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Congresso Olímpico Nacional (alternativo)

A Rutura de Pierre de Coubertin com a Educação Física

Do “mens sana in corpore sano” para o “citius, altius, fortius”

Gustavo Pires

1. Apresentação

Os gregos antigos, como sabiam que, na sua ânsia de poder e de glória, os homens tinham necessidade de violência para se sentirem realizados, inventaram os Jogos[1] e, deste modo, sem os custos trágicos da guerra, tornaram a paz gloriosa, através do prazer lúdico da violência controlada. E eles viajavam longas distâncias para consultarem os oráculos e ouvirem as previsões das musas, cassandras e pitonisas, a fim de ultrapassarem as dúvidas e anseios das suas vidas, mas também para participarem nos grandes festivais de destrezas, de lutas, de corridas, de récitas, de música e de dança que eram os Jogos, realizados em honra de Zeus, o rei dos deuses. À época, os Jogos eram o ponto nevrálgico da vida grega, num perfeito compromisso de emoções e de sentimentos entre o homem, a natureza e a sociedade. A música e a dança faziam parte dos rituais de batalha e a deusa da alegria, do prazer e do divertimento, de seu nome Paidia, geria o clamor da diversão que, sob o comando de Ares o deus da guerra, podia ir até ao amargo sabor doce da violência selvagem cantada por Homero. Por outro lado, Apolo, deus do rigor, da ordem e do futuro, assediado pelo êxtase frenético das festas e do prazer de Dionísio deus do vinho, promovia a excelência da “areté”, que os gregos desenvolviam através do exercício da violência controlada no polissémico do conceito de “agôn”, acerca do qual Friedrich Nietzsche (1844-1900), o filósofo da energia vital, da vontade de poder e do super-homem, em 1872, escreveu o texto "A Competição em Homero” e Pierre de Coubertin, em 1892 propôs o regresso a esses valores.

Na caminhada dos homens para a civilização, o jogo enquanto instinto, como afirmou Coubertin em 1922[2], em muitas circunstâncias, representou a metáfora da guerra, num processo em que as sociedades procuraram sublimar os seus instintos bélicos através da competição organizada de maneira a satisfazerem as necessidades mais primitivas de luta pela sobrevivência. Sempre assim foi e, muito provavelmente, sempre assim será.

Para além dos seus mentores que analisaremos posteriormente, foi certamente entusiasmada com a descoberta do sítio de Olímpia realizada em 1881 pelo alemão Ernst Curtius (1814-1896)[3] que Pierre de Coubertin percebeu a necessidade de regressar ao passado competitivo grego estabelecendo um corte com as atividades físicas que, ao tempo, eram realizadas por meros motivos recreativos, de saúde, de preparação militar ou de apuramento da raça. Assim sendo, no presente ensaio pretendemos determinar as condições em que, em finais do século XIX princípios do século XX, Coubertin estabeleceu um corte com os modelos gímnicos que, ao tempo, eram preponderantes, desencadeando um novo modelo, o desportivo, que havia de vir a ter um enorme sucesso e prestígio à escala do Planeta.

2. Em Busca da Excelência

A dimensão agonística da sociedade grega visava ainda ultrapassar uma visão pessimista e decadente pela constante superação das tensões entre os homens, com o objetivo de proclamar a excelência humana na sua verdadeira beleza e glória, através da afirmação de uma perspetiva positiva da vida consubstanciada num jogo competitivo em busca da superação e da excelência. Nietzsche expressa este sentimento do jogo da luta n’ “A Filosofia na Idade Trágica dos Gregos” (1987:46) quando afirmou que “o mundo é o jogo de Zeus”. Ao fazê-lo, atribuiu ao jogo uma dimensão ontológica num sentido eminentemente positivo da vida que sai reforçado ao afirmar que “não é a perversidade, mas o impulso do jogo sempre despertando de novo que chama outros mundos à vida” (Nietzsche, 1987:50). Assim sendo, o jogo que caracteriza a cultura de competição da Grécia antiga, no discurso de Nietzsche, tem a mesma dimensão semântica das palavras luta, combate, querela, disputa ou discórdia em busca da excelência. Quando a criança liga, junta, constrói, brinca e disputa segundo uma lei que lhe confere uma ordem intrínseca ela prepara a vida.

Se, por um lado, a dimensão competitiva do jogo e da vida não deve ser condicionada sob pena de perder aquilo que de mais útil tem que é a dimensão da luta, livre, nobre e leal pela superação, por outro lado, não deve ser deixada ao sabor do imprevisto e do improviso porque, tendo em atenção os mais primários sentimentos da condição humana, pode desencadear processos absolutamente dramáticos para a vida das pessoas, dos países ou das regiões. Nesta perspetiva, diremos que uma sociedade pode beneficiar do equilíbrio de tensões criado entre os seus membros. Na realidade, quando o sucesso ou o fracasso, em grande medida, depende da qualidade das decisões dos líderes dos mais diversos setores económicos e sociais, é de fundamental importância que elas sejam tomadas a partir de um conhecimento profundo do que são as vantagens de um equilíbrio competitivo, condição “sine qua non” de evolução e de progresso.

3. O Anúncio de 1892

Em finais do século XIX, de uma maneira geral, todos os movimentos de educação física e desporto libertos de preconceitos, tinham subjacentemente preocupações, políticas, patrióticas e militares, para além das higiénicas e educativas. Por isso, no que diz respeito ao Olimpismo enquanto movimento de educação física surgido no século XIX, as suas relações com a política aconteceram, como não podia deixar de ser, desde que Pierre de Coubertin (1863-1937) idealizou a institucionalização dos Jogos Olímpicos. Porque, ao fazê-lo, teve como objetivo mais profundo ultrapassar a enorme crise de degenerescência em que os franceses se encontravam desde que o exército de Napoleão III (1808-1873) sofreu uma enorme derrota em Sedan (2/09/1870) infligida pelo exército prussiano comandado por Otto von Bismarck (1815-1898). Contudo, como se pode verificar nas suas memórias, Coubertin teve como preocupação instituir no novo Movimento Olímpico uma dinâmica de paz, procurando sentar à mesma mesa de conversações países beligerantes, convencendo-os implicitamente de que era possível transferir para os campos da luta competitiva do desporto as disputas políticas, ultrapassando as questiúnculas até então resolvidas por meios bélicos que, a partir da chamada “guerra de massas”[4], devido aos armamentos tecnologicamente mais sofisticados, passaram a provocar entre os países beligerantes perdas insuportáveis em vidas e bens.

Ao tempo, todos falavam na necessidade de mudar, contudo, quando se tratava verdadeiramente de mudar as dificuldades surgiam de todos os lados. Por isso, Pierre de Coubertin (1863-1937) ao anunciar a necessidade de serem restabelecidos os Jogos Olímpicos da Grécia antiga no dia 25 de novembro de 1892 numa conferência que se realizou na Sorbonne no âmbito das comemorações do quinto aniversário da Union des Sociétés Françaises des Sports Athlétiques (USFSA)[5] fê-lo com o máximo cuidado a fim de não criar uma reação imediata dos prosélitos das diversas escolas de ginástica que se desenvolviam não só em França como por toda a Europa. Em consequência, o anúncio de Coubertin foi recebido com entusiasmo contudo, os presentes estavam convencidos de que se tratava tão só do anúncio de mais um “meio de educação física” pelo que, é o próprio Coubertin que o diz, ao anunciar a intenção de organizar os JO da era moderna, ficou com a ideia de que a generalidade dos presentes no anfiteatro da Sorbonne não percebeu do que é que ele estava a falar e, menos ainda, das consequências que daí poderiam advir. Até porque, Georges St-Clair um dos fundadores da I’USFSA e uma das figuras de proa do congresso, no seu discurso, tinha proclamado as virtudes da educação física bem como os métodos como ela era ensinada pela nova escola francesa que, para além dos cuidados relativos à higiene, promovia a formação do caráter dos alunos num ambiente democrático.[6] Claro que o discurso de St-Clair, redondo de forma, vazio de substância e falho de objetivos concretos podia descansar os congressistas quanto à circunstância de todo continuar a decorrer como dantes, no entanto, nada tinha a ver com as intenções de Coubertin que, para não amedrontar os presentes, fez passar a ideia de que a única coisa que queria era promover a “renovação muscular em França”, quer dizer, melhorar aquilo que a educação física já fazia. Não foi fácil porque como ele próprio referiu nas suas memórias[7], por vezes, tinha de se fazer passar por imbecil a fim de conseguir os seus objetivos.

4. A Restauração dos Jogos Olímpicos

O desporto moderno encontra a sua essência na própria natureza humana, a qual tem inerente um conteúdo biológico que se exprime através da luta pela superação. E os JO são nos tempos que correm a expressão global dessa substância intrínseca e uma emanação, ao mesmo tempo, em termos culturais das sociedades de tipo capitalista, democráticas e liberais, em que vivem e convivem a grande maioria dos países desenvolvidos. Por isso, quando Coubertin anunciou a intensão de restaurar a realização dos Jogos Olímpicos da antiguidade grega desencadeou um processo que havia de provocar uma mudança radical em todo o sistema de atividades físicas que, à época, se praticavam. Contudo, para que a mudança tivesse sucesso, Coubertin preocupou-se por a fazer parecer uma simples melhoria daquilo que já se fazia no passado. Nestes termos, não estamos de acordo que Coubertin seja dado como um pedagogo quando, bem vistas as coisas, nem Coubertin teve da pedagogia uma prática que lhe granjeasse prestígio nem a pedagogia foi o seu instrumento privilegiado de ação a fim de instituir o MO moderno. Claro que Coubertin foi um pedagogo, até porque obteve formação universitária em pedagogia, todavia, não foi com pedagogia que ele resolveu as questões económicas, sociais e políticas que se levantaram ao desenvolvimento dos Jogos Olímpicos da era moderna e à institucionalização do Comité Olímpico Internacional (COI). Na realidade, se bem observarmos, na institucionalização dos Jogos Olímpicos da era moderna a ação de Coubertin teve muito mais a ver com toda uma dinâmica organizacional nos domínios da psicologia, da sociologia e da gestão do que propriamente com os domínios da pedagogia que foi tão só a precursora de tudo aquilo que ia acontecer. Para Coubertin, desde a “conquista da Grécia” e a organização dos Jogos de Atenas em 1896, até ao último combate da sua vida que foi a defesa da realização dos Jogos de Berlim em 1936, nunca o desporto foi uma atividade assética longe dos problemas do mundo e da política que rege a relações humanas.

5. A Visão de Coubertin

Quando Coubertin resolveu fundar o Comité International des Jeux Olympiques ele já tinha grande experiência no que diz respeito à fundação, organização e gestão de várias sociedades desportivas. Por isso, ao unir o “Comité pour la Propagation des Exercises Physiques” com a “Union des Sociétés Françaises de Course a Pied” organizações desportivas a que estava ligado a fim de fundar a USFSA Coubertin criou uma superestrutura acima das demais organizações desportivas que lhe permitiu libertar-se dos pedagogismos e das perspetivas salutogénicas da educação física para, cinco anos mais tarde, anunciar a institucionalização dos Jogos Olímpicos da era moderna e dois anos depois em 1894 a fundação do Comité International des Jeux Olympiques.

Os Jogos Olímpicos para Coubertin simbolizavam a busca da superação e da excelência que devia caracterizar a cultura de competição do MO que ele não via desenvolver na educação física, antes pelo contrário. Repare-se que o agôn em Coubertin, assume uma significativa semelhança com o de Nietzsche na “Competição em Homero”, quando este explica que os gregos antigos que para que a competição não tivesse limites regulamentavam-na. E aqueles que não se sujeitavam às regras da competição que podia ser política ou desportiva eram ostracizados.

6. Contra o Pensamento Institucionalizado (1892)

Não foi fácil a Coubertin cortar com os arquétipos da educação física que estavam e, por incrível que possa parecer, ainda estão no espírito de muita gente, por isso, no Congresso de 1892, Coubertin iniciou o seu discurso com cuidados reforçados começando por dizer que a cultura contemporânea estava “impregnada de helenismo”. Depois, cuidadosamente, contra os discursos que à época corriam a partir dos prosélitos das escolas de educação física afirmou que o desporto era uma atividade educativa, e harmoniosa que tornava a sociedade melhor. E concluiu com a seguinte exortação: “exportemos os remadores, os corredores, os esgrimistas: eis o futuro da liberdade de troca em que será introduzida nos costumes da Europa e a causa da paz receberá um novo e possante apoio” [8].

Na realidade, o Olimpismo, através do desporto, promove, por via da educação, uma cultura competitiva, mas não uma qualquer competição, na medida em que o deve fazer no respeito pelos seus princípios e valores, pelo que não é toda e qualquer competição que pode interessar ao MO. Hoje, segundo a Carta Olímpica (2007): “O objetivo do Olimpismo é o de colocar o desporto ao serviço de um desenvolvimento harmonioso do homem, com a perspetiva de promover uma sociedade pacífica preocupada com a preservação da dignidade humana.”

7. Ver Longe e com Amplitude…

Coubertin foi um extraordinário inovador capaz de ver longe e com amplitude a grande mudança necessária ao paradigma da educação física que se estava a esgotar, no higienismo, no racismo e num certo hedonismo dos jogos recreativos. Para o efeito, ele foi buscar à agonística grega o sentimento da competição associando-o a todo um conjunto de divisas a partir de metáforas, signos, símbolos emblemas que, mais facilmente, podiam fazer passar as suas ideias a fim de organizar os Jogos Olímpicos da era moderna.

As divisas que têm sido usadas ao longo da história da humanidade, pela importância que assumem na condução da vida dos homens, até são inscritas nos documentos e cunhadas nas mais variadas peças, entre elas, troféus, emblemas, edifícios e monumentos. Geralmente, a cada divisa está-lhe subjacente um quadro ideológico onde se organizam princípios, valores e objetivos, que hão de organizar o futuro. E, assim, Coubertin, debaixo de enormes dificuldades, conseguiu, através uma política de comunicação extraordinariamente eficiente, liderar o MO moderno durante os seus primeiros trinta anos vida.

8. Estilo de Liderança – Soft Power

Não foi fácil porque, ao tempo de Coubertin, a cultura de liderança tinha como exemplo máximo militares como Napoleão (1769-1821) ou Bismarck (1815-98) que afirmavam o seu poder enquanto líderes pela força da sua vontade porque tinham meios para a fazerem vingar. Contudo, Coubertin geriu o COI durante trinta anos através de uma liderança sustentada no valor das suas ideias, no prestígio do seu conhecimento e no exemplo do seu comportamento. Tal só foi possível porque, do ponto de vista político, Coubertin demonstrou ser capaz de, através de uma gestão parcimoniosa com recursos e meios escassos, num estilo “soft power” e com um forte sentido pragmático, desencadear a organização do MO moderno.

9. Subterfúgios

Coubertin refere nas suas “Memória Olímpicas” que, relativamente à institucionalização dos JO da era moderna, resolveu utilizar uma estratégia que passava, como habitualmente acontecia, pela utilização de um subterfúgio.[9] Para o efeito, em janeiro de 1894, Coubertin divulgou uma carta por todo o mundo em que anunciava a realização de um congresso internacional cuja ordem do dia era a discussão acerca das questões relativas ao amadorismo. Contudo, Coubertin, de uma forma discreta, no final da carta também anunciava o propósito de instituir a realização dos JO da era moderna que, no fundo, para ele era o seu principal objetivo. Assim, pode-se ver no “Bulletin n.1 do “Comité International des Jex Olympique” que o Congresso foi quase todo preenchido com discussões acerca de amadores e de amadorismo quando a principal intenção de Coubertin foi a de fazer passar a ideia dos Jogos Olímpicos.[10]

10. Os Mentores de Pierre de Coubertin

Coubertin foi um dos primeiros políticos mundiais a entender o verdadeiro poder da autoridade do “soft power” que foi buscar aos seus principais mentores entre os quais sobressaem:

  • O pedagogo Thomas Arnold (1795-1842);
  • O sociólogo Frédéric Le Play (1806-1882);
  • O filósofo Hippolyte Adolphe Taine (1828-1893);
  • O médico William Penny Brookes (1809-1895);
  • O frade Henri Didon (1840-1900).

