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Congresso Olímpico Nacional (alternativo)

Olimpismo & Complexidade

Manuel Sérgio; Gustavo Pires; Margarida Mascarenhas; Elsa Pereira

 

1.Apresentação

Muito embora a história não se repita com exatidão, o futuro também não surge por acaso.

Assim sendo, se tudo é história, tudo também é processo pelo que, quando nos movimentamos, movimentamos mais do que a nós mesmos, ou seja, movimentamo-nos em simultâneo no tempo em que vivemos e somos em direção a um futuro que idealizamos e desejamos construir.

O desporto, a partir dos anos noventa do século XIX, na perspetiva de Pierre de Coubertin (1863-1937) surgiu associado por um lado a um movimento estético, o esteticismo, “da arte pela arte” que defendia que “a vida deveria ser vivida intensamente, seguindo um ideal de beleza” e, por isso, associado também ao espírito nietzscheriano do âgon da vontade de poder pela competição em busca da areté da excelência do super-homem que se transcende em busca de um humanismo total.

Nesta conformidade, o Olimpismo, enquanto corpo em ato impregnado de cultura, em busca da superação e da excelência, em finais do século XIX, ao estabelecer um corte com os vários modelos ginásticos que se praticavam, surge-nos como uma das grandes categorias da motricidade humana num projeto de superação competitiva de obstáculos, limites e adversários na busca incessante de todos os possíveis, expressos numa filosofia de vida ao serviço do desenvolvimento humano. Porque, como diria Ortega y Gasset[1], ao acontecer um salto dos modelos tradicionais de ginástica para o desporto Coubertin acabou por provar que o ser humano não nasceu para repetir mas para criar e conquistar desafios num mundo de grande complexidade do qual o desporto, enquanto jogo competitivo que é, faz parte.

O Olimpismo que busca na motricidade humana de caráter competitivo a transcendência da superação. Ninguém, como o desportista procura a transcendência, pese embora o “stress” de que, por natureza é vítima. Ora, “quando o jogador se encontra muito estressado, o funcionamento psicológico e físico piora, o tempo de reação fica lento, o jogador não calcula os riscos de forma adequada, torna-se precipitado, atua impulsivamente, fica inibido, cansa-se mais rapidamente, comete erros de precisão e se torna mais vulnerável a lesões. [2]

Coubertin através de um movimento intencional e superado, procurou um ângulo de análise muito mais amplo e profundo transgredindo as velhas fronteiras corporativas das escolas de ginástica que tinham no “mens sana…” de Juvenal a sua razão de existir.

Com o presente ensaio pretendemos fazer uma leitura do Olimpismo e do Movimento Olímpico no quadro da teoria da complexidade. Diremos ainda que o presente ensaio é um resumo de um livro a editar pela Coleção de Estudos Olímpicos da Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa.

2.Do Discurso do Método ao da Complexidade

Edgar Morin, enquanto criador de um novo método, o do pensamento complexo, é o Descartes dos nossos dias. Mentalidade superior, original e profunda, pode considerar-se, hoje, pela difusão do seu pensamento, uma individualidade que no mundo científico e filosófico marca o passo do novo conhecimento. O centro de interesse da sua obra está na sua opulenta substância científica e filosófica, geradora de novos paradigmas entre eles o da complexidade. O conceito de complexidade que também podemos designar por ciência da complexidade, teoria da complexidade, desafio da complexidade, epistemologia da complexidade ou, entre outros, pensamento complexo utilizado nas mais diversas áreas sociais é de fundamental importância para perceber a não linearidade da génese e desenvolvimento do MO moderno. A este respeito, entre os investigadores da complexidade Edgar Morin é considerado um dos seus fundadores e, certamente também, um dos mais prolíferos que através do seu pensamento contribuiu para a compreensão do pensamento complexo ao questionar as metodologias de pensamento unilateral, dogmático, exclusivamente quantitativo ou instrumental que hoje caracterizam a produção científica empírico racionalista que perde na micro análise da mundividência do fenómeno total que é o Olimpismo. 

3.Tempos de Rutura

Morin estabeleceu uma rutura com o passado, pelo que são vivas as semelhanças entre ele e Descartes.

Coube a Descartes a glória de ter instaurado a dúvida metódica e, ainda, a criação de um “pitagorismo renovado”, para o qual:

  • Pensar é matematizar;
  • Raciocinar é medir;
  • Saber é decompor a realidade nos seus elementos e, a partir deles, reconstituí-la.

Cabe a Morin a pertinácia de estabelecer uma rutura com o pensamento uniforme, dogmático e autoritário da “ordem estabelecida”, para além do sucesso da física moderna como teoria explicativa da realidade.

A sociedade atual coloca-nos perante o problema da inadequação cada vez mais ampla entre os nossos saberes separados, partidos e repartidos, compartimentados por diversas disciplinas estanques, por um lado, e, por outro lado, as mais variadas problemáticas enquanto realidades cada vez mais poli disciplinares, transversais, globais e, até, planetárias.

E foi nesta perspetiva que, em 1894, foi fundado por Pierre de Coubertin (1863-1937) e um grupo de amigos o Comité Internacional dos Jogos Olímpicos aos constatarem que as soluções empírico racionalistas dos modelos de ginástica que vinham do século XVII não já não se coadunavam à nova dinâmica da motricidade humana que havia de começar a despontar com o surgimento do século XX. Então aqueles modelos gímnicos que pertenciam a um passado, na linha de pensamento de Morin tornam-se ininteligíveis perante:

  • Os grandes sistemas complexos do comportamento das populações;
  • As interações e retroações políticas entre as partes e o todo;
  • As entidades multidimensionais em permanente interação dinâmica;
  • Os problemas essenciais da vida e da dinâmica da autopoiética da organização social”.[3]

Por isso, no auge da disputa entre os hiperespecialistas que para conhecer cartesianamente fragmentam e separam e os que sustentam que todo o real é complexo, Morin remata:

“o conhecimento pertinente é aquele capaz de situar toda a informação no seu contexto e, se possível, no conjunto em que se inscreve.”.[4]

Assim sendo é nesta perspetiva que entendemos o Olimpismo enquanto filosofia de vida que coloca o desporto ao serviço da complexidade do desenvolvimento humano.

4.Entre a Ciência e a Cultura

Edgar Morin assevera que a grande separação entre a cultura das humanidades e a cultura científica, iniciada no século XIX e agravada no século XX, causa graves consequências a uma e a outra.[5]

Quer dizer:

  • A cultura científica que suscita teorias geniais, mas sem uma profunda reflexão sobre o seu significado social e o seu sentido histórico;
  • A cultura das humanidades que suscita substanciosas controvérsias de índole mais ou menos metafísica, mas sem o adequado fundamento científico.

Coubertin, perante as enormes dificuldades que se levantavam à institucionalização do Movimento Olímpico na perspetiva de que o conhecimento pertinente é aquele capaz de situar toda a informação no seu contexto e, simultaneamente no conjunto em que se inscreve organizou o Comité Olímpico Internacional (COI) a partir de Comissões responsabilizadas pelas Sessões (assembleias gerais) de resolver problemas perfeitamente identificados no plano de ação da organização. Quer dizer, os problemas eram identificados, o plano realizado e as comissões instituídas a fim de serem resolvidos os problemas específicos detetados. Coubertin sem estrutura e sem meios concebeu este procedimento expedito que tendo em conta a complexidade dos problemas encontrados, numa estratégia emergente, procurava encontrar as soluções para cada problema. Por isso, só pode causar estupefação o facto da nova Comissão Executiva do Comité Olímpico de Portugal (COP) empossada em de abril de 2013, a fim de organizar o Movimento Olímpico, antes mesmo de saber quais os problemas e qual o plano geral do organismo, se tenha apressado a criar dez comissões especializadas. Mas o paradoxo maior está na institucionalização de uma designada comissão de “orientação estratégica” constituída pelos presidentes das Federações das modalidades que pertencem ao Programa Olímpico, quer dizer, uma comissão de “pensamento único” para um sistema a funcionar num mundo e num desporto de grande complexidade. Este tipo de abordagem ausente de história e de cultura conduz àquilo que Morin designa por “pensamento mutilante”[6] quer dizer, um pensamento errado não porque não tenha informação suficiente mas porque, por ausência e história e de cultura, não é capaz de compreender e ordenar as informações e os saberes. Tal pensamento só pode conduzir a ações mutilantes como hoje se pode concluir ter sido o caso das olímpicas Comissões nomeadas pelo COP que acabaram por ter expressão prática na pobreza científica do Congresso Nacional Olímpico realizado em circuito fechado em 3 e 4 de Março de 2014.

