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Congresso Olímpico Nacional (alternativo)

Tenreiro

Há Desafios Desportivos que Vale a Pena

Outros Nem Tanto

Fernando Tenreiro

Estamos na cauda da Europa e essa é uma evidência estatística que está por assumir no Desporto em Portugal e retirar as devidas ilações. A evidência estatística não se tornou uma evidência de política desportiva em Portugal no sentido da transformação de um Tudo, parecido com o Tudo de Almada Negreiros. Porém, para realizar esse Tudo desportivo e português há questões vitais que não sendo percepcionadas e assumidas na sua emergência desportiva e nacional demoram “séculos” a encontrar uma solução simples e motivadora para todos os agentes e parceiros e para o país que respondam “à uma” à gravidade detectada.

O objecto deste artigo para um Congresso Olímpico Alternativo é a afirmação da necessidade de um projecto nacional para o desporto português e a convicção da viabilidade desportiva, económica, social, cultural e política do desporto português.

A contrária desta convicção é a percepção do desastre em progressão, face a máximas correntes do género “quedos e firmes” que parecem por aí correr por entre as entrelinhas das lideranças das políticas desportivas.

O desporto actual como resultado da acumulação de factores

O desporto explode de energia, perde-se em recantos de perfeição e fica a alguma distância do essencial, da concepção e da criação da Europa clássica do desporto em Portugal.

Parte da energia do desporto provém do capital de conhecimento que acumulou com pessoas e conhecimento vário, desde aspectos técnicos a projectos científicos, que se concretizam na mobilização da sociedade desportiva para a eleição do COP, na criação de muitas comissões no seu seio, onde inclusive se prestou a estar a artista Joana Vasconcelos que está num momento ascensional internacional impar, na realização do Congresso Olímpico dedicado aos desafios das federações nacionais, no lançamento do projecto de uma Sociedade Científica de Gestão do Desporto para a assunção da ciência da gestão e agora no Congresso Olímpico Alternativo. Esta energia pode perder-se ou seguir caminhos de ineficiência.

Abel Figueiredo no artigo deste Congresso Alternativo propõe o sair da “caixa” para defrontar os desafios existentes. Ou seja, tomando-o como exemplo da energia acumulada o seu texto afirma: “A mudança organizacional intencional deve ser serenamente revolucionária. A serenidade é elogiada na atitude hermenêutica (teoria da interpretação) característica da pós‑modernidade; o cariz revolucionário apela à noção estratégica de subversão: quebrar as regras estabelecidas para o bem mais comum.”

Do outro lado, do lado de quem está no terreno, a energia substantiva é a do esforço imenso das federações e da estrutura de produção federada amadora que cria campeões mundiais e olímpicos e se queda exangue depois de cada esforço “inumano” que materializou mesmo que numa formidável e escassa medalha.

A desestruturação nacional e o exemplo alemão

Sem instrumentos de diálogo científico e associativo o susto de iniciativas da sociedade civil é permanente e a realidade vai-se tornando cada vez mais difícil para os agentes no terreno sem que eles próprios tenham a capacidade de encontrar soluções colectivas pelo envolvimento nas dificuldades actuais e pelas condições que tolhem a sua capacidade de produzir/criar desporto muito mais alto e estruturar resultados desportivos próximos da média europeia. As instituições do desporto sempre têm valorizado o diálogo com os agentes mais activos fugindo a objectivos de complexidade europeia e de princípios de equidade, de qualidade e de eficiência. Economicamente a complexidade e a valorização dos princípios no seio das políticas desportivas é permanentemente ocultada por soluções politicamente superiores unicamente de um ponto de vista do imediato. No longo prazo os resultados actuais demonstram a desestruturação aleatoriamente sistemática cujos resultados bem visíveis se observam na quebra contínua de produção de medalhas. Outros indicadores têm dado resultados negativos semelhantes.

Todo o político português que se preza ostenta em cerimónias públicas as medalhas da decisão sobre miríadas de projectos que com um segundo olhar surgem como prejudiciais aos agentes desportivos. Os alemães nos seus projectos desportivos, regra geral, acompanham os projectos europeus mas fazem-no à sua maneira. Primeiro a Europa no Conselho da Europa e na União Europeia avançam com uma determinada decisão de investigação, por exemplo, em economia do desporto. A Alemanha compromete-se a realizar o projecto. A maior parte dos países ao fim do prazo acordado acabam o projecto segundo a metodologia acordada por todos. Mais tarde, anos e meses, seguindo os seus princípios e o que melhor interessa ao seu desporto, a Alemanha apresenta o seu projecto. Responde aos quesitos acordados por todos e vai mais longe segundo uma metodologia correcta, que compreende os fundamentos da economia do desporto e os interesses do desporto alemão. Os alemães são o exemplo do que deveria ser feito por Portugal de investir no longo prazo e de assumir as ciências do desporto como um instrumento de progresso vital.

As ciências do desporto e as políticas desportivas nacionais

Depois também acontece que embora por vezes se fale em economia a verdade material é que se inviabilizam activamente projectos económicos estruturais para o desporto português, sem apresentar alternativas equivalentes, e paradoxalmente como não conquistamos medalhas haveria que discutir igualmente as questões técnicas e científicas da “engenharia” da produção desportiva. A boa engenharia de produção desportiva deveria conduzir a eficiência da produção de desporto. Em Portugal faz-se ao contrário, toma-se a restrição contabilística e orçamental e assume-se a sua primazia como vector de certa eficiência económica. A par surge a subsídio-dependência como vector de política desportiva que mais contribui para amarrar e matar a iniciativa privada do associativismo e do empreendedorismo. A política pública para o desporto nacional não tem de ser castradora e geradora de subsídio-dependência. Há que criar uma política desportiva e instrumentos de financiamento e normas de direito que valorizem as funções privadas e as públicas. O paradigma nacional funciona de pernas-para-o-ar em relação à economia do desporto europeu.