Como se pode verificar aqueles que podem ser considerados como os principais mentores de Coubertin eram provenientes não só de diversos ramos do conhecimento como de diversos grupos sociais o que, de alguma maneira, explica o espírito eclético do seu pensamento.

10.A.Thomas Arnold (1795-1842)

Coubertin considerava Thomas Arnold um “génio da educação”.[11] Ele foi diretor da escola de Rugby de 1828 a 1842. Ficou conhecido pelas suas reformas pedagógicas que atribuíam ao desporto um caráter de seriedade no processo educativo ao assegurarem ao aluno o pleno desenvolvimento da sua individualidade num constante gosto de luta pela superação, “amamat victoria curam”, quer dizer, a vitória ama o esforço. Como refere George Rioux (1986) Coubertin tinha na sua biblioteca o livro de Emena Worboise intitulado “The Life of Dr. Arnold” uma edição de 1885. Ele admirava os métodos pedagógicos de Arnold centrados numa psicologia da educação que tornava cada um responsável pelo seu poder criativo; a sua própria educação moral; o direito à decisão; através de uma prática desportiva enquanto preparação essencial para a vida.

A admiração de Coubertin por Thomas Arnold era de tal ordem que, em princípios de 1889, dedicou um livro, prefaciado por Jules Simon e intitulado “l'Education Anglaise en France” à figura Arnold que, para ele era um homem genial que descobriu a maneira de fazer do desporto “uma fonte incomparável de aperfeiçoamento pedagógico transformando os campos de jogos em laboratórios metodológicos da “virilidade nascente.”[12] Arnold, sem discursos e proclamações mas, tão-somente, pelo seu exemplo, tornou-se, nas palavras de Coubertin a “pierre angulaire” de “l'empire britannique”.[13] Assim sendo, quando Coubertin em 1887 visitou Inglaterra e tomou contacto com o ensino do desporto das escolas públicas percebeu imediatamente que se estava na eminência de uma mudança de paradigma centrada na responsabilização pessoal dos alunos que teve a oportunidade de expressar numa conferência sobre “educação inglesa” e, posteriormente, num livro[14].

10.B. Frederic Le Play (1806-1882)

Frederic Le Play era engenheiro, economista e sociólogo. Foi comissário geral das exposições de Paris de 1855 e de 1867. A partir de uma sociologia aplicada Le Play estudou determinados fenómenos morais e sociais tendo em consideração a família, o Estado e as relações sociais. Entre os temas abordados por Le Play está o “orçamento familiar” pois ele considerava que a família era a base de toda a organização social. Em 1856 fundou a “Société d’Économie et de Science Sociales”[15] que, ainda hoje, está em atividade. Publicou os seguintes trabalhos: “Les Ouvriers Européens”  em  1855;  “La Réforme Sociale en France” em 1864;   e “La Constitution Essentielle de l'Humanité”  em 1881. 

A admiração que Frédéric Le Play despertava em Coubertin, pode ser avaliada pela conferência proferida por este a 14 de fevereiro de 1887 na Sociedade Nacional Francesa em Londres. Dizia Coubertin:

…a obra de Frédéric Le Play é dupla: em primeiro lugar, ela está aberta às perspetivas anteriormente inexploradas de um nova ciência a que chamamos de ciência social que, tendo o seu método de observação e estando baseada no conhecimento, tal como as demais ciências é suscetível de grande progresso – e por outro lado, ela contém um programa de reforma social em França, em que todos os pontos do programa se sustentam na base da observação contemporânea dos povos num exame imparcial dos períodos de decadência e recuperação que marcam as diferentes fases da história.[16]

Muito embora a relação do pensamento de Coubertin com o de Le Play esteja pouco explorado o que é facto é que muito do pensamento social de Coubertin está sustentado no de Le Play como refere Yves-Pierre Boulngne um dos poucos autores a explorar com alguma profundidade as relações do pensamento de Coubertin com o de Le Play desenvolvido no livro “La vie et l’Oeuvre Pédagogique de Pierre de Coubertin”. Quando, já no fim da sua vida Coubertin resolveu escrever a sua biografia que não chegou a ser publicada, sobre Le Play escreveu:

Le Play foi, com Arnold, o mestre para o qual vai a minha gratidão agora que a noite se aproxima. A estes dois homens devo mais do que aquilo que posso dizer.[17]

10.C. Hippolite Taine (1828-1893)

Quanto a Hippolite Taine, se Arnold deu a Coubertin a visão da reforma educativa num novo modelo organizacional de cariz pedagógico e Le Play a visão das grandes transformações sócias e institucionais, Taine, no livro “Notes sur Engleterre”[18], proporcionou a Coubertin muitas das respostas relativamente aos problemas levantados pela dialética liberdade x responsabilidade questão central na rutura pedagógica que envolveu a segunda metade do século XIX. Para além da ginástica dos modelos de educação física profiláticos e militaristas que vinham do Século XVIII, tratava-se de desenvolver uma pedagogia de liberdade e da responsabilidade em que o desporto podia assumir um papel de fundamental importância através de modelos de prática desportiva organizada a partir do envolvimento dos próprios jovens. Taine tinha como expoentes máximos: Thomas Arnold enquanto diretor da escola de Rugby, bem como Thomas Hughes (1822-1896) e o seu livro intitulado “Tom Brown's Schooldays” [19] que, a par do cónego Charles Kingsley (1819-1875), eram tidos como os precursores do designado “cristianismo muscular” que surgiu a fim de ultrapassar o obscurantismo corporal da igreja na idade média.

 O termo “cristianismo muscular” foi cunhado com uma intenção negativa pelo clérigo T. C. Sanders ao criticar um texto de Kingsley publicado a 21 de fevereiro de 1857 no Saturday Review. Para Kingsley:

...no campo de jogos os rapazes adquirem virtudes que nenhum livro lhes pode dar; não apenas ousadia e perseverança, mas, melhor ainda, calma, autodomínio, justiça, honra, aprovação sem invejas do sucesso do outro, e todos os aspetos da vida que sustentam o homem numa boa posição quando ele vai para vida, sem a qual, de fato, seu sucesso será sempre mutilado e parcial.[20]

Posteriormente, o termo “cristianismo muscular” passou a designar uma perspetiva educativa que procurava integrar o desenvolvimento físico com o desenvolvimento espiritual cristão (protestante ou católico).[21] Quer dizer, as preocupações pela higiene e a saúde na Inglaterra vitoriana acabaram por sancionar a prática desportiva enquanto instrumento de educação no sistema educativo inglês. Para Taine era necessário instruir o povo sob pena de ele se tornar ingovernável. Sobre o modelo inglês Taine escreveu:

… oito horas por dia, no máximo, na maioria das vezes seis ou sete, entre nós, onze o que é razoável. Os adolescentes precisam de movimento físico e é contra a natureza levá-los a serem um cérebro puro, uns “sem pernas” sedentários. Aqui os jogos desportivos, a palma, a bola, a corrida, os passeios de barco e, especialmente, de críquete, ocupam uma parte diária do dia, duas ou três vezes por semana, as aulas cessam ao meio-dia para a prática desportiva. O espírito de corpo envolve cada escola pelo que cada uma quer prevalecer sobre as suas adversárias na disputa e seleciona para as competições remadores e jogadores cuidadosamente preparados e selecionados. Harrow venceu Eton no ano passado e espera vencer este ano.[22]

Nesta perspetiva, Coubertin afirmava que:

…é necessário pôr o proletariado num estado de cultura suficiente. Para que ele tenha a força de resistir a ele próprio, de fazer frente à sua cólera, mesmo que ligeira, contra a injustiça, flagrante, a fim de poder trabalhar tenazmente, mas calmamente na sua própria evolução.[23]

Assim sendo, para Coubertin, desporto era um instrumento político ao serviço do Olimpismo e do desenvolvimento humano. Os processos podiam ser educativos, contudo, os fins eram profundamente políticos. Como tal, o desporto devia ser um instrumento de desenvolvimento que o projetasse acima do próprio desporto. Quer dizer, o desporto tinha de ter objetivos para além de si próprio a fim de cumprir a sua missão social. E, em fevereiro de 1910, num texto intitulado “O Desporto e a Moral” Coubertin explicou:

…o desporto não é senão um adjuvante indireto da moral. Para que ele se torne um adjuvante direto, é necessário que se lhe atribua um objetivo refletido de solidariedade que o eleve acima dele mesmo. É esta a condição ‘sine qua non’ de colaboração entre o desporto e a moral. [24]

10.D. William Penny Brookes (1809-1895)

Coubertin foi, ainda, influenciado pelas experiências sócio-pedagógicas levadas a cabo pelo médico Penny Brookes em Much Wenlock / Inglaterra através da sociedade por si fundada em 1859 a “Wenlock Olympian Society”.[25] Quando Coubertin visitou Inglaterra teve a oportunidade de assistir aos jogos anuais da Sociedade Olímpica de Wenlock que o Dr. William Penny Brookes organizava, desde princípios dos anos cinquenta. [26] Foi lá que Coubertin recebeu de Penny Brooks a visão internacionalista do Movimento Olímpico. Penny Brookes, ao tempo já mantinha relações com o grego Evangelis Zappas (1800-1865) a quem enviou a quantia de 10£ a fim de ser entregue ao vencedor de uma das provas dos Jogos Olímpicos que Zappas organizou pela primeira vez em 1859, na cidade de Atenas. O prémio foi atribuído ao vencedor da “corrida longa”. Para Coubertin era claro que o MO só podia ressurgir sob a condição de conseguir sentar à mesma mesa não só as várias nacionalidades europeias como as mundiais, independentemente de, em alguns momentos da história e, em determinadas circunstâncias, se terem encontrado nos campos de batalha a fim de cruzarem armas. Por isso, no seu ideal internacionalista, a sua ideia era substituir pela competição desportiva a competição bélica que acontecia nos terrenos de batalha.

10.E. Henri Didon (1844-1900)

Henri Didon foi um dos companheiros mais próximos de Pierre de Coubertin na aventura olímpica. E, entre os mentores de Coubertin o mais conhecido. E  ficou conhecido pelo facto de ter sido dele a ideia do mote “citius, altius, fortius” que representa o sentimento de superação que deve presidir ao espírito daqueles que aderem aos valores do MO. O problema foi que, tendo sido adotado durante o Congresso de 1894 em que o “Comité International des Jeux Olympiques” foi fundado[27] acabou por não ter sido realmente assumidos pelos líderes da organização. O mote tinha sido, pela primeira vez pronunciado pelo Padre Henri Didon na cerimónia de distribuição de prémios de uma competição escolar em 1891. Didon, ao tempo, era diretor do Colégio de Arcueil localizado perto de Paris. A frase teve tal sucesso que o Padre a mandou bordar na bandeira do colégio. Depois, por iniciativa de Coubertin, que a propôs aquando da criação do COI, o MO encarregou-se de a divulgar por todo o mundo, muito embora só tenha sido verdadeiramente assumida pelo COI em 1924 nos JO de Paris, precisamente um ano antes de Coubertin abandonar a presidência da organização. Hoje representa uma das ideias de maior sucesso à escala do Planeta desenvolvidas em finais do século XIX.

11. 1888: Três Protagonistas para um Fim de Século Conturbado

Em finais do século XIX, matéria de educação física e de desporto na Europa, pontuavam em França Paschal Grousset (1844-1909) um homem da Comuna de Paris, Philipe Tissié (1852-1935) um médico “suecofílico” e Pierre de Coubertin (1863-1937) um aristocrata interessado na dimensão política das questões da pedagogia.

Em junho de 1888 Coubertin fundou o “Comité pour la Propagation des Exercises Physiques”. Imediatamente depois, Paschal Grousset fundou a “Ligue Nationale de l'Éducation Physique” e Philipe Tissié, também em outubro do mesmo ano, fundou a “Ligue Girondine d'Éducation Physique”. A partir de então estes três homens envolveram-se numa disputa acerbada a fim de determinarem quem havia de ter a primazia ideológica sobre a organização das atividades físicas em França.[28] Estes homens, em grande medida, pelas diferentes perspetivas ideológicas de cada um, mas também devido aos interesses pessoais que conflituavam entre si, deram início a uma guerra surda que, para além deles, se havia de prolongar por todo o século XX e até entrar no século XXI porque, ainda hoje, está por resolver. Repare-se que Coubertin não fundou um comité de educação física mas de atividade física enquanto os seus dois opositores fundaram ligas de educação física. Ora, isto sugere que Coubertin já tinha a ideia de estabelecer uma rutura com os modelos que vinham do passado muito antes de em 1892 quando anunciou a intenção de fazer renascer os Jogos Olímpicos da antiguidade e em 1894  fundação , proceder efetivamente à fundação do “Comité International des Jeux Olympiques”.

Se quisermos apurar o momento e o local em que se desencadeou por todo o mundo a “guerra” entre a educação física e o desporto foi, sem dúvida, naquele ano em França e com aquelas três figuras que, sobre a competição, tinham posições radicalmente diferentes. Em conformidade, cada um deles criou a sua própria organização. A personalidade, o percurso de vida e os interesses de cada um deles era completamente diferentes e as diferenças ficaram definitivamente marcadas ao escolherem, cada um deles, o seu próprio caminho.

Se a rutura com Paschal Grousset foi imediata e breve e a rutura com Philippe Tissié acabou por ser penosa e demorada pelo que só se viria a consumar no Congresso do Havre (o segundo Congresso Olímpico) em 1897.[29] Vejamos as características de cada um dos três protagonistas em presença.