5.A Recusa da Simplificação

Do ponto de vista epistemológico, Edgar Morin, ao desenvolver uma epistemologia da complexidade, esclarece à partida que a palavra complexidade só pode definir-se de forma negativa, quer dizer, é complexo o que não é simples, o que não é simplificável. A complexidade é o que não se reduz:

  • A leis simples;
  • A causas simples;
  • A ordenações simples.

Assim sendo, o ponto de partida da complexidade é a recusa da simplificação, sob todas as suas formas, redutora, disjuntiva, idealista, etc. Quer dizer, a complexidade é o reconhecimento de que tudo o que nos rodeia, das estrelas ao homem, é sempre multidimensional, enredado, diversificado (...). Não chega dizer que vamos ganhar 6 medalhas nos Jogos Olímpicos ou atribuir 16 milhões de euros ao COP para se poder dizer que se está a desenvolver um Projeto de Preparação Olímpica. Seria bom que assim fosse. O problema é que as coisas são bem mais complexas do que aquilo que parecem pelo que, muitas vezes, a generalidade das entidades envolvidas no desporto não têm verdadeiramente consciência do padrão de complexidades das questões levantadas pelas práticas desportivas em que estão envolvidas. As entidades públicas pelo seu discurso[7], as entidades privadas pela sua praxis,[8] desenvolvem uma perspetiva mutilante do desenvolvimento do desporto, quer dizer não são capazes de integrar num conjunto coerente as variáveis em jogo.

6.Os Laços, as Ligações e as Interfaces

O método complexo tem por missão compreender os laços, as articulações, as interfaces, os pontos de rutura e de contacto que tecem a realidade:

  • A complexidade do real e a complexidade do pensamento;
  • A inseparabilidade da ordem e da desordem, funcionando esta como princípio genésico fundamental (há ordem na desordem e desordem na ordem);
  • A ideia de sistema, ou seja, um todo não é redutível às partes pois que, pelas inter-relações entre os elementos, emergem novas qualidades que não se encontram neles;
  • A complexidade sistémica, que o mesmo é dizer: é tão impossível reduzir o todo às partes, como as partes ao todo, embora todo e partes vivam em relação constante;
  • A organização, dado que: o átomo é organização; a molécula é organização; o astro é organização; a vida é organização, a sociedade é organização”.[9]

É nesta perspetiva que devem ser entendidos os sistemas desportivos nacionais no quadro da dinâmica internacionalistas que lhes é dado pela própria Carta Olímpica.

7.Causalidade Relacional

A causalidade complexa não é linear mas relacional. Quer dizer, as mesmas causas nem sempre produzem os mesmos efeitos. Esta evidência passou a ser um dos grandes temas que os cientistas começaram a observar, a pesquisar e a estudar. Ler o real implica um processo de representação, que “intui o real como algo multidimensional e complexo”.[10]  Mas com uma nova dinâmica organizacional.

Para Pierre de Coubertin o Olimpismo era um projeto de transformação do mundo. Mas um projeto que ele sabia estar em transformação contínua como a própria sociedade estava. Por isso, para além do desporto e da educação a questão de fundo do Olimpismo era a cultura. E era a cultura porque era política. Não podia ser de outra maneira. A ideia da restauração dos Jogos Olímpicos ocorreu entre guerras. Primeiro as Guerras Napoleónicas (1799-1815) que opuseram a grande maioria das nações europeias. Depois, veio a Guerra Franco-Prussiana. Em setembro 1870, Napoleão III foi obrigado a capitular na batalha de Sedan (1/9/1870) perante os exércitos alemães comandados por Bismarck.

Por isso, o Congresso Olímpico que instituiu o COI a 23 de junho de 1894 foi convocado com os seguintes objetivos: (1º) conservar no desporto o seu caráter nobre e cavalheiresco; (2º) lutar contra o profissionalismo que ameaçava os amadores; (3º) instituir as lutas pacíficas e corteses que eram consideradas o melhor dos internacionalismos. Contudo, muito embora a questão que tomou conta do Congresso tivesse sido a do estatuto de amador, o que é facto é que, no espírito de Coubertin, tratava-se de determinar os limites à competição que devia ser nobre e cavalheiresca a fim de deslocar para os campos de jogos a competição belicista que tinha massacrado as nações europeias nos campos de batalha. E Coubertin nas suas memórias refere os “jogos” que foi obrigado a fazer para sentar à mesma mesa membros do COI oriundos de nações que se tinham digladiado nas Guerras Napoleónicas e na Guerra Franco-prussiana e já se preparavam para tecerem armas nas duas Grandes Guerras do século XX. As eram enorme porque, de facto, o real era multidimensional e de grande complexidade. Entretanto a ideia de Olimpismo na sua complexidade tem vindo a evoluir de acordo com as próprias ideias do tempo. Hoje, podemos dizer que o Olimpismo é uma filosofia de vida assente em cinco grandes pilares. O desporto, a educação e a cultura que vêm do tempo de Coubertin. A partir dos anos noventa em consequência dos sinais dos tempos começaram-se a colocar as questões relativas ao ambiente. Mais recentemente, em 2009, o COI ao ser aceite como entidade observadora no seio da Organização das Nações Unidas acabou por institucionalizar o seu quinto pilar o do desenvolvimento humano ao serviço da paz. A partir destes cinco pilares, o Olimpismo, para além das medalhas, enfatiza a função social do desporto numa perspetiva universal na medida em que se projeta para além da geografia, da etnia, do género, da nacionalidade, da religião, da classe social e da ideologia.

8.Diferenciação de Sistemas

Entretanto, como Morin explicita, os objetos perderam o seu lugar, em favor dos sistemas:

  • No lugar de essências e substâncias: organização;
  • No lugar de unidades simples e elementares: unidades complexas;
  • No lugar de conjuntos que formam corpo: sistemas de sistemas de sistemas.[11]

Quer dizer, é imperioso substituir a “diferença entre o todo e as partes” por uma “teoria de diferenciação de sistemas”[12] na medida em que, num sentido holográfico cada elemento é ele próprio também um sistema. Mas tudo de acordo com um princípio de organização na medida em que a organização:

  • Une,
  • Transforma;
  • Produz;
  • Mantém.

Quer dizer,

  • Une e transforma os elementos em sistema;
  • Produz e mantém o sistema a funcionar.[13]

Não se trata de uma união aparente ou acidental, mas dialógica e recursiva quer dizer os elementos unem-se e transformam-se a fim de configurarem uma nova emergência. A evolução do conceito de Olimpismo tem vindo ao longo dos tempos a integrar novas emergências. Como vimos, a princípio era o desporto, a educação e a cultura para, posteriormente, se juntarem o ambiente e paz, quer dizer, a paz olímpica.

