora grega, era o povo que, reunido numa mesma praça, tomava as deliberações sobre os mais importantes assuntos de interesse colectivo”.

Hoje,

“a democracia representativa e parlamentar enfrenta uma grave crise, com todos os contornos de uma crise civilizacional. Foi concebida para uma civilização e não tem concebido adaptar-se a outra”.

Daí, que  pareça pouco arriscado antecipar que a instituição parlamentar deverá evoluir

“e mais depressa do que possa supor-se, da actual configuração representativa, para uma futura configuração, mais do que participativa, directa (...). O princípio da representação política será progressivamente substituído pela prática da audição electrónica e directa”

(António de Almeida Santos, Que Nova Ordem Mundial?, Campo da Comunicação, Lisboa, 2009) pp. 215 ss.).

Desporto e Cultura

No entanto, em democracia directa ou representativa, o Desporto, num mundo onde tudo é relativo, incompleto, precário, é prática aceite, no mundo todo... como se, em todos os homens e no homem todo, fosse verdade uma cultura comum!

  • Qual a razão primeira desta unidade de pensamento, desta consciência da necessidade da prática desportiva?
  • Por que será que, diante do Desporto, surge um homem ecuménico que, nas cinco partes do Mundo, se entende, se estima e coopera e colabora?
  • Que valores são esses que do Desporto emanam e que constituem já um património unitário que se encorpora, em todos os povos?

A motricidade, ou o corpo em acto, visando transcender (a competição com outrem) e transcender-se (a competição consigo mesmo); sendo um dos aspectos da motricidade humana, há nele

  • a tentativa de superação dos limites, ou a procura de altos desempenhos;
  • a competiçãoregulamentada e em que se joga com e não contra, tanto em relação aos colegas de equipa como aos adversários;
  • a identificação do corpo em  acto com a pessoa na sua complexidade;
  • as categorias derendimento eprodutividade, de acordo com os interesses do capitalismo pós-moderno(Michel Vakaloulis), ou seja, do capitalismo multinacional consumista;
  • um modo de vida saudável, onde o ludismo predomine – são noções que emergem do  desporto hodierno, muitas vezes de modo competitivamente exacerbado, mas com uma armadura jurídica e moral, que procura garantir, na medida do possível, não aquilo que transitoriamente divide os desportistas, mas o que solidariamente, indissoluvelmente os une.

Pós-Modernidade

Fredric Jameson (“A conversation with Fredric Jameson”, in Douglas Kellner (ed.), Postmodernism, Jameson, Critique, Maisonneuve Press, Washington, 1989) salienta cinco características, na pós-modernidade:

  • inexistência de profundidade histórica, isto é, um tempo que se diz sem história, sem memória;
  • decréscimo da afectividade, o que não quer dizer que não haja afectividade, mesmo fremente de paixão, mas que não se transforma em sentimento duradouro;
  • um sujeito declaradamente esquizofrénico, donde resulta uma produção cultural fragmentária, desintegrada e essencialmente heterogénea;
  • pastiche e paranóia, decorrentes da ausência de memória histórica e de sólidos valores.

Se me é permitido acrescentar um pouco mais ao pensamento de F. Jameson, direi que   

o bellum omnium contra omnes (a guerra de todos contra todos) de Thomas Hobbes (1588-1679) permanece inalterável, com o objectivo de justificar o Leviatão do Poder Estabelecido. Não se conhece outra paz senão a de armistício, a paz intervalar entre duas guerras.  

  • se se desmoronam à nossa volta determinados valores;
  • se o Poder se imobiliza em Hobbes;
  • se a Paz não é obra da Justiça (opus justitiae pax);
  • se o desenvolvimento se confunde, unicamente, com crescimento económico;
  • se o crescimento se processa, com precariedade no emprego, ou com desemprego mesmo,

não é de estranhar que os Direitos Humanos e a defesa e preservação do Meio-Ambientejá pareçam práticas senis e que o conceito de subdesenvolvimento esconda que não há pobres, mas marginalizados pelo sistema ainda dominante.

É o desenvolvimento capitalista que gera o subdesenvolvimento, pois que ao capitalismo mais importa a acumulação de objectos, ou de coisas, ou de dinheiro, do que a formação de sujeitos livres e responsáveis.

A Filosofia

Habermas, na linha da Teoria Crítica, atribui à filosofia uma função de diagnóstico dos males que atravessam, de lés a lés, o nosso tempo.

“Tal como acontece com a prática médica clínica,  para a Teoria Crítica o diagnóstico não é um empreendimento especulativo, mas uma avaliação orientada no sentido da possibilidade de solução. Essa avaliação confere à filosofia o fardo e o privilégio da responsabilidade política. A interdependência entre teoria e prática é um dos axiomas da Teoria Crítica. O seu ponto mais importante é a emancipação encarada como a exigência de melhoria da actual situação humana. Habermas chama a esta exigência o projecto inacabado da modernidade. Iniciado por Kant e outros pensadores do Iluminismo, este projecto implica acreditar em princípios cuja validade é universal, porque vigoram independentemente das especificidades culturais”

(Giovanna Borradori, Filosofia em Tempo de Terror, Campo das Letras, Porto, 2003, p. 43).