11. A. Paschal Grousset

Sobre Paschal Grousset, o mais velho dos três, os dados biográficos são escassos e dispersos o que nos leva a perceber porque é que esta figura, de fundamental importância para a institucionalização do desporto e da educação física de finais do século XIX e século XX, não faz parte dos manuais mais tradicionais da história do desporto. Por exemplo, Grousset é um nome quase ausente da literatura desportiva francesa, entre ela a obra clássica de Jacques Ulmann intitulada “De la Gymnastique aux Sports Modernes”, cuja primeira edição saiu em 1965. Se se fizer uma pesquisa bibliográfica as referências a Grousset encontradas são passageiras e breves. Existe um trabalho de Eugen Weber intitulado “Coubertin et le Sport en France” publicado nos nºs 34, 35 e 36 da “Revue Olympique datada respetivamente de julho/agosto e setembro de 1970.[30] Recentemente, surgiram nos escaparates franceses duas biografias de Paschal Grousset. A primeira, da autoria de Pierre-Alban Lebecq (1997) intitulada “Paschal Grousset et la Ligue Nationale de l'Éducation Physique” etditada em 1997. A segunda, da responsabilidade de Noël, foi editada em 2010 no centenário da sua morte sob o título  “Paschal Grousset, de la Commune de Paris à la Chambre des Députés, de Jules Verne à l'Olympisme”. Tratam-se de obras académicas, tentativas empenhadas para restabelecer a memória da ação política e desportiva de Grousset que, independentemente de se estar de acordo ou não com as suas ideias, caiu injustamente no esquecimento. Na realidade, nem aqueles que continuaram o desenvolvimento da educação física no século XX se dignaram prestar-lhe uma justa homenagem. Georges Hébert (1875-1957), Raoul Fournié (1885-1953), Pierre Seurin (1913-1983), Jean Le Boulch (1924-2001), e, a partir dos anos sessenta, toda a designada “nova esquerda” que tendo como chefe de fila Jean-Marie Brohm, não prestaram a mínima atenção ao combate e à obra de Grousset quando se sabe que a ele se ficou a dever toda uma lógica de desenvolvimento da educação física através dos jogos populares e das “manifestações atléticas” escolares que davam pelo nome de “Lendit”.[31] Em 1889, contra a perspetiva de Coubertin que acusava de anglófilo, organizou em Paris o primeiro “Lendit”, hoje considerado como o arranque do desporto escolar e universitário em França, tendo para o efeito fundado no bosque de Bolonha a “École Normale des Jeux Scolaires”. Mas a grande injustiça a Grousset fez-se quando, a partir dos anos sessenta, os arautos da nova esquerda francesa que institucionalizaram o “desporto não competitivo” se esqueceram de referenciar que o pai de tal ideia, ainda que absurda, tinha sido Paschal Grousset. Ele era, sem sombra de dúvida, um homem que se situava no coração na extrema-esquerda do espetro político. Tinha participado ativamente na Comuna de Paris. Trinta e três anos mais tarde, quando em 1893 pela força do voto dos ciclistas que se mobilizaram para o efeito[32] foi eleito pelo 12º círculo de Paris para a Câmara, mantinha as mesmas convicções revolucionárias. Então, logo no início da campanha eleitoral avisou os seus eventuais eleitores através de um jornal que ele próprio editava e que tinha o significativo nome de “La Bouche de Fer”[33]: “Sou republicano, radical, patriota, socialista. Não concebo a República sem organização pacífica das forças produtivas do país e sem a orientação sistemática da legislatura pelo interesse do maior número. Se me enviarem para a Câmara sentar-me-ei na extrema-esquerda …” (Lebecq, 1997:227). Grousset, nos anos sessenta, tinha abandonado a formação em medicina tornando-se jornalista e escritor de profissão. Em 1869, começou a trabalhar como jornalista no jornal “La Marseillaise” onde escrevia artigos revolucionários. Participou ativamente na Comuna de Paris, na qual exerceu funções no âmbito das relações exteriores. Em 1872, depois da queda da Comuna, foi preso, julgado e deportado em 1872 para a Nova Caledónia, de onde acabou por fugir para a Austrália em março de 1874. Depois, viveu em S. Francisco, Nova York e Londres. Em Londres, exerceu a profissão de jornalista, editou vários Jornais e escreveu várias obras sob os pseudónimos de André Laury e de Philippe Daryl, na medida em que o seu nome, em França, estava completamente “queimado”. Em 1880, ao abrigo da amnistia decretada regressou a Paris. O posicionamento político de Grousset levou-o a envolver-se nas questões da educação e, em consequência, nos da educação física. Então, sob o pseudónimo de Philippe Daryl, a partir da experiência da vida que levara em Inglaterra, escreveu “La Vie de College en Angleterre” e um conjunto de artigos no jornal “Le Temps”, sobre atividades físicas de natureza. Os artigos em causa, obtiveram um significativo eco na sociedade francesa. Neles, Grousset manifestava-se contra a “anglomania”, fazia apelo ao amor pátrio e propunha um sistema de educação física baseado nas atividades de natureza, a partir dos jogos tradicionais franceses. Foi também professor, tendo lecionado fisiologia e física. Escreveu romances, obras históricas e de ficção científica, tendo chegado a colaborar com Júlio Verne. Ele foi o responsável pela publicação da primeira enciclopédia de desporto, que surgiu nos escaparates em quatro obras: A equitação moderna (1892); A velocipedia para todos (1893); Jogos de bola (1894); O desporto do Remo (1895). Em 1893, foi eleito deputado socialista, função que exerceu com entusiasmo e até coragem ao afrontar na Câmara o General Gallifet, responsável pelos fuzilamentos depois da queda da Comuna. Tendo vivido vários anos em Inglaterra, por motivos de mera justiça social, tinha do desporto uma perspetiva não competitiva. Ele considerava o desporto inglês elitista, pelo que ensaiava encontrar modelos alternativos, através de uma espécie de “exercícios físicos recreativos” que, realmente, estivessem ao serviço do povo e da grande maioria das pessoas. Em termos gerais, aceitava a prática desportiva como higiene de vida, contudo, em nome de um ideal de fraternidade e educação popular, rejeitava a competição desportiva, que considerava política e moralmente nefasta. No entanto, num artigo de 3 de outubro de 1888 escrevia: “Les jeux olympiques, le mot est dit: il faudrait avoir les nôtres”.[34] Tal facto, pode não ser tão contraditório como à primeira vista parece ser se considerar que, ao tempo, o conceito de desporto ainda era bem difuso e a ideia de JO não era a mesma que hoje temos, nem a ideia de JO de Grousset seria certamente semelhante à de Coubertin e dos seus correligionários, a quem acusava de “Anglomances du Sport”.[35] De resto, Grousset, em 1890, sob o pseudónimo de Philippe Darly, num artigo publicado no “Le Temps” de 28 de janeiro daquele ano, escreveu:

Le sport est synonime de spécialisation physique, d’entraînement intensif, de recherche de l´excès, de perfection technique, de progrès tactique constant. Or, il n’est point de question, en France, de faire des spécialistes, ni de transformer nos enfants en ‘virtuosos’ de la requette ou du ballon.  La réforme de l'éducation physique n'a pour but que de remplir leurs poumons d'air pur, de faire s'exercer tous leurs muscles, de leur faire acquérir des qualités morales que seul le jeu peut donner. Et ce résultat sera bien plus sûrement atteint par la variété des exercices que par la concentration des efforts sur un seul. Le plus sage est d'être éclectique. Peu importe alors l'origine des exercices, sports anglais ou jeux traditionnels français, le système repose sur la variété, sur la capacité d'un exercice à compléter (ou à corriger) les effets physiologiques et moraux d'un autre; elle s'oppose à l'esprit sportif de l'éducation anglaise que voudrait implanter P. de Coubertin, en France, dans l'éducation secondaire.[36]

Apesar de condenar a competição e o modelo competitivo de Coubertin, Grousset tinha uma personalidade bem competitiva da vida. Antes da Comuna, sentindo-se difamado por um artigo assinado por Pierre-Napoléon Bonaparte, primo de Napoléon III, Grousset enviou-lhe imediatamente emissários no sentido de lhe exigir uma reparação pelas armas. O problema é que um dos emissários, o jornalista Victor Noir, acabou assassinado. Grousset foi condenado e passou seis meses na prisão. Era uma pessoa combativa, com uma habilidade especial de convencer os outros. Embora a perspetiva de Grousset tenha acabado vencida pela perspetiva desportiva de Coubertin, o que é facto é que vinda da esquerda com origens na Comuna, acabou por influenciar toda uma visão esquerdista do fenómeno desportivo. Esta visão contaminou, em primeiro lugar, o desporto na União Soviética que só abandonou o “desporto não competitivo” quando aderiu ao COI em 1951 e, depois, a prática desportiva na República Popular da China (RPC) desenvolveu um modelo desportivo fundamentado na abolição da competição, que durou até aos anos setenta, altura em que o País, através da “diplomacia do ping-pong”, começou a preparar o seu regresso à Organização das Nações Unidas (ONU) e ao COI, o que aconteceu respetivamente em 1971 e em 1979. Porque durante muitos anos a Comuna  e o que ela significava provocou um medo terrível nas elites francesas, talvez por isso,  Grousset, numa espécie de “conspiração de silêncio”, como referiu Targat, tenha sido remetido ao esquecimento.

11.B. Philippe Tissié

Tissié dizia-se independente, muito embora as suas posições relativamente ao desporto e à competição fossem de alguma maneira perto das defendidas por Grousset. De resto, o Congresso Nacional de Educação Física foi organizado em 1893 em Bordeux pela Liga Girondina por lhe ter sido delegada essa incumbência pela Liga Nacional de Educação Física de Paschal Grousset. Tissié era médico e um entusiasta praticante de ciclismo e de ginástica. Porque acreditava profundamente no regionalismo que dizia ser um fermento dinâmico, fundou em 19 de dezembro de 1888, em Bordéus, a “Liga Girondina de Educação Física” que tinha como objetivo “obter das câmaras os recursos a afetar à população escolar terrenos destinados aos jogos e exercícios públicos bem como o material necessário”.[37] As suas ideias, na linha de Grousset, também se enquadravam numa perspetiva de esquerda na medida em que, para além da dimensão higiénica que preconizavam, opunham-se à ideia de competição e, em consequência, à ideia de desporto defendida por Coubertin no Comité para a Propaganda dos Exercícios Físicos.

Portugal também foi vítima da perspetiva “suecofílica” de Tissié. Não diretamente mas indiretamente na medida em que ele foi o inspirador dos programas de educação física de 1932 (Decreto nº 21:109) que proibiram a prática de desportos anglo-saxónicos nos estabelecimentos de ensino oficial. Mas os verdadeiros problemas já vinham do tempo da Sociedade Promotora da Educação Física Nacional que ao abandonar os atletas portugueses que desejavam participar nos Jogos Olímpicos de Estocolmo levou a que um conjunto de prosélitos do desporto, a 30 de Abril de 1012, tivesse fundado o Comité Olímpico Português. A situação prolongou-se por todo o século passado e, agora,  neste século com efeitos devastadores devido às lógicas comerciais da nova economia global está perante a passividade dos responsáveis a destruir através de programas de educação física desajustados a prática da atividade física e o ensino do desporto no sistema educativo.

11.C. Pierre de Coubertin

Pierre de Coubertin opunha-se à vulgaridade da educação física igualitária e estandardizada defendida por Grousset. Na realidade, o Comité de Coubertin, liberal e individualista, era fundamentalmente composto por monárquicos, conservadores e eclesiásticos, portanto, apresentava uma composição de direita, enquanto a Liga de Grousset igualitária e coletivista apresentava uma sensibilidade de esquerda. A inimizade de Coubertin para com Grousset, à semelhança com o que se passava em grande parte da sociedade francesa ainda lembrada dos tempos da Comuna, era enorme e definitiva. Em 1899, a propósito de um conjunto de artigos em que Grousset criticava o Comité de Coubertin este publicou um artigo em que criticava a “Ligue Nationale de l'Éducation Physique” de Grousset. Dizia Coubertin:

A la suite d'une série d'articles publiés dans les colonnes du Temps, par M. Philippe Daryl (Paschal Grousset), cette Ligue a surgi soudain comme une apothéose de féerie, on la préparait dans le sous-sol, on la groupait, on l'ornait, on lui donnait le dernier coup de fion ; puis la trappe a glissé et l'immense machine s'est élevée glorieusement avec son vaste programme et son nombreux personnel de membres honoraires et de membres actifs, députés, acteurs, journalistes, et sapeurs-pompiers ! (T1, p.111)

E Coubertin insistia nas contradições da Liga de Grousset:

La Ligue se propose d'introduire les exercices physiques à la fois dans tous les ordres d'enseignement, dans les écoles primaires, dans les lycées, dans les collèges communaux ... partout. (…) elle organise une agitation en faveur de ces exercices, elle tend à créer des commissions locales, elle se démène, elle part en guerre, elle a des réminiscences des Jeux Olympiques et des visions de solennités… (…) Et puis en même temps on parle de la défense militaire…

Grousset, nos tempos que antecederam a Comuna, pelos seus escritos provocadores, angariou muitas inimizades que teve de suportar já depois de regressar do degredo em 1880. Como se pode verificar numa carta datada de 4 abril 1890 endereçada a Tissié por Coubertin, este nutria por Grousset um enorme desprezo: "Monsieur Paschal Grousset qui est un homme que je méprise et avec lequel je ne veux point avoir de rapports”.[38] A  “Ligue Nationale de l'Éducation Physique” de Grousset, nas palavras de Jean Durri, era uma “machine de guerre” contra o “Comité pour la Propagation des Exercises Physiques” de Coubertin.

Contudo, Coubertin via mais longe e primeiro que os seus contemporâneos. Por isso, como referimos, em 29 de novembro de 1890 promoveu a união entre o “Comité pour la Propagation des Exercises Physiques” por si fundado em 1 de junho de 1888 com a Union des Sociétés Françaises de Course a Pied fundada por Georges de Saint-Clair em 20 novembro de 1887 a fim de fundar uma nova organização a “Union des Sociétés Françaises de Sports Athlétiques” (USFSA) que, com um estatuto de superestrutura do desporto francês, se expandiu por toda a França. Em 1900 a USFSA encarregou-se de organizar diversas competições respeitantes aos JO de Paris (1900).

 11.C1. Carta de Coubertin para Tissié

Segundo Jean Durry[39], Coubertin, numa estratégia de envolvimento, dizemos nós, a 15 de janeiro de 1890 em carta dirigida a Tissié informa-o de que, naquela mesma manhã, na sessão realizada na Sorbonne, tinha sido eleito membro do “Comité pour la Propagation des Exercises Physiques”. E mais dizia que esperava que Tissié aceitasse tal título que permitiria uma união de esforços sem que existissem confusões entre a ação realizada em Bordéus, pela “Liga Girondina…” e, em Paris, pelo “Comité de Propagation…”.[40] E Tissié respondeu que aceitava mas, simultaneamente, pediu esclarecimentos acerca das finalidades do “Comité pour la Propagation des Exercises Physiques”. Depois, numa carta de 4 de abril de 1890, Tissié convida Coubertin a deslocar-se a Bordéus, a fim de assistir ao “Primeiro Lendit Officiel de Bordeaux” que se realizaria a 11 e 12 de maio. E foi a partir deste convite que Coubertin levantou a questão pessoal que tinha com Grousset:

Je voudrais aussi être éclairé sur vos relations avec la Ligue Nationale de l'Éducation Physique. [...] Nous nous abstenons de rien faire qui puisse nuire au succès d'une oeuvre commune; mais le manque d'égards des fondateurs de la Ligue vis à vis du Comité qui existait avant eux a été assez vivement ressenti par Monsieur Jules Simon et ses collègues; et si le Lendit de Bordeaux devait être présidé par Monsieur Paschal Grousset qui est un homme que je méprise et avec lequel je ne veux point avoir de rapports, je m'abstiendrais certainement d'y paraître tout en faisant les voeux les plus sincères pour votre succès. [41]

Coubertin acabou por se deslocar a Bordéus onde teve a oportunidade de conhecer pessoalmente Tissié. Segundo o próprio apreciou a visita  bem como toda a organização dos jogos escolares. Todavia, em 1892, as relações entre ambos aqueceram significativamente. Coubertin desejava federar, na  “Union des Sociétés Françaises de Sports Athlétiques” de que era Secretário-geral, as diversas organizações desportivas do país. Ora, tal facto era contra a perspetiva de Tissié que, numa atitude “egoprovinciana” desejava, a todo o custo, manter a independência da Liga Girondina. Esta pretensão tê-lo-á feito proferir alguns comentários que chegaram aos ouvidos de Coubertin. Em consequência, numa carta de 15 de maio dirigida a Tissié, Coubertin perguntava logo no início:

Je viens, comme certains personnages de l'Antiquité, vous demander si c'est la paix ou la guerre que vous voulez entre nous.[42]

E a carta concluía: Sommes-nous amis ou ennemis? C'est à vous de le dire.”[43] Depois, a 17 de maio, Tissié respondeu de acordo com a norma do costume em tais circunstâncias. Queria saber: “1º Ce qu'on vous a rapporté ; 2° Le nom de la personne qui vous a fait le rapport ; 3° Le nom des témoins qui ont entendu ce que j'ai dit.” E terminava: “ Quand je saurai cela je vous répondrai.”[44] 

Esta carta de Tissié incomodou ainda mais Coubertin. Tratava-se de questões de competência das diversas organizações pelo que, em carta de papel timbrado da “'Union des Sociétés Françaises de Sports Athlétiques”, de 27 de julho, Coubertin, na qualidade de Secretário-geral, acusou Tissié de alterar discricionariamente os regulamentos, de ser mais higienista do que desportista e, finalmente, de nada saber de pedagogia. Coubertin assinou a carta simplesmente com um PC.