9.Unidade na Diferença

Uma organização produz e mantém um sistema complexo. Uma vez que o sistema tem a sua própria vida, ao emergir pela união dos elementos em rede de relações, desencadeia na organização a emergência composta pelos elementos e pela sua rede de relações e interações. Nesta situação a ordem não significa nada de estático e portanto mítico ou religioso, ou tentativa para indiferenciar o diverso, como na ciência clássica – a ordem, neste caso, resulta da unidade entre elementos diferentes ou antagónicos que, em relação, se complementam. Hoje, a unidade relacional dos elementos do Movimento Olímpico organiza os referidos cinco pilares (o desporto, a educação, a cultura, o ambiente e a paz), que integram e consubstanciam uma dimensão de desenvolvimento. Por isso, não chega criar comissões independentes, é necessário saber em que circunstâncias estabelecem uma relação dialógica de efeito sinergético.[14] Porque, na realidade, há que saber se as Federações Desportivas do Programa Olímpico conhecem o plano global do organismo, quer dize, do Movimento Olímpico e do próprio Movimento Desportivo, ou se, pelo contrário, o COP é tão só um entreposto financeiro para libertar o Estado de uma tarefa cujos governantes, por incapacidade ideológica e política não são capazes de assumir as responsabilidades que competem ao Estado. Porque, na relação entre as partes e o todo não é apenas a parte que está no todo mas, também o todo que está em cada uma das partes.

10.Pierre de Coubertin e a Complexidade

O corpo foi cantado, enaltecido, vilipendiado, aprisionado, estudado, ao longo da modernidade. Na ginástica (nas escolas, nos asilos, nas prisões) o corpo foi racionalmente orientado, para que nele brilhassem os grandes valores sociais, dado que o vício até medicamente era proscrito. Um pensamento e um discurso higienista apoderaram-se da sociedade cabendo ao médico e ao professor de ginástica o papel proeminente no biopoder que a dominava. A luta pela introdução da antropometria, no universo escolar, no dealbar do século XX, pois que medindo os corpos se descobriam doenças, ganha em ser vista de longe, na majestosa unidade do triunfo do positivismo.

10.1.Mudança de Paradigma

Nesta perspetiva, o Olimpismo nas suas origens modernas, enquanto projeto social e político que era, debateu-se com questões fundamentais acerca do seu credo, a sua vocação e a sua missão,[15] que conflituavam com o biologismo do corpo propugnado pelos arautos da educação física protagonizada pelos médicos, pelos militares e pelos professores de ginástica muitos deles há pouco desligados das atividades circenses. E Coubertin percebeu que se estavam a viver tempos de rutura, de mudança de paradigma quando, em 1894 na organização do Congresso de Paris que instituiu os o Comité Internacional dos Jogos Olímpicos, teve de gerir as contradições entre a educação física e o desporto quando, por exemplo, a 15 de Maio de 1894 o belga Cuperus lhe transmitia em termos virulentos:

A minha Federação sempre acreditou e ainda acredita que a ginástica e os desportos são coisas contrárias e ela sempre combateu estes últimos como incompatíveis com os seus princípios.[16]

 Depois, em 1897, no Congresso do Havre que foi desencadeado a fim de resolver problemas pendentes escassos dois anos após o primeiro, Coubertin concluiu que o Movimento Olímpico, tinha de estabelecer uma rutura com a educação física dominada pelos suecofilicos com Philippe Tissié a fim de desenvolver um desporto liberto do equilíbrio estático “mens sana…” de Juvenal que dominava o pensamento dos higienistas da atividade física e desejavam tomar conta do Movimento Olímpico. E foi o que aconteceu porque Tissié, enquanto delegado do Governo francês acabou por tomar conta do Congresso.

10.2.Do Enciclopedismo para a Complexidade

O que hoje podemos constatar é que, ao longo de quase 120 anos de vida, o ambiente em que o COI operou foi contextualmente complexo quer dizer, processou-se para além dos aspetos científicos da atividade meramente física para se projetar nas problemáticas de uma prática desportiva plenamente humana, isto é, física, biológica e antropossociológica ... que, de uma forma integrada, vivia as questões relativas ao homem em movimento em busca da excelência através da superação desportiva. Por isso, o COI teve de gerir questões de enorme complexidade como, as sequelas políticas e sociais da s guerras, a da elegibilidade dos atletas, do comercialismo, do apolitismo ou, entre outras, da diplomacia e dos boicotes.  

Pierre de Coubertin foi o primeiro a percebera dinâmica complexa do mundo do desporto. E, em 1901, teve a oportunidade de o expressar quando, através de um artigo, avançou com a necessidade de se idealizar um método enciclopédico a fim de abordar as questões que o Movimento Olímpico levantava ao COI. Dizia ele:

“… o método enciclopédico é obviamente sintético: com vários elementos de diferentes níveis de conhecimento, visa criar no cérebro humano uma cultura de conjunto, um projeto uniforme do mundo e da vida.” [17]

Daqui se pode inferir que Coubertin, ao institucionalizar o Movimento Olímpico moderno, abriu as portas a um pensamento novo. Em primeiro lugar, à dinâmica da competição nobre e leal em busca da excelência social e política para além do determinismo estandardizado da educação física.

Em segundo lugar, introduzindo a dimensão enciclopédica / complexa no processo desportivo com que pretendia, através das mais diversas modalidades desportivas, levar para os campos da competição desportivas as disputas entre países que, até então, se tinham digladiado nos campos de batalha. Na sua perspetiva enciclopédica / complexa, desde a primeira hora, Coubertin procurou que o Movimento Olímpico estivesse aberto a todos os países independentemente das possíveis sequelas de guerra existentes entre ele. Nas suas “Mémoires Olympiques” ele refere a dificuldade de juntar no Congresso Olímpico de 1894 membros de diferentes países. Por exemplo o responsável pela “Union des Sociétés Francaises de Gymnastique” avisou Coubertin que os delegados da sua associação se retirariam caso os alemães participassem.[18]

A partir de uma cultura de conjunto enquanto projeto, Coubertin colocou o desporto através do Movimento Olímpico ao serviço do desenvolvimento humano.

10.3.Programa dos Jogos Olímpicos

Mas outro aspeto que, agora do ponto de vista interno, caracterizou a visão enciclopédica / complexa de Coubertin foi a sua capacidade de perceber que todas as modalidades desportivas, circunstancialmente, podiam pertencer ou não ao Programa dos Jogos Olímpicos.[19] As páginas 22 das Mémoires Olympiques” pronuncia-se convictamente pela igualdade das modalidades desportivas, pelo que ele recusou uma perspetiva fragmentada daquilo que deve ser o Olimpismo recusando aceitar a classificação dos diversos desportos entre olímpicos e não olímpicos. Quer dizer, todas as modalidades são olímpicas, podem ou não, circunstancialmente, pertencer ao Programa dos Jogos Olímpicos.

Nesta conformidade, na perspetiva enciclopédica e não fragmentada de Coubertin, para além de cada modalidade desportiva e da sua importância relativa, existia um desporto enquanto instrumento ao serviço do desenvolvimento humano.

11.O Olimpismo Enquanto Realidade Complexa

O filósofo Carnap, em artigo de 1932, “Psicologia em Linguagem Física”, sustentou a hipótese de que o estudo do comportamento e da mente do homem poderiam reduzir-se à física.[20] Mas se é ao nível do paradigma da complexidade que se joga o futuro do desenvolvimento, há que rejeitar a estreiteza e a pequenez de um Movimento Olímpico que se considera unicamente performance física, esquizofrenicamente focalizado nos “mínimos olímpicos” para ver nele uma realidade complexa, antropossociológica que só o método de complexidade poderá analisar e compreender.