Provavelmente choco conceitos sagrados gravemente e cometo pecados mortais com estas afirmações. Mas aprofundando mais, na realidade, institucionalmente, Portugal não pode dar-se ao luxo de destruir. Quando se pensa destruir o outro partido, o outro investigador, para se fazer o que se entende, sem uma base científica e técnica, castra-se, perde-se a Europa e perde-se Tudo. O desafio para além da essência do ser do desporto é político e institucional antes de ser económico e só depois dever ser jurídico.

A problemática da economia do desporto português é rica em falsos comportamentos e soluções de “encher o olho”. É fácil atulhar a cabeça dos parceiros desportivos com a palavra economia e outras de igual peso, continuar a não materializar factores substancialmente distintos nomeadamente na valorização do capital técnico e científico acumulado nas diferentes áreas do conhecimento desportivo, e instrumentalizá-los focando objectivos nacionais e metas de desenvolvimento desportivo.

Cada ciência terá os seus argumentos para valorizar a razão do investimento no seu desenvolvimento. À economia não chega que responsáveis políticos decidam o não fomento da ciência e da investigação económica em Portugal como acontece actualmente.

A relevância dos parceiros que produzem

Os parceiros que actuam no mercado do desporto são agentes privados com uma identidade económica e social própria e devem ser assumidos enquanto agentes racionais capazes de produção desportiva eficiente, de transformação nacional e do inexcedível. A história do desporto português tem inúmeros exemplos do inexcedível de que se conhecem casos mais badalados, por exemplo, os ligados ao futebol como Carlos Queiroz, Figo e a sua geração, Jorge Mendes, Pinto da Costa, Ronaldo e Mourinho. A verdade é que, uma modalidade só, não é o todo desportivo, e não terá ainda mais génios porque vive um mundo à parte, como parceiros de todas as modalidades desportivas lamentam. As significativas vitórias olímpicas conseguidas por Fernando Mota à frente do Atletismo nacional esbarrou nas condições de produção desportivas nacionais que exauriram as condições de trabalho da estrutura federada até levarem a modalidade a não conquistar novas medalhas nos Jogos Olímpicos de Londres em 2012.

Futuramente a solução genial será trabalhar em comum e não valorizar unicamente os partidos e os seus cartões partidários. O desafio de política desportiva será o de estabelecer centros de competitividade científica e técnica e conseguir manter os níveis de performance existentes dos sectores mais “performantes” e o de facultar aos parceiros desportivos e à sociedade o assumir o desporto como um instrumento do seu bem-estar e estilos de vida activos.

Os países europeus de oeste demoraram décadas a construir um resultado óptimo e os países de leste entre lacunas, erros e realizações inquebrantáveis mantêm um nível competitivo elevado e convergente com o modelo clássico do desporto europeu. Certa esquizofrenia política de querer resultados para ontem, de quem nunca conseguiu produzir desporto europeu, “trabalha apenas com os seus”, é confrangedor porque no plano dos princípios, ao plano do fazer, se contraria o que se exige aos atletas que é o de competirem e trabalhar com os melhores. O desporto português nas suas sinecuras não trabalha com os melhores do desporto, não cria condições para o diálogo entre os melhores, não tem lugares de diálogo entre os melhores e os responsáveis associativos, empresariais e políticos. Nas suas sinecuras o desporto português não sobe tão alto como outros sectores nacionais conseguem ir e vai muito mais baixo quando a crise se instala.

O discurso politicamente correcto passa ao lado do debate relevante, das necessidades vitais da produção social e de vida. Como os recursos são escassos “o dinheiro esgota-se nos amigos”, “a ciência é a que os amigos fazem” não a resposta aos desafios de quem labuta dia-a-dia a produzir o melhor desporto possível e de quem observa a destruição do seu labor de longo prazo.

A desestruturação do desporto português mostra como um país que não tem princípios desportivos e outros, fica sem um futuro desportivo.

O Desporto em Portugal tem Tudo para fazer

Falta-nos o Tudo, desde o intangível das vitórias mundiais dos desportistas geniais nacionais que provavelmente ainda desconhecemos onde estão e como fazer para aparecerem, à “água e ao pão” das actividades mais simples e necessárias ao estilo de vida da população que se quer desportivamente activa.

A contenção, a oportunidade dos bons projectos e das boas decisões de política, como fazem os alemães no seio da Europa, serão dos elementos fundamentais que aliados à capacidade de ouvir o outro e de conceber estruturas de diálogo complexas levem à valorização e concatenação do capital já gerado e à explosão de resultados desportivos e abertura à realização socialmente comum.

Verdadeiramente continuamos na cauda da Europa, temos um potencial técnico e científico acumulado nos múltiplos produtores de desporto, do bairro à ciência, e uma população maravilhosa, não conseguimos ver o futuro e continuamos a ser liderados pela primeira pessoa da fila em que todos estamos, como no quadro do pintor flamengo Pieter Bruegel o Velho, de 1568, o primeiro da fila tem tropeçado e tropeça.

É necessária uma grande coragem e imensa paciência, connosco próprios, para conseguirmos fazer bem o que, apesar de tudo o que foi alcançado, não fizemos inteiramente bem nas décadas recentes.

Linda-a-Velha, 14 de Março de 2014

Fernando Tenreiro, fjstenreiro@gmail.com

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Story | by Dr. Radut