O problema é que as relações entre ambos, devido às tricas no mundo do desporto se iam agravando. Em 24 de outubro de 1892 Coubertin, de passagem por Bordéus, encontrou-se com Tissié. Acerca do encontro Tissié, para memória futura, escreveu:

C'est dans un état d'esprit voisin de la méfiance que nous nous sommes tendus la main.”[45] 

Mas um aspeto ainda mais estranho foi a nota que Tissié deixou escrita pelo seu próprio punho:

…de Coubertin est contre les lendits, les concours, les réunions des élèves. L'Union ne veut qu'exercer platoniquement les élèves aux jeux dans les écoles sans leur permettre de concourir devant un public. La Ligue estime qu'un lendit est un concours général du muscle et que l'émulation ne peut exister sans concours.[46]

Ora, aqui estamos aparentemente perante uma contradição aparente na medida em que é Tissié a defender a competição e Coubertin, enquanto secretário da Union dés Societés Francaises des Sporta Athlétiques (USFSA), a condená-la! Este incidente significa que dos nossos três protagonistas, entre a saúde e o ar livre; a pátria e o melhoramento da raça; o desporto e a competição organizada, só Coubertin sabia perfeitamente o que estava em jogo. Ele desejava institucionalizar um desporto sério, do rendimento, da medida, do record e do espetáculo, quer dizer, da competição a sério, e não um desporto no domínio do lazer, animado por uma competição mais ou menos recreativa que era praticada nos “lendits” defendidos e promovidos por Tissié e Grousset. Note-se que, como refere Thibault (1968:8), ao tempo, “o conceito de desporto ainda era pouco claro”. Grousset, numa perspetiva chauvinista, queria desenvolver em ambiente escolar um sistema a partir dos jogos tradicionais franceses praticados em plena natureza e promovidos através dos grandes encontros dos “lendits”. Tissié estava interessado numa “verdadeira educação física de base” pelo que considerava a educação física como:

…le pivot de l’education intellectuelle e morale, par des associations des idées entre la pensée et le mouvement et, vice versa, entre le mouvement et la pensée.”[47]

Pelo seu lado, Coubertin desejava provocar um real corte epistemológico ao pretender institucionalizar uma organização de nível internacional que, à semelhança dos gregos antigos, de quatro em quatro anos, numa dinâmica internacionalista, organizasse um grande festival desportivo. O que aconteceu foi que, Coubertin, em princípios dos anos oitenta do século XIX, percebeu que era necessário ultrapassar os modelos ginásticos que, de características mais ou menos higiénicas de combate à tuberculose ou militarizadas de confrontação belicista, visavam a supremacia de determinadas raças sobre as demais. Esta perspetiva, infelizmente, acabou na carnificina da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Pelo contrário, Coubertin, através da institucionalização de uma competição organizada à escala mundial, pretendia levar para os campos de jogos as querelas que, até então, se consumavam nos campos de batalha. Num texto publicado na “La Revue Athlétique” nº 12 de 25 de dezembro de 1812 Coubertin perguntava:

Amélioration personnelle ou amélioration collective ? Va-t-il s'agir de l'individu ou de la race ? Telle est la question que l'évolution actuelle des institutions politiques a posée et dont je suppose que beaucoup de gens n'arrivent pas encore à réaliser l'importance. Je veux en terminant en dire quelques mots: Si l'on me demandait ce qu'il faut aujourd'hui pour faire une belle race sportive, je répondrais : moins de nerfs et plus de culture cérébrale ; et comme ambiance du calme et de la proportion. C'est là ce que j'ai voulu signifier lorsque j'ai cherché à définir en le créant, l'Olympisme moderne. [48]  

Portanto, Coubertin tinha da ideia olímpica uma visão coletiva conduzida mais pela força do espírito e das ideias do que pela força dos músculos, na medida em que, para ele, o desporto era um instrumento de promoção da paz.

 11.C2. Carta de Tissié para Coubertin

Mas os trabalhos em que Coubertin se meteu não eram fáceis. Se relativamente a Grousset a rutura não tinha conciliação possível no que diz respeito a Tissié as coisas também não iam lá muito bem. E como não iam muito bem, a 7 junho de 1894, Tissié escreveu uma carta a Coubertin informando-o de que a Liga Girondina de Educação Física não se faria representar no Congresso da “Union des Sports Athlétiques”, reunião onde seria fundado o COI. E Tissié explicava que: "...les questions d'amateurs et de professionnels ainsi que le rétablissement des Jeux Olympiques n'intéressent pas directement la Ligue girondine qui ne s'occupe que des jeunes gens ou des enfants en cours de scolarité.”[49] Esta desistência de Tissié foi uma autêntica “Benção dos Céus” para Coubertin na medida em como ele próprio havia de ver em 1897 no Congresso do Havre a presença de Tissié só podia servir para complicar.                   

Em 1896, realizaram-se em Atenas os primeiros JO da era moderna que decorreram com um enorme êxito. Provavelmente, por isso, Coubertin que então se encontrava numa posição confortável “passou uma esponja sobre o passado” e escreveu uma carta bem amistosa a Tissié convidando-o para o Congresso do Havre[50], que se realizaria em 1897. Diz a carta:

Mon cher Ami, Je vous communique le programme du Congrès du Havre et viens vous dire mon vif désir de vous y voir participer. (…) A vous de voir. Pierre de Coubertin.[51]

O problema foi que em vésperas do Congresso Olímpico o jornal local “Petite Havre” publicou uma notícia em que informava os seus leitores que Tissié tinha sido encarregue pelo Governo de presidir ao Congresso. Ora, o representante do Ministro da Instrução Pública não tinha qualquer direito para presidir a um Congresso de uma organização privada. E Coubertin, a 23 de julho de 1897, escreveu uma carta a Tissié a esclarecer a situação relativamente à presidência do Congresso. E pedia a Tissié para acabar com a ilusão de que ia presidir ao Congresso, porque a referida notícia não podia ter tido origem num erro do jornalista mas num erro da parte do próprio Tissié. Depois, na referida carta, Coubertin explicava que era ele o único presidente do Congresso. E informava Tissié que podia proferir algumas palavras ao Congresso mas que “em caso algum” admitiria um “discurso ministerial” que alongaria muito a sessão e lhe daria um caráter oficial.[52] Claro que Tissié “não estava pelos ajustes” propostos por Coubertin pelo que, contrariando o pedido, realizou um discurso longo onde aproveitou para situar os objetivos do Congresso, quais os trabalhos a desenvolver e as bases sólidas de uma revolução pacífica na educação física. Depois, pôs em destaque os aspetos psíquicos e fisiológicos da educação física e definiu o papel da escola. Finalmente, acabou o seu discurso fazendo a divulgação da ação da “Liga Girondina…” de que ele era presidente. Depois, ainda teve uma intervenção muito ativa no Congresso ao ponto de se envolver numa disputa com o Padre Didon[53] e realizar uma demonstração com um grupo de alunos de um conjunto de exercícios inspirados na ginástica sueca.[54] E, perante a incapacidade por motivos de doença de Coubertin, ainda tirou partido do Congresso sendo ele a redigir as conclusões da comissão de higiene e pedagogia. Em consequência, as questões relativas ao desporto e à organização dos JO, por ausência de Coubertin, foram iludidas. Mas nem tudo foi negativo na medida em que como refere Jean Durry, embora tenha havido quem não tivesse ficado nada satisfeito o que é facto é que Coubertin ficou com as “mãos livres” e a  possibilidade de agir como muito bem entendesse. E Coubertin, na sua diplomacia de envolvimento, não perdeu tempo para agradecer a Tissié. Em conformidade a 3 de agosto escreveu-lhe uma carta em que lhe dizia:

Mon cher Ami, Permettez-moi à l'issue du Congrès Olympique, de vous envoyer avec les remerciements de mes Collègues, membres du Comité International ou [?] Commissaires du Congrès, l'expression de ma reconnaissance personnelle pour votre si précieux concours. (…) Croyez moi toujours, cher ami de tout coeur à vous Pierre de Coubertin.[55]

Contudo, a verdadeira resposta a Tissié  havia de surgir posteriormente pelo que “o grande manipulador” do Congresso do Havre não deixou de ouvir aquilo que merecia ouvir. Através de uma carta de 28 de setembro, em papel da USFSA, assinada por Ernest Callot membro do “Comité Internacional dos Jogos Olímpicos”, que na ausência por doença de Coubertin, tinha assegurado a sessão de encerramento do Congresso do Havre, Tissié acabou por ler aquilo que, muito certamente, Coubertin tinha para lhe dizer:

J'ignore ce que vous avez écrit dans les journaux de Bordeaux, mais d'après ce qu'on m'a dit ou écrit, je me figure que vous avez, avec votre imagination méridionale, un peu grossi les choses et envenimé une vieille querelle, dans laquelle les Jeux Olympiques se trouvent aujourd'hui englobés. [...] Tout cela rendra nos rapports bien difficiles avec les gouvernants de la gymnastique. Avec Coubertin, quand il sera revenu, je compte examiner ce que nous devrons faire pour calmer des susceptibilités que vous avez enflammées, sans que le Congrès Olympique ait rien fait pour amener cette levée de boucliers. Vous Seul devez être rendu responsable de la campagne que vous menez contre l'Union présidée avec tant de dévouement par Cazalet [etc...] Je ne vous en serre pas moins cordialement la main.[56]

Claro que Tissié tirou enorme partido do Congresso do Havre pelos conhecimentos que angariou, as posições pessoais que defendeu, bem com a visibilidade que obteve junto das autoridades governamentais. Em consequência do protagonismo conseguido, em 1898, Tissié foi enviado para a Suécia pelo Ministério de Instrução Pública, a fim de se informar sobre o sistema sueco, acabando por se transformar num dos seus maiores prosélitos pelo que, em 1901, em resultado da sua estada na Suécia, Tissié, com a colaboração de vários acólitos, escreveu o livro “L’Education Physique au Point de Vue Historique, Scientifique, Technique, Critique, Pratique & Esthétique” onde, de uma forma implícita, assume uma rutura com o mundo do desporto. O livro, dedicado ao Rei Oscar II da Suécia e da Noruega, desenvolve todo um conjunto de problemáticas: os métodos de ginástica nos diversos países; a fisiologia do movimento; a organização dos movimentos; a atenção voluntária; a fadiga do treino físico; as doenças da alimentação; a educação física na escola e no serviço militar. Algumas modalidades desportivas são tratadas simplesmente como meios da educação física. Depois, em 1919, Tissié, numa edição da Flammarion, ainda publicou “L' Éducation Physique et la Race: Santé, Travail, Longévité”.

Terminado o Congresso Olímpico do Havre de 1897, como referiu Jean Durry, cada um dos protagonistas seguiu a sua trajetória. Coubertin ainda endereçou algumas missivas a Tissié, contudo, os dados estavam lançados e a primeira separação entre a educação física e do desporto consumada.

12. Os Grandes Objetivos do 1º Congresso Olímpico

Na primeira edição do “Bulletin du Comité International des Jeux Olympiques” podemos verificar que o Congresso Olímpico realizado na Sorbonne de 16 a 23 de junho de 1894 que instituiu o COI e a organização dos Jogos Olímpicos da era moderna, foi convocado com os seguintes objetivos:

  1. Conservar o caráter nobre e cavalheiresco do desporto;
  2. Lutar contra o profissionalismo que ameaçava os amadores;
  3. Instituir as lutas pacíficas e corteses consideradas o melhor dos internacionalismos.

Repare-se que subjacente a estes três grandes objetivos estava o espírito nobre e leal que devia presidir à competição formal que Coubertin desejava institucionalizar. Vejamos cada um deles.

12.A. Conservar o Caráter Nobre e Cavalheiresco do Desporto

Quanto à necessidade de conservar o caráter nobre e cavalheiresco do desporto, na sua ideia inicial, o Olimpismo visava promover uma cultura de competição nobre e leal que decorria da máxima: “citius, fortius, altius”, idealizada por Henri Didon (1840-1900) companheiro inicial da aventura olímpica desencadeada por Pierre de Coubertin em finais do século XIX e que hoje com uma seriação diferente “citius, altius, fortius” é a máxima do COI.

12.B. Lutar Contra o Profissionalismo  

Coubertin, quanto aos profissionais, como refere Norbert Müller[57], sempre atribuiu muito menos importância do que aquela que geralmente se pensa relativamente ao amadorismo. A questão que se punha, claro que para além dos aspetos de descriminação social, era a justiça da competição desportiva, pelo que nas primeiras edições dos JO aconteceram competições para amadores e para profissionais. Entretanto, é bom que se entenda que a luta contra o profissionalismo sempre foi uma questão mal resolvida no mundo do Movimento Olímpico até que nos Jogos Olímpicos de Barcelona (1992) a questão foi totalmente ultrapassada com a admissão de atletas com um estatuto profissional.

12.C. Instituir Lutas Pacíficas e Corteses

Quanto à institucionalização dos Jogos Olímpicos enquanto “lutas pacíficas”, a ideia mal compreendida pela generalidade dos congressistas visava estabelecer um corte epistemológico com a educação física e as atividades físicas de caráter higiénico e recreativo.

13. Institucionalização do Movimento Olímpico Moderno

O Movimento Olímpico moderno foi anunciado por Pierre de Coubertin em 1892 e desencadeado no Primeiro Congresso Olímpico realizado em 1894, é uma superstrutura ideológica que, no quadro do mundo moderno, à escala mundial, gere a dinâmica da competição organizada num grande festival realizado todos os quatro anos. Assim sendo, o COI é a superstrutura burocrática que tem por vocação defender os valores de uma ética relacionados com a dialética da competição naquilo que ela tem de melhor (gestão positiva) e de pior (gestão negativa) para o processo de desenvolvimento humano. Hoje, o Olimpismo é uma realidade antropohistórica com milhares de anos e o COI é o fiel depositário de um dos patrimónios mais preciosos da humanidade: o gosto pela competição justa, nobre e leal.

O seu atual posicionamento no quadro da ONU é a instituição mais capaz de promover junto a população mundial uma estratégia de educação e cultura, com vista a desenvolver os valores da competição que se projetem de uma forma justa e positiva na sociedade.

13.A. Da Religião à Transcendência Competitiva

A busca da transcendência pela competição, é a grande vocação da missão do MO moderno que o COI deve transmitir para a sociedade e preservar para as novas gerações, através do ensino e da gestão, uma cultura competitiva nobre, justa e leal que se expressa nos grandes festivais olímpicos realizados de quatro em quatro anos. Coubertin demonstrava este sentimento ecuménico quando dizia que o Olimpismo era uma religião. Para ele o Olimpismo era uma superstrutura, religiosa (Coubertin, 1996:102) com;

  • Uma doutrina;
  • Dogmas (os princípios e os valores do Olimpismo);
  • Um culto, o da competição em busca da excelência;
  • Uma igreja o COI, desde 1913 com sede em Lausana;

Quer dizer, com processos de aculturação de geração em geração que, hoje, nas mais diversas culturas, se expressa no respeito pelos princípios, valores e normas institucionalizadas que, para além do género, da raça, do credo ou da classe social, se desmultiplicam em inúmeras atividades de caráter desportivo nos mais recônditos pontos do Planeta envolvendo, todos os dias, muitos milhões de pessoas.