11.1.O Mundo da Vida

Assim sendo, o Olimpismo enquanto realidade complexa que é, deverá ser recriado com todas as suas dimensões físico-químicas e biológicas, económicas, sociais, políticas, culturais, demográficas, míticas, comunicativas, informativas, psicológicas, etc, quer dizer, enquanto “mundo da vida” (Lebenswelt ou lifeworld) a partir do qual os diversos agentes que interagem no desporto podem inferir as evidências, as abstrações e as intuições que melhor lhes permitem conhecer o ambiente complexo em que estão inseridos, para além de poderem voltar para verificar a validade das idealizações e teorias engendradas, dado que se trata de, em termos científicos, interpretar e explicar aquilo que advém do “mundo da vida”. É neste sentido que não se compreende nem aceita que, depois do que foi para Portugal a hecatombe dos Jogos Olímpicos de Pequim (2008) e a confusão que resultou dos Jogos Olímpicos de Londres (2012), a tutela nacional do desporto sem ideias, associada ao próprio COP prenhe de arrogância, pretendam não só a laborar no erro como reforça-lo com mais dinheiro e medidas centralizadoras do poder e do comando.

11.2.A Rede

Daqui se infere que à escala nacional o Movimento Olímpico deve ser uma organização em rede, quer dizer, uma realidade informacional e organizacional que estuda, interpreta, organiza e mantém atualizadas e integradas as questões relativas ao Olimpismo, tendo em consideração toda a sua enciclopédica complexidade. Hoje, pensar o Olimpismo será aproximá-lo da noção de rizoma, em Deleuze-Guattari, que é uma engenhosa tentativa de pensar uma estrutura sem centro e que, portanto, se aproxima da noção de rede, ou de uma “dialética sem síntese”, utilizando a expressão de Merleau-Ponty. Porque o Olimpismo, enquanto realidade que é, emerge de uma causalidade complexa, onde se movimentam ordem-desordem-interações-organização expressa a ação, concertada, auto organizada, universal e permanente, “de todos os indivíduos e entidades que são inspirados pelos valores do Olimpismo…”,[21] e sobretudo onde haja oposições de ideias, de teorias e de práticas, como refere Morin, “mesmo que isso seja penoso”.[22]   Nestas circunstâncias, o Movimento Olímpico deve abandonar as estruturas hierárquicas piramidais de pensamento único e fechado representado pela institucionalização recente de uma Comissão de Orientação Estratégica do COP constituída pelos seus antigos presidentes (uma forma engenhosa de os controlar) e pelos presidentes das federações cujas respetivas modalidades pertencem ao Programa dos Jogos Olímpicos, como se a estratégia do COP se devesse limitar só àquelas federações, àquele sector de prática desportiva, e ao pensamento único dos seus presidentes.

12.Olimpicamente Protofascista

O desporto é um fenómeno humano cujas tramas desencadeadas no universo das relações sociais, são caracterizadas por um contexto político, vinculado ao percurso da história. Assim sendo, transformar o Movimento Olímpico num “projeto” de atribuição de recursos às federações desportivas cujas modalidades pertencem ao Programa dos Jogos Olímpicos e na atribuição de bolsas aos atletas que, ao serviço da engrenagem do rendimento, da medida, do recorde, do espetáculo e do profissionalismo precoce, tal qual “bestas esplêndidas”, cumprem os resultados mínimos necessários, parece-nos ser uma visão muito limitada daquilo que deve ser o Olimpismo enquanto filosofia de vida ao serviço do desenvolvimento humano. Desde logo porque se, por um lado, nenhuma das federações é detentora do plano global do desporto enquanto instrumento de desenvolvimento humano, o plano global, como se verificou no recente conflito da Federação Portuguesa de Canoagem com dois dos seus atletas perante a indiferença do COP, não integra as aspirações dos atletas para quem o Olimpismo deve ser uma filosofia de vida em busca da transcendência através da sua superação competitiva e não a daquela que os dirigentes entendem dever ser.

12.1.Ao Serviço do Desenvolvimento Humano

O Olimpismo não deve, através dos atletas ou ex atletas que ganharam notoriedade social, ser colocado ao serviço de ideologias, de castas ou de oligarquias alcandoradas no poder que mais não fazem do que proteger o seu estatuto de privilégio.

Coubertin que do desporto tinha uma perspetiva democrática pelo que desejava democratizar a sua prática, defendia que o Olimpismo era uma religião, isto é uma superestrutura, uma doutrina, com uma igreja, com dogmas e culto[23], o culto da competição justa, nobre e leal, em busca da excelência que, no respeito pelo “standard” institucionalizado a partir do primeiro Congresso Olímpico realizado em Paris no ano de 1894, propagava-se nas mais diversas culturas pelo Mundo fora.

12.2.Entre as Ordens e as Propostas

O problema é que, como refere Gianni Vattimo[24], é necessário evitar que uma filosofia se transforme no capítulo de uma ideologia que se distingue mais pelas ordens do que pelas propostas. Assim também o Olimpismo, enquanto filosofia de vida que coloca o desporto ao serviço do desenvolvimento humano se deve distinguir mais pelas propostas do que pelas ordens sobretudo vindas ou de um Estado central e centralizador, do poderes económicos arrogantes de dinheiro, ou de perspetivas chauvinistas, venham elas de onde vierem, que contrariam a dimensão de construção da paz que, desde os tempos da Grécia antiga sempre caracterizaram o discurso cultural do Olimpismo em contraposição aos sentimentos belicistas e nacionalistas dos homens.

12.3.Ao Serviço do Estado

Ao tempo da “guerra fria”, quando o mundo estava organizado em dois grandes blocos ideológicos liderados pela União das Republicas Socialistas Soviéticas (URSS) e os Estados Unidos da América (EUA), o desporto, com a sua expressão política máxima nos Jogos Olímpicos, era encarado como um campo de combate entre os dois blocos. Na URSS, a partir dos anos trinta, o programa nacional de educação física tinha como divisa “prontos para a defesa e o trabalho”. Depois, com a sua entrada no Movimento Olímpico em 1951 e a sua primeira participação nos Jogos Olímpicos em 1952, os EUA começaram a sentir que a supremacia olímpica que ostentavam estava ameaçada. E o primeiro “desastre olímpico” aconteceu em 1956 nos Jogos de Melbourne em que os EUA, na lógica do “conflito quadrienal” com que olhavam para a competição, saíram completamente derrotados pela União Soviética: (URRS: 37,29,32-98); EUA (32,25,17-74). Quatro anos depois, em Roma (1960) as coisas não foram melhores. A 9 de Agosto de 1960 a revista “Newsweek” publicou um editorial intitulado “Men – Medals – Marxism” em que defendia que, assim que os Jogos Olímpicos se iniciassem, cada atleta de ambos os países havia de se sentir um combatente da “guerra fria” em que as duas grandes potências estavam envolvidas. Apesar do apelo, o que aconteceu foi uma derrota ainda mais pesada para os EUA: (EUA: 34,21,16-71); (URSS: 43,29,31-103). Entretanto, em 1963, o Senador Hubert Humphreyn que posteriormente viria a ser vice-presidente do EUA, escreveu um artigo para a revista “Parade” intitulado: Why We Must Win the Olympics”. E argumentava que os Jogos Olímpicos representavam a luta entre a liberdade e o comunismo.[25] No ano seguinte, Robert Kennedy, a 27 de Julho de 1964 publicou no “Sports Illustrated” um artigo com o título: “A Bold Proposal for American Sport” onde afirmava:

…é de interesse nacional que voltemos a ganhar a nossa superioridade olímpica e que, uma vez mais, demos ao mundo uma prova da nossa força interior e vitalidade.

Entretanto, os Jogos Olímpicos de Tóquio (1964) proporcionaram melhores resultados para os EUA mas, mesmo assim, na perspetiva chauvinista e belicista dos EUA, insatisfatórios na medida em que, embora os EUA tivessem ganho mais medalhas de ouro, no balanço total de medalhas a URSS ficou em primeiro lugar: (EUA:36,26,28-90); (URSS: 30,31,25-96).