E uma pergunta levanto eu, sem mais delongas:

O desporto actual emancipa? 

O fair play, que nasce do ethos aristocrático do desporto vitoriano, antecipa, de facto, uma sociedade onde o livre desenvolvimento de cada um é a condição do livre desenvolvimento de todos?

Os Heróis

Thomas Arnold, director do londrino Colégio de Rugby, a partir de 1828, via no fair play, de facto, um estilo de vida, onde predominava uma imparável vontade de vencer, mas sempre com respeito pelo adversário. “A sociedade actual (disse-o Marx, na Miséria da Filosofia) fundamenta-se na concorrência”. A competição é assim a característica inapagável, tanto do trabalho, como do lazer, na sociedade capitalista. Não é por isso de surpreender (pois que o desporto é competição também e é, sem sombra de dúvidas, o fenómeno cultural de maior magia no mundo contemporâneo) que o nacionalismo, a história dos diversos povos se alimentem da proclamação e celebração dos feitos e dos heróis desportivos.

A heroicidade desportiva transformou-se num dos sentimentos estruturantes da construção da identidade nacional. Em Portugal, o Eusébio, o Carlos Lopes, a Rosa Mota, o Nélson Évora, o Luís Figo, o Cristiano Ronaldo, o José Mourinho têm um número maior de admiradores (refiro-me à quantidade, não à qualidade) do que o Professor Egas Moniz, ou o escritor José Saramago – fenómeno também visível entre uma pululante juventude burguesa, incapaz de ler um livro e combinando farras-de-cama com bebedeiras imensas de cerveja, ou os delírios que a droga produz.

O Poder do Capital

Conheço, há muitos anos, a tese que já vi publicada num livro de Bernard Gillet, História Breve do Desporto, e que a Verbo (Lisboa, 1961) editou, que é no ideal medieval da Cavalaria que radica o espírito desportivo. O jovem senhor, cavaleiro nascituro, “recebia até aos doze anos o ensino da Cortesia, era instruído nos altos feitos dos cavaleiros célebres, praticava equitação e esgrima. A partir dos 12 anos, acompanhava os cavaleiros à caça e à guerra. Aos quinze anos (...), era armado cavaleiro. Como o efebo antigo, ao receber as suas armas, prestava o juramento de amar o seu país, de ser valente, fiel à palavra dada, generoso, de defender o direito e o bem” (p. 32). O cavalheirismo do fair play pode encontrar ascendência, na Idade Média, mas está aí principalmente como a máscara de um saber que deixou submeter-se ao poder do capital.

Doenças Hipocinéticas

A medicina, os movimentos higienistas, a tecnociência em geral não cessam de apontar o sedentarismo como a causa das doenças hipocinéticas, ou seja, doenças provenientes da escassez de movimento.

Humanismo e Civilidade

O Padre Vasco Pinto de Magalhães, sacerdote católico e antigo internacional de râguebi, sustenta que “na cultura actual, ninguém se atreveria a pôr em causa o desporto como um valor e o desportivismo como um sinal de humanismo e civilidade” ( in AA.VV., O Desporto Para Além do Óbvio, Instituto do Desporto de Portugal, 2003, p. 161).

Grandeza Moral

O Papa Pio XII tentou retratar o desporto actual e exclamou: “Vede como o desporto ultrapassa a mera robustez física para conduzir à fortaleza e à grandeza moral. É escola de lealdade, de coragem, de resistência, de determinação, de fraternidade: tudo virtudes naturais que oferecem às virtudes sobrenaturais um fundamento sólido e preparam para poder manter sem fraquejar o peso das maiores responsabilidades” (in op. cit., pp. 165/166).

Um Desporto Novo

No entanto, embora não se discutam os benefícios dos Sistemas Desportivo e Educativo, na promoção e manutenção da saúde; ainda que abundemos na opinião de que deverá integrar-se o Desporto, numa escorreita política nacional de saúde e até numa complexa Sociedade do Conhecimento, onde se promova o Homo Sapiens-Sapiens, provido de uma consciência reflexiva e crítica – bem é que se conteste os fins, o valor e o sentido do Desporto, qualquer que ele seja e a forma por que se manifesta.

Com efeito, se ele é necessário à manutenção do “status quo ante” capitalista, não será de inventar um Desporto novo?

Epílogo

À luz da filosofia, falar de modernidade é lembrar a revolução que, assente em Galileu e Descartes, fez tábua rasa de todos os sistemas anteriores, instaurou a crença no poder da razão e descobriu a subjectividade. De facto, o valor fundante da modernidade é o sujeito. O próprio objecto existe porque é objecto de pensamento de um sujeito. A Educação Física resulta da racionalização das actividades gímnicas, corria o século XVIII. Só em Nietzsche o sujeito entra de respeitar o seu corpo. O sujeito do racionalismo não sabia bailar de forma vivíssima e exacta. Para ele, a experiência não é vital, mas simples percepção. E assim ficou por muito tempo. Como cantava Brassens: “Mourir pour des idées, d’accord, mais de mort lente»…

2013-07-21

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Story | by Dr. Radut