Assim sendo, o Olimpismo enquanto jogo, é luta, é competição e é estratégia que visa a busca da excelência, quer dizer, da “areté” dos gregos antigos. A busca da excelência dos resultados, desde os terrenos de jogo, até à eficiência da sua estrutura organizacional que, de dois em dois anos, se projeta na sociedade a uma escala global através da realização dos Jogos da Olimpíada e dos JO de Inverno. Em cada edição dos Jogos da Olimpíada, participam mais de duzentos países, dez mil atletas, milhares de técnicos e dirigentes, para além de, diretamente, centenas de milhares de espetadores e, indiretamente, através da comunicação social, centenas de milhões.

13.B. Os Suecofílicos

O combate seguinte de Coubertin já estava em marcha. Era a organização dos JO de Paris. O combate seguinte de Tissié era o do sistema sueco. Esta via natural de Tissié parece não ter surpreendido Coubertin. Na realidade, quando em 1907 Coubertin escreveu o livro intitulado “Une Campagne de Vingt-et-un ans (1887-1908)”, a propósito dos jogos escolares de Bordeaux escreveu: “je me suis souvent disputé avec Tissié dont les idées par trop suédophiles ne cadraient pas avec les miennes…”.[58] A questão dos “suecofílicos” havia de continuar a perturbar o natural desenvolvimento do MO. No Congresso Internacional de Desporto e Educação Física que Coubertin organizou em Bruxelas em 1905, no meio das disputas entre os “suecofílicos” e os “suecofóbicos”, teve a oportunidade de esclarecer que:

Ce n'est pas seulement entre tel et tel systéme de gymnastique, mais entre toute forme de gymnastique et les jeux libres que persiste un malentendu courroucé, et il préconise un ‘intelligent éclectisme’, et le mariage de la gymnastique et des jeux. S'il est vrai que l'éducation physique est indispensable au sportif, le sport peut apporter à l'éducation physique certains de ses aspects fondamentaux: le naturel, l'adaptation à des situations concrètes, la confrontation. L'idée qui l'avait effleuré en 1891 quand il parlait d'athlétisme utilitaire prend corps peu à peu, et il conçoit dans ses détails une éducation physique sportive qu'il appelle la ‘gymnastique utilitaire’ (Eyquem, 1966:114).

Portanto parece-nos claro que o movimento desencadeado por Coubertin não só ultrapassou o movimento da educação física como estabeleceu com ela uma rutura. Esta rutura aconteceu também em vários países da Europa entre os quais Portugal.[59]

13.C. Jogada Estratégica / Nacional Chauvinismo

O nacional-chauvinismo que percorria a Europa em finais d século XIX princípios do século XX, ao qual os sistemas de educação física, por vocação própria, tinham aderido, foi uma excelente oportunidade para Coubertin provocar uma rutura relativamente à educação física, através da assunção dos verdadeiros valores do desporto que advinham da competição, a qual, em nome da Paz Olímpica, devia ser organizada à escala do Planeta.

E como Coubertin via mais longe e primeiro que os seus contemporâneos não perdeu tempo para promover uma aliança do “Comité pour la Propagation des Exercises Physiques” (também conhecido como Comité Jules Simon) por si fundado em conjunto com Henri Didon e Jules Simon (1814-896) em 1 de junho de 1888, com a “Union des Sociétés Françaises de Course a Pied” fundada por George Saint-Clair a 20 dezembro de 1887 fim de, a 3 de fevereiro de 1890, fundar a “Union des Sociétés Françaises de Sports Athlétiques” (USFSA). Depois, partir de 1890, Jules Simon passou a ser presidente honorário da USFSA; Saint-Clair Presidente em Exercício; e Pierre de Coubertin Secretário-geral. Com esta jogada estratégica Coubertin abriu caminho para a fundação em 1894 do “Comité International des Jeux Olympiques”. [60]

Ao tempo, a generalidade dos Estados procurava garantir o apoio dos seus cidadãos através da exaltação de um sentimento nacionalista alimentado pela criação de mitos nacionais acerca da origem das nações. Em princípio, a educação física era um instrumento para cumprir aquele desiderato. No entanto, a ideia ecuménica de Coubertin ia num sentido completamente diferente pelo que aproveitou para criar uma rutura definitiva com o passado a fim de, conjuntamente, com várias figuras proeminentes de diferentes nacionalidades, avançar para a constituição de uma nova organização, o “Comité International des Jeux Olympiques”. Não porque tenha aderido ao movimento chauvinista que havia de conduzir a Europa à primeira guerra mundial mas precisamente por não aderir porque ele queria fazer transitar para os campos de jogos as disputas dos campos de batalha.[61] Por isso, a primeira designação do Comité Olímpico Internacional foi a de Comité Internacional dos Jogos Olímpicos que, como o próprio nome indica, assumia a uma escala mundial as virtualidades da competição desportiva estandardizada através das regras provenientes das Federações Internacionais que entretanto começaram a surgir.

13.D. A Educação Física Contra o Desporto

A animosidade dos prosélitos da educação física contra o desporto já vinha de longe pelo que a rutura protagonizada por Coubertin constituiu tão só mais um capítulo num processo que ainda hoje não está concluído. Esta questão que ficou conhecida como a “guerra dos métodos”. Contudo, Hébert enganou-se quando intitulou o seu livro de “Le Sport Contre l’Education Physique” porque o que sempre esteve em causa foi a educação física, que se arvorava de uma superioridade moral e intelectual, combater o desporto. E hoje, prossegue nos mais diversos países do mundo pelo que a questão continua por resolver muito embora já seja possível tirarem-se algumas conclusões acerca do quadro ideológico da educação física enquanto macro conceito ultrapassado uma vez que se do ponto de vista corporativo ainda pode ter alguma aceitação do ponto de vista epistemológico e social, nos tempos que correm, não tem qualquer sentido.

A sua origem já vem de finais do século XIX quando, no Congresso Olímpico do Havre realizado em 1897, aconteceu uma rutura praticamente definitiva entre Coubertin e Philipe Tissié (1852-1935) que sobre as atividades desportivas tinham posições diferentes.

13.E. Colonialismo

Nesta perspetiva de pensamento, e de acordo com o espírito da época, os europeus não podiam aceitar que existissem povos fora do modelo. Como refere Eicheberg (1984), não foi por mero acaso que o Olimpismo arrancou na era do colonialismo. E Coubertin, em 1914, num discurso pronunciado na Sorbonne, afirmava:

O desporto é um fator determinante dos empreendimentos coloniais, de tal maneira que um colonizador sem uma vigorosa preparação desportiva constitui uma perigosa imprudência… Enfim meus senhores, o desporto terá a sua tarefa a jogar na política externa … 

Na realidade, a questão do colonialismo estava presente no MO enquanto instrumento de desenvolvimento. Porque o que os europeus pretendiam era aculturar os povos africanos à sua cultura e nada havia de melhor que o próprio desporto para determinar a ordem que desejavam impor. E dizia:

Os povos retirarão a grande lição dos desportistas sabendo que o ódio sem batalha é pouco digno de um homem e que a injúria sem golpe é indigna. 

Era o confronto direto que, depois, os povos africanos souberam também utilizar na construção das suas lutas de libertação e independência. Porque como dizia Coubertin:

O pacifismo desportivo não pretende suprimir os passes de armas, mas simplesmente tornar possível nos intervalos as colaborações fecundas que não são somente indispensáveis ao progresso material, mas respondem ainda à conceção da dignidade viril admitida nas épocas mais cavalheirescas da história.

Este facto ficou também bem expresso no Congresso Olímpico de 1914 quando M. Georges Rouland, delegado do Governo-geral da Argélia, introduziu a questão do “desporto colonizador”.

Muito embora conceituados autores como Tavares (2003) ponham aparentemente a questão pedagógica à frente de todas as preocupações de Coubertin, ao afirmarem que “Pierre de Coubertin atribuía ao esporte um valor educativo e um papel de mimeses das relações em uma sociedade democrática” (p.33), o que é fato é que Tavares também afirma que “a prática esportiva para ele (Coubertin) estava primariamente endereçada a educar os indivíduos através da experiência e por meio destes reformar a sociedade” (p.33). Portanto, as preocupações pedagógicas em Coubertin eram um instrumento a fim de atingir objetivos que iam muito para além da pedagogia. E os povos africanos souberam bem aproveitar essa oportunidade.

Se olharmos para países como Angola e Moçambique vemos antigos grandes atletas ligados aos movimentos de libertação e independência como, entre outros o angolano Rui Mingas ou o moçambicano José Craveirinha.

O discurso de Coubertin tinha uma profunda motivação política pelo que a sua dimensão pedagógica, que não se pode negar, significa, acima de tudo, um instrumento a fim de atingir objetivos políticos de transformação social a partir do desejo de superação individual que está dentro de cada homem.

13.F. Mudança de Paradigma

A originalidade de Coubertin foi ter percebido a necessidade de provocar no mundo das atividades físicas de caráter recreativo uma mudança de paradigma introduzindo-lhes uma dimensão institucionalizada de competição. Desde logo porque ele considerava as lutas pacíficas e corteses “o melhor dos internacionalismos”.[62] Ele percebeu que o futuro não estava nem na educação física nem nos “Lendit”[63] espécie de feiras de atividades físicas recreativas e competitivas organizadas entre outros locais nos estabelecimentos escolares com os quais Coubertin não estava de acordo. Coubertin estava interessado num desporto sério e não recreativo realizado à escala global entre nações que assim, à semelhança dos gregos antigos, podiam transferir para os campos de jogos as disputas que, até então, se travavam nos campos de batalha. Portanto, sua visão rompia com a visão paroquial que, tanto Grousset como Tissié imprimiam às suas organizações. Por isso, no sentido de ultrapassar aquela dimensão paroquial, Coubertin aproveitou a oportunidade surgida com a vaga chauvinista que cruzou a Europa em finais do século XIX princípios do século XX para provocar a rutura com a velha educação física chauvinista, recreativa e contra a competição formal a fim de institucionalizar um modelo de organização competitiva à escala mundial.

13.G. A Ginástica Utilitária

Apesar de tudo, Coubertin sabia que não podia abandonar definitivamente a educação física nas suas mais diversas expressões que aconteciam através de várias escolas de ginástica. Então ensaiou uma manobra de envolvimento com aquilo a que designou de “ginástica utilitária” ou de “atletismo utilitário”, constituído pelas seguintes atividades:  defesa pessoal (ataque e defesa, luta, boxe, florete, espada e pau); salvamento (em terra: saltos, escalada, lançamentos; no mar: natação); e locomoção (marcha, equitação, bicicleta, remo, vela e esqui). E na linha de pensamento da época defendia que só depois destas aprendizagens de base, cada modalidade desportiva, com eficácia e rigor, podia cumprir os:”… mouvements essentiels qui en constituent comme l'alphabet et la clé physiologiques” (Eyquem, 1966:115). Quer dizer, tal como os gregos Coubertin pretendeu organizar os JO através da generalização de atividades a montante a que designou de “ginástica utilitária” onde a competição mais ou menos formalizada fazia parte do jogo.

 13.G1. Pierre de Coubertin Versus George Hébert

Ainda a respeito da “ginástica utilitária”, numa espécie de visão de uma “guerra entre a educação física e o desporto”, Coubertin travou uma disputa com Gorges Hébert, a quem acusou de o ter plagiado, na medida em que Hébert não o citou no seu trabalho “L'Éducation Physique ou L'entraînement Complet par la Méthode Naturelle”. De facto, enquanto a ginástica utilitária de Coubertin datava de 1905, a obra de Hébert era de 1906. Contudo, Hébert limitou-se a responder que em 1906 ignorava completamente a existência de Coubertin. Esta desculpa não pode, de maneira nenhuma, ter satisfeito Coubertin na medida em que ele e o seu trabalho já eram perfeitamente conhecidos não só no meio da educação física como no do desporto pelo que, como refere Marie-Thérèse Eyquem (1966), o facto de Hébert dizer que em 1906 ignorava Coubertin era “não só inexplicável como aflitivo”.

14. A Dinâmica da Competição e Pierre de Cobertin

Da Grécia Antiga até aos nossos dias a visão do corpo sempre ocorreu por motivos políticos, económicos, sociais ou religiosos naturalmente determinados pelas classes detentoras do poder. Em conformidade, ao longo da história da humanidade foram vários os papéis exercidos pelo corpo na sociedade.

A pergunta que se faz é a que procura saber porque é que após os cuidados do corpo, o cultivo dos exercícios físico e a cultura de competição das civilizações gregas e romanas, na idade média os exercícios do corpo foram reduzidos exclusivamente aos torneios e às justas dos cavaleiros feudais?

Não existe consenso relativamente ao término oficial dos Jogos Olímpicos na civilização romana. A primeira hipótese diz-nos que foi em 393 d.C., quando o imperador Teodósio I determinou o fim de todas as práticas e cultos pagãos. A segunda hipótese diz-nos que foi em 426 d.C., ao tempo de Teodósio II quando este mandou destruir os templos gregos.[64] O que é facto é que devido à memória cristã que associava a educação física aos circos romanos em que os cristãos eram sacrificados às feras, aquela passou a ser condenada durante um período de tempo que vai do século VI ao século XIV em que, por motivos de saúde, a lógica da higiene do corpo foi substituída pela higiene da alma por motivos de salvação eterna. Em consequência, as práticas atléticas da antiguidade grega acabaram por desaparecer durante a Idade Média.

Entretanto, a partir de finais do século XIV, com o Renascimento[65], deu-se uma mudança social, económica e política na maneira como as pessoas pensavam e agiam politicamente. Então, o corpo passou a ter um tratamento mais humanista, do que aquele com que tinha sido tratado pela Igreja na Idade Média.

A partir do século XVII, como os novos conhecimentos proporcionados pela ciência, aconteceu uma significativa mudança de paradigma através da construção de uma nova atitude relativamente ao corpo que passou a ser considerado como uma máquina constituída por várias engrenagens que era necessário cuidar. Nesta perspetiva, para Manuel Sérgio, muito embora a expressão educação física tenha nascido, na Idade Moderna, como um dos produtos do dualismo antropológico racionalista, o que é facto é que se deve à “res extensa”, quer dizer, à “substância corpórea” na expressão de René Descartes (1596-1650), o objeto primeiro da educação física. Muito embora Michel Foucault, na “Microfísica do Poder”, nos fale de um livro de 1762 e do seu autor Ballesxert, intitulado “Dissertation sur L’éducation Physique des Enfants”, o que é facto é que é com Descartes e o seu dualismo cartesiano consubstanciado no “ego sum res cogitans” que nasce a educação física.[66] Na realidade, com o advento da idade moderna a expressão de Juvenal viria a surgir novamente numa espécie de galenismo recuperado pela ginástica médica quando, em 1567, Mercurialis (1530-1606) publicou o livro “De Arte Gymnastica” de acordo com os ensinamentos da ginástica de Hipócrates (460-377a.C) e Galeno (129-217). Depois com Descartes (1596-1650), John Locke (1632-1704) entre outros o corpo passou a ser uma simples máquina que funcionava a partir dos seus órgãos, tal como o mecanismo de um relógio. Para eles, a alma conduzia o corpo da mesma maneira que um piloto conduzia o seu navio. E, neste dualismo em que a alma superava o corpo, porque a Igreja já se encarregava da alma, era necessário encontrar quem se encarregasse do corpo. Então surgiram na Europa várias correntes de educação física onde, entre outros, pontuavam nomes como os de Friedrich Ludwig Christoph Jahn (1778-1852), Per-Henrik Ling (1776- 1839) e Francisco Amoros (1767-1848) que lideravam as grandes “escolas” de educação física por toda a Europa. A este respeito, como refere Manuel Sérgio (2009:81) os rapazes que cultivassem educação física “deveriam apresentar-se possantes, de tórax e braços musculosos, que o esforço entumecia e avermelhava. Porém as qualidades físicas não passavam de instrumento ao serviço dos imperativos categóricos da razão.” E o dualismo antropológico torna-se mais uma vez evidente através da máxima de Juvenal da “mente sã em copo são”.