Entretanto, com a desagregação da URSS a competição passou a ser realizada com a República Popular da China (RPC) que regressou em 1979 ao Movimento Olímpico que tinha abandonado em 1956 devido à questão das “duas chinas”.[26] A RPC acabou por participar nos Jogos Olímpicos de Los Angeles (1984) tendo ficado em quarto lugar: (15,8,9-32). A partir de então a participação da RPC no Movimento Olímpico passou a ser de importância capital para a promoção externa do país. E, foi nesta conformidade que acabou por acolher a realização dos Jogos Olímpicos da XXIX Olimpíada que aconteceram no ano de 2008 na cidade de Pequim. E, tal como as grandes potencias rivais diretas, a RPC também encontrou uma maneira expedita de fazer apelo a um oportuno chauvinismo aos seus atletas uma vez que o que estava em causa era o prestígio do regime. Em conformidade, no interior dos equipamentos dos atletas da RPC que participaram nos Jogos Olímpicos de Pequim podia ler-se a frase transcrita do hino nacional: “levantem-se e marchem”.

No que diz respeito a Portugal foram claras as palavras do chefe de missão aos Jogos Olímpicos de Pequim que perante os protestos relativos ao Tibet, aos direitos humanos e à guerra no Darfour que aconteciam por todo o mundo não se coibiu de esclarecer: “nós somos desportistas, cumprimos a Carta Olímpica e deixamos a política para os políticos”. Entretanto, um ano depois dos Jogos Olímpicos de Londres, já em período de preparação para o Rio de Janeiro, foi cunhada mais uma frase a demonstrar o padrão de incultura do nosso nacional chauvinismo. Disse o Presidente da Federação Portuguesa de Canoagem: “a camisola de Portugal deve usar-se por dever”. Contudo, de acordo com a Regra 6 da Carta Olímpica, “os Jogos Olímpicos são competições entre atletas, em provas individuais ou por equipas, e não entre países.”

12.4.Oligarquia Protofascista

Assim, na linha de Vattimo, diremos que é necessário, evitar um Olimpismo transformado em mais um capítulo de uma nova ideologia protagonizada por uma oligarquia protofascista que se distingue mais pelas ações pouco transparentes e pelo arregimentar de apaniguados para um projeto de exclusão do que pelas propostas relativas ao desenvolvimento humano sobretudo num país como Portugal com uma taxa de pobreza de 18% que se não fosse a Segurança Social seria de 45% e uma taxa de pobreza infantil de 12,7%.

O Olimpismo, na sua complexidade, ao procurar a excelência através da performance desportiva enquanto filosofia de vida, deve desencadear para montante do sistema desportivo feedbacks organizacionais capazes de, verdadeiramente, o colocar ao serviço do desenvolvimento humano. Caso contrário, nunca deixará de ser um instrumento propiciador de mordomias e de vaidades ao serviço da mais medíocre ambição humana numa perspetiva protofascista do desenvolvimento social.

13.Para Além das Medalhas

A pós-modernidade, porque o mundo deixou de ser linear e previsível, é um tempo marcado pelas mais diversas contingências sócio históricas pelo que a sua fragilidade a despromove de todas as pretensões absolutistas, violentas, limitadoras e silenciadoras. Porque, o ser humano é uma complexidade que procura transcender e transcender-se. Ele é, ainda, e simultaneamente, corpo-mente-desejo-natureza-sociedade ou, em linguagem do próprio Edgar Morin, físico, biológico e antropossociológico.[27]

13.1.Nascido para Jogar

Como refere João Batista Freire, uma das inteligências mais brilhantes na Educação Física brasileira, 

“o jogo é (...) uma das mais educativas atividades humanas (...). Ele educa, não para que saibamos mais matemática ou português ou futebol; ele educa para sermos mais gente, o que não é pouco.[28]

Porque, se o ser humano nasceu para começar, ele nasceu de facto para jogar e assim sentir o prazer da ação. Como acrescenta Batista Freire “o jogo é imprescindível à formação humana” contudo, dirigentes há que, ao serviço de um certo chauvinismo fascista insistem em extrair o jogo do desporto. O problema é que não existe desporto sem jogo. Mesmo na idade adulta, o jogo não desaparece das mais diversas práticas sociais. O jogo, como refere Gadamer, é “o fio condutor da explicação ontológica”.[29] Por isso subtrair o jogo do desporto é matar o desporto e questionar a própria vida.

O arranque dos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna em 1896, desencadeou a institucionalização de uma organização desportiva que hoje, ao cabo de pouco mais de cem anos, se processa à escala do Planeta. Assim sendo, o “Desporto é o Jogo que se institucionalizou”,[30] quer dizer, que se complexificou porque, enquanto motricidade humana que é, o Desporto é Jogo integral e superado. O Desporto não é outra coisa senão Jogo com “agôn” e projeto, que se manifesta através da motricidade humana que a sociedade, num dos seus projetos mais genuínos, institucionalizou à escala do Planeta através dos Jogos Olímpicos. Sem complexidade o Desporto continuará Atividade Física e os Jogos Olímpicos transformados num espetáculo circense. Quer dizer, movimento sem de projeto olímpico.

13.2.Políticas Públicas

O problema da complexidade, quer dizer, da multidimensionalidade das coisas, da articulação e do elo entre elas é, hoje, incontornável em termos de políticas públicas. Está em causa em termos de desenvolvimento uma relação virtuosa entre a massa e a elite que não se compadece com o “despejar” de milhões de euros no COP e em determinadas modalidades desportivas à espera que as medalhas olímpicas apareçam e o desenvolvimento do desporto possa surgir. O “efeito de ídolo” requer políticas a montante sem as quais os investimentos realizados perdem-se nos seus efeitos de organização do futuro. Por isso, só por ingenuidade para não dizermos desconhecimento, o Governo encomendou um estudo à consultora PricewaterhouseCoopers (PwC) para saber como é que Portugal “pode ganhar mais medalhas nos Jogos Olímpicos com um nível de investimento menor do que o atual”. Perante tal incumbência que mais faz lembrar os “doze trabalhos de Hércules” a PwC, produziu, num tempo recorde, um Relatório Final (dito confidencial mas que facilmente se obtém na net) datado de novembro de 2012, que concluiu que a Missão portuguesa a Londres devia ter ganho 5 medalhas”![31]

É neste sentido que as políticas públicas devem ser objeto de um debate cultural sobre o desporto, o Movimento Olímpico e o sentido da existência humana e a qualidade de vida dos portugueses. Porque o Homem só se completa em ser plenamente humano pela e na cultura. Como refere Morin:

Não existe cultura sem cérebro humano (...), mas não há mente (...), isto é, capacidade de consciência e de pensamento, sem cultura. O espírito humano é uma emergência que nasce e se afirma na relação cérebro-cultura.[32]

Porque, em Portugal, nos últimos quase quarenta anos, depois de feitos extraordinários por parte dos atletas nos Jogos Olímpicos e em outras grandes competições internacionais, nunca ninguém soube o que fazer com as medalhas olímpicas conquistadas.

Se o desenvolvimento é complexo é na complexidade que se deve encontrar as soluções para colocar o desporto e o Movimento Olímpico ao serviço do desenvolvimento humano. A última coisa que a sociedade portuguesa pode aceitar é que sem se saber qual é o projeto, os objetivos e a estratégia, o Governo “despeje” no COP 15,7 milhões de euros tal qual espécie de “doping” com que se deseja acelerar o desporto nacional, quando existem federações como a de esgrima em que os seus atletas de alto nível têm de se deslocar ao estrangeiro em representação nacional a expensas próprias.

13.3.Humanismo

Porque o telos é o desenvolvimento humano, para além das medalhas, importa ter em conta um “humanismo integral” porque no Olimpismo, em todas as circunstâncias, o desportista só pode ser visto como sujeito e nunca como um objeto.

Repare-se que há tantos humanismos como as conceções de ser humano. O Olimpismo, enquanto humanismo que é, representa também uma conceção do ser humano em movimento em busca da superação e da transcendência através da competição desportiva com expressão máxima nos Jogos Olímpicos.

A este respeito Edgar Morin fala-nos em valores que sejam verdadeiras apostas capazes de afrontar e denunciar o consenso-resignação em que assenta a democracia, a ciência, a política e a pedagogia hodiernas e de apontar caminhos de emancipação. Desde o desporto escolar até à alta competição, passando pelas problemáticas da saúde e do lazer, é necessário passar “da ação conformista à ação rebelde”[33] sem esquecer os conhecimentos didáticos e pedagógicos da práxis de todos os dias. O Movimento Olímpico enquanto uma das grandes categorias da Motricidades Humana integra contextualizadamente todas estas preocupações afirmando-as na Carta Olímpica. Por isso, o desenvolvimento do praticante exige um conhecimento global onde a superação desportiva se encontre em rede com superações de outro âmbito, tendo em conta a complexidade humana. O Olimpismo enquanto sistema de princípios e valores requer uma compreensão da complexidade que o desporto é e em que se desenvolve. Pelo que a eficácia máxima da motricidade desportiva, enquanto Olimpismo que é, decorre também do facto de uma equipa desportiva ser “análoga a um microssistema social, complexo e dinâmico”.[34]

13.4.Organização

A organização é necessária, porque há ordem, há interações e, com o acordar da insubmissão, há desordem também. As interações unem a ordem e a desordem. Por isso, “um conhecimento pertinente é aquele que é capaz de contextualizar, ou seja, de reunir, de globalizar. A ação toma aqui um novo sentido: é fazer apostas. Pascal (...) apostava em Deus. Nós devemos apostar em valores que não podem ser fundados porque da mesma forma como o mundo se autoproduz, assim também a ética se autoproduz” [35]

A ética autoproduz-se porque, sem ela, a Vida, a História, a Sociedade, o Homem e Movimento Olímpico ficam sem sentido. Portanto, para que a organização se humanize hão de normalizar-se os comportamentos das pessoas através de princípios, de valores e de normas.

Quer isto dizer que o Movimento Olímpico através da consciência oferece uma visão sistémica e complexa do ser humano em que os princípios os valores e as normas devem ser visíveis em toda a prática desportiva desde logo porque são aqueles que servem o atleta e não, o técnico, o dirigente ou o chauvinismo bacoco. O Desporto, como Coubertin alertou num texto de 1911 intitulado “mens fervida in corpore lacertoso”[36] não é uma bioética, que se ocupa da relação indissolúvel entre saúde e desenvolvimento, denunciando as enfermidades resultantes da desigualdade, da marginalização e da destruição do meio ambiente mas, como disciplina resultante da motricidade humana, tem necessariamente como áreas de aplicação a Educação, a Saúde, o Treino e a Gestão. E com um objetivo: o desenvolvimento o desenvolvimento humano.

14.Então, o que Fazer?

Para Edgar Morin há necessidade de um pensamento que:

Compreenda que o conhecimento das partes depende do conhecimento do todo e que o conhecimento do todo depende do conhecimento das partes;
Reconheça e trate os fenómenos multidimensionais, em vez de isolar, de forma mutilante, cada uma das suas dimensões;
Trate as realidades que são, ao mesmo tempo, solidárias e conflituais (...);
Respeite o diverso, reconhecendo o uno.[37]

15.O Olimpismo na Perspetiva da Complexidade

E a pergunta que se impõe é: Pode o Movimento Olímpico ser sujeito a esta visão complexa dos sistemas em interação dinâmica? Se sim quais são os princípios, os valores e a normas a que devemos ser fiéis?

Como refere Morin é necessário reformar o pensamento no sentido de o aproximar do contexto e da complexidade que em alternativa à causalidade unilinear e unidirecional por uma causalidade multirreferencial que enfrente a incerteza e que religue em vez de dividir e separar. Para o efeito, ele apresenta sete princípios que vamos cruzar com os princípios fundamentais do Olimpismo, bem como, quando for caso disso, numa perspetiva complementar e interdependente, com o articulado das regras que consubstanciam a Carta Olímpica. [38] 

15.1.Princípio Sistémico

O princípio sistémico ou organizacional liga o conhecimento das partes ao conhecimento do todo segundo o “vai vem” de Pascal. Para ele era impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, mas também conhecer o todo sem conhecer particularmente as partes. Nesta perspetiva, aliando o desporto à cultura, à educação, ao ambiente e à paz, os cinco grandes pilares do Movimento Olímpico atual, o Olimpismo procura ser “criador de um estilo de vida fundado no prazer do esforço, no valor educativo do bom exemplo, na responsabilidade social e no respeito pelos princípios éticos fundamentais universais” (Carta Olímpica, Princípios Fundamentais, nº 1). Cada um destes elementos:

  • Estilo de vida;
  • Prazer do esforço;
  • Valor educativo do bom exemplo;
  • Responsabilidade social;
  • Respeito pelos princípios éticos,

são sistemas de sistemas que enquanto realidades poli disciplinares, transversais, globais que devem ser tratadas no seu conjunto e de forma integrada no sentido do desenvolvimento humano.

15.2.Princípio Holográfico

O princípio holográfico evidencia que, nas organizações complexas, a parte está no todo como o todo está na parte. Assim sendo, e porque o Olimpismo “é uma filosofia de vida que exalta e combina de forma equilibrada as qualidades do corpo, da vontade e da mente” cumpre o princípio holográfico. Repare-se que o vocábulo holografia vem do grego “holos” (todo, inteiro) e “grafos” (sinal, escrita), pois é um método de registo "integral" da informação. Assim sendo, os hologramas possuem uma característica única: cada uma das suas partes possui a informação do todo. Quer dizer o todo está contido em cada uma das partes. Se olharmos para o corpo humano verificamos que todas as nossas células são especializadas, todavia, cada uma delas só cumpre a sua função na plenitude porque é portadora do “plano global do organismo”. Também o Movimento Olímpico só terá verdadeiramente êxito se cada uma das suas partes for detentora do plano global do organismo”. Em conformidade, o segundo princípio fundamental do Olimpismo diz-nos que este tem como objetivo “colocar o desporto ao serviço do desenvolvimento harmonioso da pessoa humana em vista de promover uma sociedade pacífica preocupada com a preservação da dignidade humana. Quer dizer, cada um deve ser detentor do plano global da sociedade em que está inserido. Por isso, é necessário saber qual é o “plano global do organismo a fim de que cada uma das partes o possa cumprir. Se olharmos para o 3º princípio do Olimpismo podemos verificar que se “atinge o seu auge com a reunião de atletas de todo o mundo no grande festival desportivo que são os Jogos Olímpicos. Quer dizer que cada atleta sabe que enquanto atleta que é faz parte de um todo que só ganha significado porque ele sabe o que é o totó e o todo não existe sem a sua participação.

15.3.Princípio do Anel Retroativo

O princípio do anel retroativo ou seja, “um anel gerador no qual os produtos e os efeitos são eles próprios produtores e causadores daquilo que produz”. Quer dizer, ao pôr em causa o princípio da causalidade linear, refere que a causa age sobre o efeito e o efeito sobre a causa. Conforme refere o primeiro princípio fundamental “o Olimpismo procura ser criador de um estilo de vida fundado no prazer do esforço, no valor educativo do bom exemplo, na responsabilidade social e no respeito pelos princípios éticos fundamentais universais. Mas, simultaneamente, o Olimpismo deve colocar o desporto ao serviço do desenvolvimento harmonioso da pessoa humana. Porque é a pessoa humana, de acordo com os princípios do próprio Olimpismo, que pela educação e cultura competitiva, de excelência, justa, nobre e leal que vai “promover uma sociedade pacífica preocupada com a preservação da dignidade humana.