Coubertin era sobretudo um homem do seu tempo e, como tal, tinha uma visão cartesiana avançada do homem. Para ele, a unidade do corpo e da mente só pode ser realizado em sua simbiose ou síntese que é o propósito do Olimpismo. Dizia ele que para que o desporto se torne no adjuvante direto da moral enquanto expressão do espírito devia tornar-se no seu adjuvante direto.[67] Em conformidade, de acordo com a cultura da época na generalidade dos países europeus sujeitos ao dualismo cartesiano, para Coubertin, o desporto, enquanto meio de educação física, era um instrumento de regeneração da raça humana e, muito provavelmente influenciado por Nietzsche, queria construir um homem novo ou até mesmo um super-atleta capaz de se superar a si mesmo. E, em 1912, certamente entusiasmado com o extraordinário êxito dos JO de Estocolmo, sobre a eugenia escreveu:

A verdade é que a eugenia não pode ser decretada, mas ela pode estabelecer o seu reino nas consciências individuais e é igualmente bem claro que as preocupações eugénicas correspondem a uma corrente nova que vai influenciar enormemente a mentalidade dos povos ocidentais. Isto está muito longe de ser um mal. É um bem. É mesmo necessário ver nisso um reforço precioso que recebe a moral na medida em que circunstâncias múltiplas parecem tender ao seu abrandamento e ao seu enfraquecimento crescente. O homem habituar-se-á pouco a pouco que os concorrentes internacionais lhe ordenem para não deixar a sua própria nacionalidade dobrar-se em número e em qualidade diante das outras e que ao mesmo tempo que as condições bem rudes do “struggle for life” lhe comandam de colocar no mundo seres também tão fortemente constituídos quanto possível. (Coubertin, 1912 p.599).

Esta visão de Coubertin, muito anterior ao nazismo, acima de quaisquer dúvidas, colocava o desporto e o Movimento Olímpico (MO) ao serviço da construção de um homem novo reforçado sob o ponto de vista moral. E, para tal, Coubertin admitia, como perfeitamente legítimo que, no domínio da “luta pela vida”, o desporto pudesse surgir como uma espécie de instrumento de eugenia individual em função da dignidade nacional (Coubertin, 1912).

A questão essencial que separava Coubertin dos tradicionalistas da educação física era a problemática da dinâmica da competição.

14.A. O Higieno-sanitarista do “Mens Sana…”

O mundo do desporto, com as suas reminiscências, sempre foi um espaço onde as divisas e tudo aquilo que elas simbolizam orientaram a vida das organizações e das pessoas. Muito provavelmente, a divisa mais famosa e, sobretudo, mais antiga do mundo do desporto é a higiénico-sanitarista “mens sana in corpore sano”. Ela decorre de um verso do poeta romano Juvenal (55/60-127), que aconselhava os concidadãos, nas suas orações, a pedirem aos deuses uma mente sã num corpo são. Juvenal criticava os homens porque eles só rezavam aos deuses para lhes pedirem poder, fama, boa aparência e longevidade. E perguntava: O que deviam os homens, quando rezavam, pedir aos deuses? E respondia: Os homens, nas suas rezas aos deuses, deviam pedir-lhes uma mente sã num corpo são: “orandum est ut sit mens sana in corpore sano.” Entretanto, com o desinteresse, por motivos religiosos, pela ginástica higiénica durante o período medieval a atividade física mais significativa foi a levada a cabo pelos cavaleiros feudais que, através das justas e dos torneios, tinha como objetivo a preparação para a guerra.

Ora, o “mens sana in corpore sano” é o aforismo mais famoso não só da história da educação física como do próprio desporto moderno muito embora nada tenha a ver com o desporto. O que aconteceu, como refere Coubertin, é que o aforismo “mens sana…” passou a ser uma figura de estilo que qualquer orador obrigatoriamente citava sem perceber as verdadeiras implicações daquilo que estava a dizer. Quer dizer, a frase passou a ser papagueada por tudo e por nada pelo que, acabou por cair até em situações profundamente ridículas e Coubertin foi o primeiro a constatá-lo.

Coubertin dizia que o aforismo era demasiado brando e completamente desajustado à vocação do desporto e do MO, pelo que até afirmava que “devia ser enviado para o “museu das antiguidades”. Era, argumentava ainda, “uma perspetiva demasiado médica para ser proposta aos desportistas”, que era “uma máxima excelentemente higiénica mas nulamente atlética: “Le mens sana in corpore sano est excellemment hygiénique et nullement athlétique.”[68]

14.B. Coubertin e Juvenal

Pierre de Coubertin atribuía a inclusão da a frase “mens sana in corpore sano” ao clérigo Charles Kingsley, líder do movimento “Muscular Christianity”, que defendia a prática desportiva desde que esta fosse consagrada à glória de Deus, ultrapassando, deste modo, todas as dificuldades que por motivos religiosos eram colocadas às práticas desportivas pela igreja na idade média. Por isso, até se admite que a máxima “mens sana in corpore sano” possa ter servido ao movimento desencadeado por Thomas Arnold, quando em 1828 assumiu o cargo de diretor do colégio de Rugby, na medida em que ele encontrou a escola num estado lastimoso de desagregação moral, onde, como refere Ulmann (1989: 326) reinava a “tirania do mais forte”. Contudo, Arnold não enveredou pelos modelos estandardizados de ordem unida e de disciplina militar dos sistemas de educação física, antes pelo contrário organizou um sistema de auto-governo dos alunos em que estes assumiam a disciplina graças aos valores da competição desportiva, como o próprio Coubertin teve a oportunidade de exprimir nas suas “Leçons de Pédagogie Sportive” publicado em 1921.

14.C. A Competição no Centro da Ideia Pedagógica

Para Coubertin, a competição era uma questão fundamental que ele, a fim de anular os críticos, numa estratégia de envolvimento, superou com a “ginástica utilitária”, enquanto antecâmara pedagógica e higiénica e condição necessária para aqueles que se desejavam entregar ao desporto. Somos levados a acreditar que muito embora Coubertin acreditasse na sua “ginástica utilitária” ele sabia que ela não passava de uma medida expedita para ultrapassar os exageros das opiniões anti-competição dos fundamentalistas da educação física e do método sueco que ele procurava superar através de um sistema em que a competição estivesse integrada no centro da questão pedagógica. Quer dizer que, se em termos pedagógicos a perspetiva de Coubertin teve alguma originalidade foi a de considerar a competição como um instrumento de alcance pedagógico de extraordinária importância. Claro que tal visão, ao tempo, não podia ser anunciada de uma forma clara pelo que Coubertin teve o cuidado de a dissimular nos grandes objetivos do 1º Congresso Olímpico de 1894.

14.D. Uma Conciliação Impossível

Então, como conciliar o equilíbrio do dualismo cartesiano do “mens sana in corpore sano”, que fundamentou os movimentos profiláticos e higienistas de uma educação física erudita, com o desequilíbrio dos excessos do “citius, altius, fortius” do desporto popular e do homem total que se expressa pelo desporto?

Para Coubertin (1996:217), “suprimir os excessos era uma utopia dos ‘não desportistas’”, pelo que a partir da máxima do padre Didon “mais rápido, mais alto, mais forte” defendia que “o recorde é o vértice do sistema desportivo”, porque tal como dizia Nietzsche é no valor das unidades que pode ser encontrado o significado da soma. O resultado de uma soma de zeros é zero pelo que a virtuosidade do zero pela deificação das massas onde é virtuoso ser zero, só pode dar lugar a uma sociedade medíocre que Coubertin (1996:217) se propunha ultrapassar através da sua pirâmide: “para que cem se entreguem à cultura física é necessário que cinquenta pratiquem desporto. Para que cinquenta pratiquem desporto, é necessário que vinte se especializem. Para que vinte se especializem, é necessário que cinco sejam capazes de proezas espantosas”.

14.E. Impossibilidade Epistemológica

Por isso, há muito que Coubertin sabia que estava perante uma impossibilidade epistemológica. Quer dizer, era impossível conciliar uma educação física pretensamente erudita do “mens sana in corpore sano” que, por motivos paternalistas, queria educar as massas a fim de as conduzir às linhas da frente dos campos de batalha e às linhas de montagem das fábricas que começaram a aparecer com o surgimento do industrialismo, e um desporto popular que por via da competição desejava a excelência, a fim de evoluir do ponto de vista económico e social. Em Portugal, se dúvidas houvesse, a prova mais cabal de que a conciliação era impossível foi o que aconteceu no Primeiro Congresso de Educação Física, realizado em 1916.[69]

14.F. Olimpismo e Euritmia

Com a institucionalização de um sistema competitivo organizado Coubertin propugnava o abandono de um modelo de atividade física que encontrava a sua fundamentação no equilíbrio estático da máxima de Juvenal para um novo paradigma, fundamentado nas virtualidades de um equilíbrio dinâmico, simbolizado no “citius, fortius, altius” do frade Didon, promotor de desenvolvimento e de progresso através equilíbrio dinâmico provocado pelos desequilíbrios subjacentes à competição organizada. A ideia de Coubertin[70] era a de suscitar entre os atletas e os espetadores uma sensação estética que ele denominava de ideal de euritmia de definia como a combinação harmoniosa das linhas, dos sons e das proporções. Era o justo equilíbrio das faculdades a fim de formar uma combinação eurítmica.[71] Contudo, quando Coubertin se referia ao “justo equilíbrio das proporções” não significa um equilíbrio estático de Juvenal mas sim um equilíbrio dinâmico promotor de desenvolvimento e de progresso. Quer dizer, o equilíbrio em Coubertin encontrava-se na justa proporção dos desequilíbrios com vista a conseguir um novo equilíbrio. Assim, o humanismo de Coubertin desprezava o equilíbrio do “mens sana…” a fim de assumir os desequilíbrios do “citius, altius fortius” do Frade Didon. Por isso, nas suas “Lettres Olympiques” ele escreveu:

Equilíbrio na vida é como um resultado e não uma meta, como uma recompensa e não uma pesquisa. Não é obtida pela adição de precauções, mas de esforços alternados.”[72]

Até porque, o homem, antes de tudo, para utilizarmos a expressão de Nietzsche, é natureza que busca a superação e a excelência só conseguida na dinâmica dos sistemas abertos em conflito constante na busca constante de novos equilíbrios. Assim sendo, a euritmia do “mens sana…”, para Coubertin nada tinha a ver com o desporto desde logo porque entrava profundamente em contradição com o “citius, altius, fortius” da competição olímpica. O que significa que a euritmia ou o equilíbrio do homem em Coubertin está precisamente na dialética de desequilíbrios provocado pela competição enquanto fio condutor da explicação ontológica.

Na realidade se compararmos as duas expressões podemos verificar que, enquanto a primeira “mens sana in corpore sano”, numa visão cartesiana entre o corpo e o espírito, procura encontrar o equilíbrio do homem numa perspetiva estática, já a segunda, no seu “mais rápido, mais alto, mais forte”, busca a superação só possível através do desequilíbrio proporcionado pela dinâmica da competição que, quando utilizada na escala máxima mas sujeita a regulamentação tal como explica Hesíodo nos “Trabalhos e os Dias” ou expressada no “mais importante é participar”[73], só pode ser promotora de desenvolvimento e de progresso porque não há vitória sem derrota. Na realidade, nas palavras de Coubertin, o desporto sempre foi uma atividade de excessos, pelo que o equilíbrio higienista do “mens sana e corpore sano” pouco ou nada tinha a ver com o desporto.

David Young (2005) confirma-o quando considera que a frase original de Juvenal não tinha qualquer relação com o contexto desportivo em que, posteriormente, passou a ser referida. E pergunta: Quem foi a primeira pessoa que associou a frase ao desporto e em que circunstâncias? Para Young parece ter sido John Hulley, fundador do “Liverpool Gymnasium” e cofundador do Liverpool Athletic Club e dos JO de Liverpool realizados em 1862. O discurso em que Hulley, em 1863, proferiu a frase, intitulado “Opinions of Eminent Men on the Importance of Physical Education”, foi editado pela “Shropshire Olympian Society”. Hulley, ainda segundo Young, porque não era um latinista nem os textos estavam suficientemente divulgados e traduzidos para permitirem a qualquer leigo a eles ter acesso, deve ter citado Juvenal em “segunda mão” pela leitura da novela “The History of Tom Jones” de Henry Fielding, publicada em 1749, onde abundam citações latinas entre elas a de Juvenal.

Acreditarmos em Young, quando nos diz que a divisa “mens sana in corpore sano” é tão só o produto da reflexão dos higienistas, entre eles médicos, militares e professores de ginástica, que acompanharam os primeiros tempos da institucionalização do moderno Movimento Olímpico mas que depressa se separaram dele.[74] Paradoxalmente, embora latina, a frase serviu para enaltecer o equilíbrio que os gregos antigos colocavam na articulação entre o corpo e o espírito. Contudo, ainda segundo Young, não existe qualquer evidência de que ao tempo da Grécia antiga as coisas em matéria de desporto se tenham passado assim. Para este investigador são conhecidos os nomes de milhares de campeões dos Jogos Olímpicos e Pítios, todavia, nenhum deles ficou conhecido por qualquer proeza no domínio intelectual, tal como nenhum grego de renome no domínio intelectual ganhou qualquer prova desportiva de significado, muito embora, Allen Guttmann (1978) afirme que Platão, na sua juventude, teria participado nos Jogos Pítios, Ístmicos e Nemeus na modalidade de luta, e Avery Brundage, nos seus discursos, gostasse de referir as virtudes atléticas de Platão e a sua participação nos Jogos. E Yang (2005: 25) conclui:

all the evidence suggests that in Greek society the foremost athletes and the foremost intellectuals were as clearly divided as in American society today.

14.G. O Momento de Rutura de Coubertin

A partir de princípios do século XX Coubertin deixou-se dos cuidados que tinha tido até então para de uma forma clara e aberta começar a considera o aforismo “mens sana e corpore sano” como uma questão ridícula, uma vez que a máxima passou sem qualquer sentido a fazer parte de todo e qualquer discurso de circunstância. Dizia ele: “tornou-se comum referir o ‘mens sana in corpore sano’ sempre que um humanista colocado perante a aventura de ter de discursar sobre uma atividade muscular à qual é totalmente estranho.”[75]

O problema é que a questão desportiva ainda não era bem clara no espírito das pessoas. Em conformidade, o velho “mens sana…” continuava a imperar no mundo do Olimpismo muito embora Coubertin só o tenha utilizado para o criticar. Então, com aquela capacidade de ver mais longe e primeiro do que os outros, fez publicar no nº 67 da Revue Olympique saído em julho de 1911 um texto intitulado “mens fervida in corpore lacertoso” que estabelecia uma rutura com a velha máxima de Juvenal, adotada pelos arautos da educação física higienista e da supremacia da raça.

Coubertin considerava que o “mens sana…”, de tanto ter sido utilizado em tudo quanto era discurso de gente perfeitamente ignorante, se transformou numa expressão ridícula sem qualquer significado para o desporto. Para ele era uma expressão do foro médico, demasiado higiénica e pouco desportiva pelo que até procurou arranjar-lhe um substituto lançando uma nova máxima a fim de contrariar as ideias higienistas dos suecos, bem como o desejo de imporem o seu método ao MO. E apressou-se a publicar na Revue Olympique nº 67, de julho de 1911, um texto em que, com frontalidade, assumia uma rutura com o “mens sana…” para abraçar uma nova divisa com uma compleição, dizia ele, eminentemente desportiva: “mens fervida in corpore larcetoso”, quer dizer, “um espírito ardente num corpo treinado”.  Ao fazê-lo optou, decididamente, pela ideia de que o caminho livre, criativo, popular, que o desporto havia de trilhar nada teria a ver com o caminho fechado, estandardizado e corporativo do equilíbrio, que a educação física e os seus sistemas diziam preconizar, entre os quais imperava o sueco.