15.4.Princípio do Anel Recursivo

O princípio do anel recursivo: ultrapassa a noção de regulação com a de auto produção e auto organização em que os produtos e os efeitos são eles próprios produtores e causadores daquilo que os produz. O Movimento Olímpico, diz o seu terceiro princípio, “é a ação, concertada, organizada, quer dizer auto produzida e auto organizada universal e permanente, de todos os indivíduos e entidades que são inspirados pelos valores do Olimpismo, sob a autoridade suprema do COI”. O seu símbolo é constituído por cinco anéis entrelaçados que simbolizam os cinco continentes e um processo de auto produção e auto organização porque sendo a prática do desporto é um direito do homem, todo e qualquer indivíduo deve ter a possibilidade de praticar desporto, sem qualquer forma de discriminação e de acordo com o espírito Olímpico, que requer entendimento mútuo, com espírito de amizade, solidariedade e “fairplay”.

15.5.Princípio da Autonomia/Dependência

O princípio da autonomia/dependência (auto eco organização) diz-nos que os seres vivos são auto organizados que se auto produzem continuamente. Quer dizer têm necessidade de colher energia, isto é informação e organização, no seu ambiente. Como a autonomia é inseparável da dependência é necessário concebê-los como seres auto-eco-organizadores. As sociedades se desenvolvem, na dependência do seu ambiente geo-ecológico, como as pessoas o fazem em relação à cultura. Por isso, num mundo global “a prática do desporto é um direito do homem. Porque o desporto ocorre no meio da sociedade o Movimento Olímpico tem direitos e obrigações de liberdade e autonomia para:

  • Estabelecer e controlar as regras;
  • Determinar a sua estrutura e o seu governo;
  • Gozar do direito a eleições livres;
  • Viver independente de qualquer influência externa.

São estas capacidades geridas de uma forma articulada e integrada que lhe dão ao Olimpismo e ao Movimento Olímpico um sentido de existência autopoiético na busca contínua de uma nova organização mais eficaz, mais eficiente e com melhores objetivos.

15.6.Princípio Dialógico

O princípio dialógico labora que no universo tudo é diálogo, ordem, desordem, organização. Reconhecendo que o desporto ocorre no contexto da sociedade, as organizações desportivas no seio do Movimento Olímpico devem ter direitos e obrigações de autonomia, que incluem a liberdade de estabelecer e controlar as regras da modalidade desportiva através das Federações Internacionais, num diálogo competitivo que se expressa na plenitude nos Jogos Olímpicos porque se no espírito de Coubertin todas as modalidades desportivas podem pertencer ao Programa dos Jogos Olímpicos, as que pertencem estão sujeitas a um diálogo competitivo que confirma ou não o seu estatuto. Veja-se o caso da modalidade da luta Olímpica que sendo uma das mais antigas corre o risco de ser afastada do Programa dos Jogos Olímpicos.

15.7.Princípio da Reintrodução do Sujeito no Conhecimento

O princípio da reintrodução do sujeito em todo o conhecimento defende que da perceção à teoria científica, todo o conhecimento é uma reconstrução / tradução por um espírito / celebrado numa data cultura e num dado tempo. Toda e qualquer forma de descriminação relativamente a um país ou a uma pessoa com base na raça, religião, política, sexo ou outra é incompatível com a pertença ao Movimento Olímpico. Pertencer ao Movimento Olímpico exige o respeito pela Carta Olímpica e ser dotado(a) do reconhecimento do COI.

16.Conclusão

Em teoria, podemos distinguir duas realidades distintas: a decisão ética; e a análise científica. Contudo na prática aquelas duas realidades surgem geralmente misturadas. Por isso na carência de uma forte e ampla ausência de educação e cultura desportivas muitas vezes a sociedade deixa de ser capaz de ver, no âmbito das situações desportivas, designadamente nas altamente competitivas, o Homem, a Vida, a Sociedade e a História.

Assim sendo, ou o Movimento Olímpico é um espaço que em cada momento e em todos os lugares afirma os valores do desporto enquanto instrumento de desenvolvimento humano ou o desporto torna-se numa atividade geradora de violência, terror e morte.

Esta questão que requer a boa vontade dos homens é possível de superar na medida em que, se por um lado, devido às novas tecnologias de informação e comunicação vivemos verdadeiramente numa sociedade em rede à escala global, quer dizer, na aldeia de Marshall McLuhan, por outro, a consciência da epistemologia da complexidade podemos perceber que se o desportista está na sociedade é porque a sociedade está no desportista, tal como se o desporto está na sociedade é porque a sociedade está no desportista, tal como se o Movimento Olímpico está na sociedade é porque a sociedade está no Movimento Olímpico.

A reforma institucional surge da problematização que ocorre no seu interior e considera a inseparabilidade do múltiplo e do diverso, para a ampliação do nível de consciência do real” (Izabel Petraglia, “Edgar Morin: complexidade, transdisciplinaridade e incerteza”, in revista Aprendizagem e Desenvolvimento, volume X, nº. 39-40, Instituto Piaget, Lisboa, p. 95).

É o nível de consciência do real que é preciso aprofundar e ampliar, nos praticantes do desporto, a todos os níveis. A D. João II os seus contemporâneos chamavam-lhe antonomasticamente o “homem”, tantas eram as qualidades que lhe descobriam. Aos campeões do desporto deveria poder chamar-se-lhes “homens”, com igual sentido. É preciso sair a campo, em prol de um Movimento Olímpico que seja valor e educação do futuro, ou seja, que tenha como dogma basilar a formação de “homens”. Que o desporto seja, fundamentalmente, uma pergunta pela transcendência, dado que, como Heidegger o afirmou, a transcendência é a estrutura fundamental da subjetividade necessária à compreensão do próprio desporto e da vida.

A alta competição, quando reproduz e multiplica as taras da sociedade de mercado, o desportista, como sujeito, está ausente. O Movimento Olímpico que se deixou tomar pelo híper capitalismo, hoje imperante em muitos lugares e circunstâncias o atleta é tão só um objeto-coisa-mercadoria e não um sujeito livre e responsável entra num processo de auto destruição competitiva a que Friedrich Nietzsche chamaria de “pré homérica.[39] Porque como Edgar Morin lembra, a propósito:

“O Homem é um ser plenamente biológico, mas se não dispusesse plenamente de cultura seria um primata do mais baixo nível (...). O homem só se completa em ser plenamente humano pela e na cultura” (Os Sete Saberes para a Educação do Futuro, op. cit., pp. 56-57).

A prática desportiva humaniza (e portanto é saudável) “pela e na cultura”. E o Movimento Olímpico deve ser, só pode ser, expressão dessa cultura.

Na Educação, na Saúde, no Lazer, na Competição a todos os níveis. O Desporto, como motricidade humana, resulta em ato e relação e tem a sua máxima expressão no Movimento Olímpico e nos Jogos Olímpicos. No Movimento Olímpico viver é com-viver, quer dizer, rutura por isso com o solipsismo epistemológico e com o egoísmo ético. O Olimpismo deve ser transcendência, superação (designadamente em grupo, em equipa, em comunidade) do que somos, em direção ao que devemos ser: eis o sentido da vida! Eis o sentido do Olimpismo enquanto filosofia de vida que coloca o desporto ao serviço do desenvolvimento humano!

No Olimpismo como valor e educação do futuro, é mister que não se encontre, nele, a “alma da mercadoria” (Walter Benjamin) como a alma daqueles que o praticam, nem o predomínio das ciências da natureza, como sinal de ausência de espírito crítico e de predomínio da quantificação, da matematização, da instrumentalização da realidade, nem ainda de uma ética do discurso, que seja concebida por quem despreza a ética como crítica e como emancipação do neocapitalismo ultramoderno. O Olimpismo, como Valor e Educação do Futuro, ao invés, supera aquela ética do discurso, através de uma dialética em que a nova ética do discurso integra a práxis da transformação social. A ética resulta assim da práxis do desportista que nega, teórica e praticamente, as estruturas indignas de uma sociedade justa. A cultura do Movimento Olímpico não se transforma, mas altera-se o “modus faciendi” dos atletas, dos técnicos e dos dirigentes que não se resume a um puro tecnicismo, pois o “telos” do Olimpismo, isto é, o seu objetivo final; a sua função pedagógica; a sua função dialógica, comunitária e política - são reconstruídos e ultrapassam a visão unidimensional de uma prática desportiva, sem acompanhamento crítico.            

Notas

 

[1] Gasset, Ortega y (1985). El Origen Deportivo del Estado. Marid: Grefol.

[2] Buceta, José María (2008). Futebol, Psicologia e Produção do Conhecimento, Coleção Psicologia do Esporte e do Exercício. São Paulo: Atheneu, p. 66.

[3] Edgar Morin, Reformar o Pensamento, Instituto Piaget, Lisboa, 2002, p. 13.

[4] Edgar Morin, Reformar o Pensamento, Instituto Piaget, Lisboa, 2002, p. 15.

[5] Reformar o Pensamento, Instituto Piaget, Lisboa, 2002, p. 17.

[6] Morin, Edgar (1992). Problemas de uma Epistemologia Complexa. In: O Problema Epistemológico da Complexidade. Lisboa: Publicações Europa América.

[7] Veja-se, por exemplo, a entrevista do Sr. Secretário de Estado do Desporto e Juventude ao jornal “A Bola” de 2013-08-10.

[8] A recente notícia acerca da institucionalização de um “Alto-comissário da Casa Olímpica da Língua Portuguesa no Brasil” que será exercido pelo ex ministro Miguel Relvas está desfasada entre aquilo que diz a Carta Olímpica e aquilo que está a acontecer. A Carta Olímpica diz que o Olimpismo deve promover "... um estilo de vida fundado no prazer do esforço, no valor educativo do bom exemplo, na responsabilidade social e no respeito pelos princípios éticos fundamentais universais.". Em Julho de 2012 o “Público” informou que Miguel Relvas tinha concluído a licenciatura em apenas um ano na Universidade Lusófona. Em abril, o ministro da Educação requereu que o Tribunal analisasse a anulação a referida licenciatura. Entretanto, por notícia do “Público” (2013-06-26) de ficámos a saber que o Ministério Público (MP) instaurou um processo no Tribunal Administrativo de Lisboa contra a Universidade Lusófona, por causa da licenciatura do ex-ministro Miguel Relvas. O envolvimento de tal figura nas atividades do Movimento Olímpico nacional para além de incomodar aqueles que acreditam nos valores do Olimpismo estabelece uma rutura práxica entre os princípios e os valores que decorrem da Carta Olímpica e aquilo que deve ser a acção do COP.

[9] Edgar Morin, La Méthode 1 – La Nature de la Nature, Éditions du Seuil, Paris, 1981, p. 94.

[10] Edgar, Morin, El paradigma perdido – ensayo de bioantropologia, Kairós, Barcelona, 1992, p. 227.

[11] La Méthode 1, op. cit., p. 148.

[12] Niklas Luhmann, Sistemas Sociales. Lineamentos para una teoria general, Anthropos, Barcelona, 1998, p.47).

[13] La Méthode 2, op. cit., p. 155.

[14] O efeito sinergético traduz-se numa ação cooperativa de diferentes agentes de tal maneira que o produto final é maior que a simples soma dos efeitos de cada um dos agentes.

[15] Credo: aquilo em que acreditava; vocação: aquilo que devia fazer em função do que acreditava; missão: a maneira especial como devia cumprir a sua vocação.

[16] Coubertin, Pierre (1996). Mémoires Olympiques. Paris: Editions Revue “EPS”, p.17. A 1ª edição é de 1931, portanto cerca de seis anos depois de Coubertin ter deixado a presidência do COI.

[17] Couberti, Pierre, Notes sur l'Education publique. Paris, Libr. Hachette, 1901, pp. 48-54 (chap. IV). In: Coubertin, Pierre (1986). Textes Choisis -Tome II, Zuriche: Weidmann. Organização Muller Norbert, p. 218).

[18] Coubertin, Pierre (1996). Mémoires Olympiques. Paris: Editions Revue “EPS”, p.17. A 1ª edição é de 1931, portanto cerca de seis anos depois de Coubertin ter deixado a presidência do COI.

[19] De acordo com a Regra 45 da Carta Olímpica o “ Programa dos Jogos Olímpicos” é o programa de todas as competições dos Jogos Olímpicos. É constituído por modalidades, disciplinas e provas. É estabelecido pelo COI para cada edição dos Jogos Olímpicos.

[20] Carnap, Psychology in Physical Language, in Mind and Cognition, Blackwell, Oxford, 1990, p. 23-28.

[21] In: Carta Olímpica, 3º princípio fundamental.

[22] Morin, Edgar (1992). Problemas de uma Epistemologia Complexa. In: O Problema Epistemológico da Complexidade. Lisboa: Publicações Europa América, p. 16.

[23] Coubertin, Pierre de (1996). Mémoires Olympiques, Paris: Editions Revue “EPS”, p.102.                               

[24] In: Más Allá del Sujeto. Barcelona: Paidos, 1989, p. 10),

[25] Douglas Hartmann (2003). Race, Culture, and the Revolt of the Black Athlete.

[26] Sobre o caso das “duas chinas” consultar: Pires, Gustavo (2009). O Olimpismo Hoje: De uma Diplomacia do Silêncio para uma Diplomacia Silenciosa: O Caso das Duas Chinas. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 2, 73-153.

[27]cfr.La Méthode 1 – La Nature de la Nature, op. cit., pp. 14 ss.

[28] In: O Jogo: entre o riso e o choro. Editora Autores Associados, Campinas, 2002, pp. 87 ss.):

[29] Gadamer, Hans-George (2005). Verdade e Método. Petropólis: Editora Vozes.

[30] Pires, Gustavo (2007) Agôn – Gestão do Desporto – O jogo de Zeus, Porto: Porto Editora, p. 119.

[31] In: “Record”, 20/11/2012.

[32] Edgar Morin, Os Sete Saberes para a Educação do Futuro, p. 57.

[33] Edgar Morin, Os Sete Saberes para a Educação do Futuro, p. 31.

[34] Leon Teoduresco, Problemas da teoria e metodologia nos jogos desportivos, Livros Horizonte, Lisboa, 1984, p.166.

[35] Edgar Morin, in AA.VV. A Sociedade em Busca de Valores, Instituto Piaget, Lisboa, 1999, p. 253.

[36] Pierre de Coubertin, in Revue Olympique, juillet 1911, pp. 99-100.

[37] Reformar o Pensamento, Instituto Piaget, Lisboa, 2002, p. 95.

[38] Reformar o Pensamento, Instituto Piaget, Lisboa, 2002, p. 99.

[39] Nietzsche, Friedrich (2003). A Competição em Homero. In: A Competição em Nietzsche", Introdução, tradução e notas de Rafael Gomes Filipe. Lisboa: Veja, coleção Passagens. Este texto de Nietzsche pode ainda ser encontrado em: Nietzsche, Friedrich (s/d), Cinco Prefácios para Cinco Livros Não Escritos. Rio de Janeiro: Editora 7 Letras. 2º Edição.

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Story | by Dr. Radut