Entretanto também diremos que o referido artigo de Coubertin pode ter sido uma espécie de “macguffin” quer dizer uma medida de diversão a fim de conseguir fazer aprovar pelo COI o seu verdadeiro mote: “citius, fortius, altius” que tardava a ser, de uma forma definitiva adotado pelo COI.

14.H. O Instinto de Rebanho

A relação de Coubertin com Nietzsche que, aparentemente, procurou aquele procurou evitar, decorre do amor que ambos nutriam pela cultura helena. Em “Gaia Ciência”, Nietzsche argumenta que a institucionalização do “instinto de rebanho”, enquanto classificação hierárquica dos atos humanos, decorre da necessidade de uma comunidade viver em rebanho. Depois, em “Para Além do Bem e do Mal” (1999:126), o filósofo associa a limitação, a hesitação, a lentidão e o frequente retrocesso do desenvolvimento humano “ao instinto de rebanho dos que obedecem, que se transmite melhor do que a arte de comando e em prejuízo desta”. Ora, o “instinto de rebanho” nas sociedades não competitivas subjuga o instinto de luta, de confronto e de superação das sociedades de excelência que, na linha do pensamento dos gregos antigos buscavam a superação através da excelência do combate. E foi este sentimento que Coubertin percebeu quando andou envolvido nas atividades físicas dos modelos de educação física de finais do século XIX. E foi a Inglaterra buscar os exemplos de pedagogia do desporto às escolas públicas que tinham adotado o modelo de Rugby e de Thomas Arnold. Contudo só anos mais tarde se permitiu a ousadia de expressar de uma forma clara e definitiva tal ideia. E foi quando, na 16ª Sessão do COI realizada em Lausanne, em 6 e 7 de maio de 1911, o afirmou no discurso que proferiu:

…nenhuma educação é digna desse nome se não se propuser por princípio essencial desenvolver todas as forças do indivíduo. (…) Na educação física temos estado muito afastados deste princípio. E foi por isso que, há vinte anos, eu me propus encontrar, no túmulo de Thomas Arnold que repousa no seu colégio de Rugby, as sementes da pedagogia desportiva para as transplantar para o continente na esperança de uma colheita abundante.[76]

14.I. Os Jogos Olímpicos de Estocolmo (1912)

Em 1911, em vésperas dos JO de Estocolmo, Pierre de Coubertin receava que os suecos qusessem realizar os JO à sua maneira uma vez que já tinham excluído o boxe[77] do Programa Olímpico.[78] Entretanto, a comunicação social sueca informava existirem problemas que estavam a pôr em causa a organização dos próprios JO em Estocolmo.[79]

Em conformidade, como de costume, Coubertin, através de uma atitude de “soft power”[80], a que no passado já tinha dado grandes resultados ao serviço da USFSA, à qual Pierre Lebecq (1997) chamaria de “diplomacia confidencial”.[81]

14.J. O Protagonista

A questão central da pedagogia de Coubertin está na política de competição que ele desejou imprimir ao sistema de atividades físicas do continente através da experiência da escola pública que ele foi buscar a Inglaterra. Tal como na Grécia antiga, cabia à paideia a formação do homem grego e a pedagogia popular exigia que cada talento ou vocação se desenvolvesse pela luta, pela competição, quer dizer, pelo agôn em busca da areté assim também Coubertin pensava que o equilíbrio estético do desporto moderno devia ser partilhado numa comunhão sentida entre os atletas e os espetadores. Porque para os gregos antigos, agôn para além de competição também significava assembleia, reunião para os jogos, festas e atos religiosos. O protagonista (prot – primeiro; “agôn” – luta; sufixo – ista), era aquele que entrava em competição e, assim, o agôn incluía, também, o sentido de combate. Deste modo, os gregos procuravam encontrar para a sua vida pessoal e social um equilíbrio competitivo a que denominavam “stasis”[82] que significava uma situação eurítmica de “estabilidade dinâmica” pela permanente competição, por oposição a uma situação de “estabilidade podre” pela anulação da vontade dialética com a consequente subordinação de todas as vontades a uma única vontade, quer dizer, nas palavras de Nietzsche (1998:132), o “instinto de rebanho”. Por isso, a utilização da máxima do Frade Didon “citius, altius, fortius” apesar de estar impressa no primeiro número do jornal dos Jogos Olímpicos só começou formalmente e institucionalmente a ser utilizada em 1921 quando passou a constar na capa da Carta Olímpica editada naquele ano, porque as pressões contra um modelo de atividades físicas competitivas aconteciam dentro do próprio COI.[83]

14.K. Congresso Olímpico de 1913

Pierre de Coubertin na 16ª Sessão do COI realizada em Lausanne, em 6 e 7 de maio de 1913, no seu discurso de abertura esclareceu perfeitamente a sua posição ao dizer: “nenhuma educação é digna desse nome se não se propuser por princípio essencial desenvolver todas as forças do indivíduo.”… “Na educação física temos estado muito afastados deste princípio”. “E foi por isso que eu, há vinte anos, me propus encontrar, no túmulo de Thomas Arnold que repousa no seu colégio de Rugby, as sementes da pedagogia desportiva para as transplantar para o continente na esperança de uma colheita abundante.” E Coubertin terminou o seu discurso com a frase que, pela primeira vez, tinha escrito em 1911, dizendo:

Mens fervida in corpore lacertoso’, une intelligence ardente dans un corps entraîné, selon le vieille devise que nous avons modernisée.

Nem tudo foram rosas para Coubertin na medida em que existiam vários protagonistas no tabuleiro do jogo cujas personalidade e objetivos conflituavam entre si.

14.L. Citius, Altius, Fortius

Como se pode confirmar na primeira edição do “Bulletin du Comité International des Jeux Olympiques” referente ao Congresso da fundação do COI em 1894, a máxima “citius, fortius, altius” está impressa no frontispício da publicação. Porque, para Coubertin, o equilíbrio do homem só era conseguido a partir da oposição dos excessos, ma medida em que “só se realiza o suficiente quando se procura o muito”. Mas como Coubertin era um estratega do “soft power” sabia que as pessoas falam muito em mudar para, depois, quando se tratava de realmente mudar, mudarem o menos possível. Por isso, não era fácil mudar o “mens sana..” de Juvenal pelo “citius, altius, fortius”. Em conformidade, Coubertin procurou que a mudança passasse por parecesse uma simples melhoria do passado pelo que tentou fazer com que a nova máxima parecesse tão só uma simplesmente versão moderna da antiga divisa.[84]

Esta perspetiva competitiva de Coubertin e da consequente rutura com a velha máxima higiénica e cartesiana também é confirmada por Dikaia Chatziefstathiou (2005) quando afirma que Coubertin, depois dos problemas acontecidos no JO de Londres (1908) entre ingleses e americanos a propósito das bandeiras, pretendia assegurar que os JO de Estocolmo decorressem sob o signo do “joyous overflow of manly vigour”. De facto, ele estava muito mais interessado no “citius, altius, fortius”, quer dizer, no espírito competitivo dos JO e não no sistema sueco de ginástica da saúde e do equilíbrio de forças, que já mostrava as suas intenções ao tempo das disputas com Grousset e Tissié, bem como no novo século com os suecos a, unilateralmente, abolirem o boxe do Programa Olímpico, conforme se constata pelas explicações que o Coronel Balck[85] deu a Courcy-Laffan relativamente à exclusão da modalidade por parte do Comité Olímpico Sueco.[86] No entanto, Coubertin nunca conseguiu substituir o “mens sana in corpore sano” pelo seu “mens fervida in corpore lacertoso”. E ainda hoje há quem na maior das ignorâncias utiliza a expressão dos seus decursos desportivos.

14.M. A Pirâmide de Cobertin e o Efeito de Ídolo

A competição responde a uma necessidade que, a acreditarmos em Edward O. Wilson (2004), tem também uma raiz instintiva. O percurso da vida que vai do “caldo químico” à biologia e, depois, à cultura, encontra no desporto enquanto jogo que é, e na competição que lhe é inerente, o “fio condutor da explicação ontológica”, para utilizarmos uma máxima de Hans-George Gadamer (2005). Quer dizer, a competição explica a vida, porque ela está inscrita no código genético da humanidade. Representa o apelo ao esforço, à entrega, à superação, que possibilitam o equilíbrio da natureza de cada homem. A competição dá um sentido à vida, porque permite ao homem determinar as suas metas e objetivos e os da comunidade de que faz parte. O “conhece-te a ti mesmo”, inscrição atribuída aos sete sábios da Grécia antiga, que pode ser lida à entrada do oráculo de Delfos, significa bem o sentido de superação que deve ser prosseguido por cada homem. De facto, a maior competição que o homem pode prosseguir na vida é o jogo permanente do conhecer-se a si próprio.

É neste sentido que entendemos a dimensão eurítmica de Coubertin que ele expressou na sua pirâmide de desenvolvimento:

Para que cem se dediquem à cultura física, cinquenta têm de praticar desporto; para que cinquenta pratiquem desporto, vinte têm de se especializar; para que vinte se especializem, é necessário que cinco se mostrem capazes de realizar proezas extraordinárias.[87]

Claro que esta perspetiva nada tinha a ver com o caminho fechado, estandardizado e corporativo do equilíbrio estático que a educação física e os seus sistemas, entre os quais imperava o modelo sueco, diziam preconizar.  Coubertin optou, decididamente, pela ideia do caminho livre, criativo, popular do equilíbrio dinâmico, que o desporto havia de trilhar.

Com a sua pirâmide Coubertin provocou uma mudança de paradigma porque a perspetiva desenvolvida advoga como estratégia o estabelecimento no sistema desportivo de uma ideia de “encadeamentos à retaguarda” (backward linkages)[88]  a fim de promover o desenvolvimento do desporto. Quer dizer ao instituir o “Comité International des Jeux Olympiques” Coubertin, porque não acreditava que os designados “Lendits”, desencadeou a montante, nos mais diversos países do mundo a institucionalização de quadros competitivos estandardizados que promoveram o desporto, a constituição de clubes e federações nacionais e federações internacionais. Quer dizer, Coubertin, com a sua pirâmide, desencadeou aquilo a que hoje designamos por “efeito de ídolo” que, através do seu exemplo dos atletas de elite pode desencadear “encadeamentos à retaguarda” que, se bem aproveitados por políticas públicas inteligentes, provocam desenvolvimento e progresso na base do sistema desportivo. Pelo contrário, políticas públicas exclusivamente a partir da base do sistema que não resultem da dinâmica competitiva do “efeito de ídolo”, se num primeiro momento podem resultar em termos de espetacularidade, a médio prazo, tornam-se autênticos sorvedouros burocráticos de dinheiros públicos que o Estado providência já não tem recursos para sustentar.

 Quer dizer, voltamos ao problema do equilíbrio dinâmico da euritmia em que o desenvolvimento resulta da adoção de uma estratégia em que como refere Hirschman[89] uma política de alto rendimento desportivo através dos conceitos de “nível desportivo” e de “elite correspondente”[90] deve ser conciliada com o alcance objetivos sociais múltiplos.

É esta noção de “encadeamentos à retaguarda” que permite ao processo de desenvolvimento do desporto a criação de um conjunto de índices que caracterizam a situação desportiva num dado momento e a determinação do nível desportivo. Assim sendo, a relação massa / elite a determinação estratégica de desequilíbrios é um processo natural do desenvolvimento do desporto. Este não ocorre de uma forma equilibrada mas através de múltiplos desequilíbrios que podem proporcionar ao desporto o já referido equilíbrio dinâmico. A cada desequilíbrio induzido surgem ações e reações em busca de um novo equilíbrio. Assim sendo, assume-se que o desenvolvimento mão acontece de uma forma equilibrada mas sim desequilibrada através de uma estratégia de desenvolvimento sustentado na introdução dos desequilíbrios ajustados através de projetos significantes nível da base do sistema a fim de provocar um novo estádio de desenvolvimento.

15. Conclusão

A conclusão que melhor pode enquadrar o presente ensaio é a que procura saber qual foi o legado significante de Pierre de Coubertin? Pelo que expusemos ao longo do texto podemos concluir que aquilo que de mais significante ele nos deixou, quer dizer, aquilo que desencadeou todas as transformações que se processaram no desporto durante os últimos quase cento e vinte anos, foi a mudança de paradigma do “mens sana in corpore sano” para o “citius, altius, fortius”. Esta mudança não foi fácil porque teve fundamentalmente a ver com mentalidades. A partir das atividades lúdicas, informais de caráter sanitarista Coubertin, como a institucionalização do Comité International des Jeux Olympiques, desencadeou o fator significante que iria mudar a configuração do desporto a nível mundial. Foi a partir da competição institucionalizada com normas, regras e processos de gestão estandardizados que Coubertin conseguiu pôr em marcha o maior evento humano conhecido à escala mundial: os Jogos Olímpicos.

Depois, os Jogos Olímpicos desencadearam a consolidação de um modelo de organização desportiva universal com clubes, Federações Nacionais, Federações Internacionais e atualmente até Comités Olímpicos Regionais.

Coubertin conseguiu também introduzir o desporto nos sistemas de ensino como gerador de uma cultura competitiva justa, nobre e leal através da ideia de Olimpismo. E hoje, como está expresso na Carta Olímpica, “o Olimpismo é uma filosofia de vida que coloca o desporto ao serviço da condição humana”.

Para fazer passar as suas ideias para um mudo como era o desporto constituído, por um lado, por dirigentes cuja competência era fundamental social e, por outro, por atletas cujo único interesse era a prática da modalidade Coubertin encontrou numa linguagem simbólica, e metafórica no domínio da competição a melhor maneira de fazer passar as suas ideias. Nem sempre conseguiu, contudo, o seu grande sucesso foi ter conseguido trazer para a modernidade a cultura e a lógica dos Jogos da Grécia Antiga, adaptando os seus critérios e as lógicas de funcionamento, em que a competição era o fio condutor das suas vidas, aos tempos modernos de finais do século XIX princípios do século XX.

Desde que Coubertin lançou a ideia de se fazer ressurgir os JO da antiguidade grega, decorreram quase cento e vinte anos. Hoje Movimento Olímpico é uma realidade inquestionável que se afirma à escala do Planeta, regendo-se por todo um conjunto de rituais, normas e procedimentos com diferentes graus de formalidade que têm vindo a formatar o padrão cultural ao qual aderiram centenas de milhões de pessoas por esse mundo fora. E o Olimpismo, enquanto competição que explica a vida, prolonga-se para além do desporto, porque é um estado de espírito, uma filosofia de vida, um modo de estar no mundo, um catalisador de desenvolvimento como foi referido por Jacques Rogge o presidente do COI a quem se fica a dever a entrada do COI como observador no seio das Organização das Nações Unidas É tempo de, a título póstumo, atribuir o Prémio Nóbel da Paz a Pierre de Coubertin.

 

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Notas

 


[1] Entre outros os Olímpicos, os Píticos, os Nemeus e os Ístmicos, realizados em honra de Zeus, o rei dos deuses.

[2] Coubertin, Pierre (1986). Naissance des Incitantes Sportives. In: Textes Choisis, Tome II Olympisme. Primeira publicação 1922. P.32-40.

[3] Ernst Curtius (1814-1896) foi um historiador, arqueólogo e professor alemão. Foi professor na Universidade de Berlim e diretor do Museu de Antiguidades, na mesma cidade. Sua principal obra é uma história em três volumes da Grécia. A ele ficam-se a dever as escavações que deram com o sitio de Olimpia onde os gregos antigos realizavam os seus Jogo Olímpicos. In: http://archaeology.about.com/od/archaeologicalsite1/a/olympia.htm (Consultado em: 23/02/2011).

[4] A palavra “guerra” é um termo que tem vindo desde 1928 a cair em desuso no Direito Internacional, muito embora ainda seja utilizada para designar grandes conflitos, como foram as duas grandes guerras mundiais. Na realidade, o discurso diplomático parece preferir o termo “conflitos armados internacionais”, uma vez que desde o Pacto de Paris de 1928, a guerra foi proscrita do Direito Internacional como meio válido de solução de controvérsias. O Pacto de Paris ficou também conhecido como o Pacto Briand-Kellog, em referência ao ministro francês do exterior Aristide Briand e ao chanceler americano Frank Kellog. O artigo primeiro reza o seguinte: “As Altas Partes contratantes declaram solenemente, em nome dos respetivos povos, que condenam o recurso à guerra para a solução das controvérsias internacionais, e a ela renunciam como instrumento de política nacional nas suas mútuas relações.” Contudo, como está bem de ver, pelo facto da palavra guerra ter sido expurgada do direito internacional, não foi por isso que a discórdia, os conflitos e a própria guerra deixaram de existir nas relações entre homens, entre grupos e entre estados. Na realidade, as questões relativas à guerra não se esgotavam no direito internacional nem na arte da diplomacia, pelo que o referido tratado de Paris não evitou nem a II Grande Guerra Mundial nem diversas guerras regionais entre elas as mais famosas, a da Coreia e a do Vietname. O verdadeiro problema da guerra é que ela não de extingue nem por acordos nem por tratados, porque estes expressam tão só os seus aspetos formais que se expressam na arte do combate. É necessário encontrar a explicação ontológica das origens mais longínquas da guerra que se encontram inscritas no código genético da humanidade que por sua vez se traduz nos padrões de comportamento que do ponto de vista cultural foram sendo adquiridos ao longo de sucessivas gerações. A guerra na definição de Brien Ferguson (1990: 26) é uma “organização de um grupo com um propósito de ação, dirigido contra outro grupo … envolvendo uma força letal atual ou potencial” antecede a própria formação do Estado. Portanto, muito embora o término da guerra possa ser virtualmente determinado através de um qualquer tratado, o que é facto é que a diplomacia não esgota a questão na medida em que o assunto é de grande complexidade. Na realidade, a compreensão da problemática passa pelo estudo multidisciplinar aonde tanto as ciências como as humanidades contribuem para um melhor esclarecimento da questão.

[5] Coubertin via mais longe e primeiro que os seus contemporâneos. Por isso, em 29 de novembro de 1890 promoveu a união entre o “Comité pour la Propagation des Exercises Physiques” por si fundado em 1 de junho de 1888 com a Union des Sociétés Françaises de Course a Pied fundada por Georges de Saint-Clair em 20 novembro de 1887 a fim de fundar a 20 novembro 1887 uma nova organização a “Union des Sociétés Françaises de Sports Athlétiques” (USFSA) que, com um estatuto de superestrutura do desporto francês, se expandiu por toda a França. Em 1900 a USFSA encarregou-se de organizar diversas competições respeitantes aos JO de Paris (1900).

[6] In : http://www.la84foundation.org/OlympicInformationCenter/RevueOlympique/19...

“Genèse Olympique: Les conférences de la Sorbonne de 1892 et de 1894” par John A. Lucas, de I’Université de Pennsylvanie.

[7] Coubertin, Pierre (1922). Mémoires Olympiques, Paris, Editions Revue “EPS”, p.25. 1ª ed. 1931.

[8] “Coubertin conclut par cette célèbre exhortation: Exportons des rameurs, des coureurs, des escrimeurs: voilà le libre échange de l’avenir et, le jour où il sera introduit dans les moeurs de la  vieille Europe, la cause de la paix aura reçu un nouvel et puissant appui.” In: http://www.la84foundation.org/OlympicInformationCenter/RevueOlympique/19...

“Genèse Olympique: Les conférences de la Sorbonne de 1892 et de 1894” par John A. Lucas, de I’Université de Pennsylvanie.

[9] In : http://www.la84foundation.org/OlympicInformationCenter/RevueOlympique/19...

“Genèse Olympique: Les conférences de la Sorbonne de 1892 et de 1894” par John A. Lucas, de I’Université de Pennsylvanie.

[10] Tratou-se de uma espécie de “McGuf­fin” quer dizer de um truque idealizado por Hitchcock em que o realizador faz os espetadores, atrás de um personagem que nada tinha a ver com o enredo do filme. No caso de Coubertin este fez os congressistas, seguirem uma linha de pensamento a fim de pode fazer passar a ideia dos Jogos Olímpicos que lhe interessava mas que estava fora do contexto.

[11] “L’Education en Engleterre”. In : Pierre de Coubertin Textes Choisis, Tome I, Muller, Norberth (eds). Zurich, Hildesheim, New York, p. 48.

[12] Coubertin, Pierre (1914). Le Sport et la Société Moderne.  Le Sport et la Société moderne. (Discours prononcé en Sorbonne, en présence de Raymond Poincaré, Président de la République,

à l'occasion du XX anniversaire du rétablissement des Jeux Olympiques). In :La Revue Hebdomadaire, 23• année, 20 juin 1914, pp. 376-386. In: Pierre de Coubertin Textes Choisis, Tome I, Muller, Norberth (eds). Zurich, Hildesheim, New York, p.618.

[13] Couberti, Pierre (1928). L'Esprit Sortif Doit Domineer Toute Autre Considération. La Revue Sportive Illustrée 24eme année, 1928, nº 3, p. 24. In : Pierre de Coubertin Textes Choisis, Tome II, Muller, Norberth (eds). Zurich, Hildesheim, New York, p.414.

[14] Pierre, Coubertin (1889) L'Education Anglaise en France. Paris: Libr. Hachette. In: Pierre de Coubertin Textes Choisis, Tome I, Muller, Norberth (eds). Zurich, Hildesheim, New York, pp. 82-91.

[15]                                                                                              Cf: http://www.science-sociale.org/dossiers/dossiers.php?id_dossier=33&PHPSE... =fd4d2a4442f77a50b0899ea8730dbf6e

[16] “…l'oeuvre de Frédéric Le Play est double : d'une part, elle est ouverte sur les perspectives jusqu'alors inexplorées d'une science nouvelle que nous appelons la science sociale, et qui, si elle possède sa méthode d'observation et si elle est basée sur les connaissances déjà étendues, n'en est pas moins comme toutes les sciences susceptible de grands progrès, - et, d'autre part, elle contient un programme de réforme sociale en France, programme dont tous les points reposent sur l'observation contemporaine des peuples et sur l'examen impartial des périodes de décadence et de relèvement qui marquent les différentes phases de l 'histoire.” Un Programme : Le Play. Conferência realizada a 14 de novembro de 1887 na “Societé National Française à Londres. In : Pierre de Coubertin Textes Choisis, Tome I – Revelation, p.544.

[17] “Le Play fut, avec Arnold, le maître auquel va ma gratitude maintenant que le soir est proche. À ces deux homes je dois plus que je ne puis dire.” In : Boulngne, Yves-Pierre (1975). La Vie et l’Oeuvre Pédagogique de Pierre de Coubertin 1863-1937.Paris: Leméac, p.96.

[18] Taine, Hippolite (1871). Notes sur Angleterre. Pais: Librairie Hachette et C., p. 138. Nota: Project Gutenberg EBook.

[19] Coubertin no seu livro “L’Education en Engleterre” recomenda como essencial a leitura do livro “Thomas Brown’s School Days”. In : Pierre de Coubertin Textes Choisis, Tome I, Muller, Norberth (eds). Zurich, Hildesheim, New York, p.48.

[20] “... in the playing field boys acquire virtues which no books can give them; not merely daring and endurance, but, better still temper, self-restraint, fairness, honor, un envious approbation of another’s success, and all that ‘give and take’of life which stand a man in good stead when he goes forth into the world, and without which, indeed, his success is always maimed and partial.” Kingsley citado por: Haley, Bruce (1978). The Healthy Body and Victorian Culture. Cambridge: Harvard University Press, p. 119.

[21] Watson, Nick J.; Weir, Stuart; Friend, Stephen (2005). The Development of Muscular Christianity in Victorian Britain and Beyond. Journal of Religion and Society. V.7.

[22]  “Huit heures de travail par jour, au maximum; le plus souvent, six ou sept ; chez nous onze, ce qui est déraisonnable. L'adolescent a besoin de mouvement physique; il est contre nature de l'obliger à être un pur cerveau, un cul-de-jatte sédentaire. Ici les jeux athlétiques, la paume, le ballon, la course, le canotage, et surtout le cricket, occupent tous les jours une partie de la journée; en outre, deux ou trois fois par semaine, les classes cessent à midi pour leur faire place. L'amour-propre s'en mêle ; chaque école veut l'emporter sur ses rivales et envoie au concours des rameurs et des joueurs soigneusement exercés et choisis. Harrow a battu Eton l'an dernier et espère vaincre encore cette année.” In : Taine, Hippolite (1871). Notes sur Angleterre. Pais: Librairie Hachette et C., p. 138. Nota: Project Gutenberg EBook.

[23] Coubertin, Pierre (1922). Mémoires Olympiques, Paris, Editions Revue “EPS”, p.25. 1ª ed. 1931.

[24] Coubertin, Pierre (1913). Essais de Psychologie Sportive, Lausanne et Paris, Libbrairie Payot & C, p.137.

[25] Nigel B. Crowther (2007). Sport in Ancient Times. USA: Greenwood Publishing Group.

O primeiros Jogos Olímpicos de Wenlok realizaram-se naquele ano.

[26] Sobre William Penny Brooks e a Sociedade Olímpica de Whenlok consultar: http://www.wenlock-olympian-society.org.uk/.

[27] In.: Bulletin du Comité International des Jeux Olympiques, nº1, Année 1, Juillet 1894.

[28] A respeito desta disputa que, no presente ensaio, apresentamos só algumas referências a fim de situarmos o leitor podem ser obtidos mais dados em: Pires, Gustavo (2012). Para Uma Cultura de Competição: Paschal Grousset (1844-1909),  Philipe Tissié (1852-1935) e Pierre de Coubertin (1864-1937). In: Celebrar a Lusofonia – Ensaios e Estudos em desporto e Educação Física. Belo Horizonte / Brasil: Casa da Educação Física, p. 329-367.

[29] Sobre o conflito de Coubertin com Tissié ver: Pires, Gustavo (2012). Para Uma Cultura de Competição: Paschal Grousset (1844-1909),  Philipe Tissié (1852-1935) e Pierre de Coubertin (1864-1937). In: Celebrar a Lusofonia – Ensaios e Estudos em desporto e Educação Física. Belo Horizonte / Brasil: Casa da Educação Física, p. 329-367.

[30] Revue Olympique, edição francesa.

[31] Lendit é uma palavra que tem a sua origem no latim “indictum”, que significa feira e corresponde a uma antiga festa universitária da idade média que se realizava anualmente que dava lugar a algumas excentricidades físicas. (Lebecq, 1997:178-179).

[32] CF: Weber, Eugen (1970). Coubertin and Sport in France Olympique Review, nº 36, p.464.

[33] A Boca de Ferro.

[34] In: Targat, H. (s/d) Premieres elements d’une Biographie de Paschal Grousset. (1844-1909). Lille : EPS. (http://visio.univ-littoral.fr/revue-staps/pdf/23.pdf). Consultado em 23/09/2009.

[35] Rioux, George (1986). Pierre de Coubertin Éducateur. In : Pierre de Coubertin Textes Choisis, Tome I, Muller, Norberth (eds). Zurich, Hildesheim, New York, p.13.

[36] Cf: Lebecq, Pierre-Alban (1997). Paschal Grousset et la Ligue Nationale de l'Éducation Physique. Paris: Harmattan, p. 172.

[37] In:Thibault, Jacques (1968). L’Oeuvre du Docteur Philippe Tissié dans l’Académie de Bordeaux. In : Education Physique et Sport, nº 95, Novembre, p. 7-12.

[38] In: Durry, Jean (1997). Tissié et Coubertin. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.77. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

http://www.coubertin.ch/pdf/PDF-Dateien/114-Durry.pdf (Consultado em 2/5/2008)

[39] Jean Durri foi encarregado por António Samaranch de organizar no COI a correspondência de Coubertin Cf. http://www.coubertin.ch/pdf/PDF-Dateien/114-Durry.pdf (acedido em 27/9/2009)

[40] “…dans la séance tenue ce matin même à la Sorbonne, vous avez été élu membre de notre Comité. Nous espérons que vous accepterez ce titre qui nous permettra d'unir - sans les confondre - les efforts qui sont faits à Bordeaux et à Paris en vue d'assurer une réforme de l'Éducation Physique“,…”.

[41] In: Durry, Jean (1997). Tissié et Coubertin. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.77. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

[42] In: Durry, Jean (1997). Tissié et Coubertin. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.78. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

[43] In: Durry, Jean (1997). Tissié et Coubertin. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.79. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

[44] In: Durry, Jean (1997). Tissié et Coubertin. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.79. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

[45] In: Durry, Jean (1997). Tissié et Coubertin. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.80. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

[46] In: Durry, Jean (1997). Tissié et Coubertin. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.80. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

[47] In: Tissié, Philippe (1901). L’Education Physique au Point de Vue Historique, Scientifique, Technique, Critique, Pratique & Esthétique. Paris. Librairie Larousse, p. 178.

[48] Melhoria pessoal ou melhoria coletiva? Trata-se do indivíduo ou da raça? Esta é a questão que a evolução atual das instituições políticas coloca supondo eu que muita gente não se apercebeu ainda da sua importância. Ao terminar desejo dizer algumas palavras: Se me perguntarem o que é hoje necessário para fazer uma bela raça desportiva, responderei: menos nervo e mais cultura cerebral; e como ambiente a calma a e a proporção. É isto que eu queria significar quando procurei definir ao criar o Olimpismo moderno. (La Revue Athlétique, ler année, 25 déc. 1890, n° 12, pp. 705-713), In: Pierre de Coubertin Textes Choisis, Tome II, Muller, Norberth (eds). Zurich, Hildesheim, New York, p.74.

[49] In: Durry, Jean (1997). Tissié et Coubertin. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.80. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

[50] Sobre o Congresso do Havre de 1897 conferir: Müller, Norbert (1997). Congrès du Havre. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p. 44-52. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm)

[51] In: Durry, Jean (1997). Tissié et Coubertin. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.81. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

[52] “Mirville, 23 juillet 1897

Mon cher Tissié

Je vois dans le Petit Havre que vous ’êtes chargé de présider le Congrès ’. Voulez-vous me permettre de couper court immédiatement à cette illusion qui n'a pu être inventée par le journaliste et que je crois provenir d'une erreur [??] de votre part.

Je suis seul Président de cette réunion et les vice-Présidents sont les membres du Comité International, mes collègues – Je vous serais reconnaissant si demain lundi vous voulez bien dire quelques mots à la séance d'ouverture mais en aucun cas je ne saurais admettre un Discours ministériel qui allongerait inutilement la séance et donnerait au Congrès un caractère officiel

qu'il n'a et n'aura pas. Je garde, vous le voyez, mes habitudes de franchise vis à vis de vous et me réjouis bien de vous revoir – A demain et tout à vous.

Pierre de Coubertin.” (Cf: http://www.coubertin.ch/pdf/PDF-Dateien/114-Durry.pdf) (acedido em 27/9/2009).

[53] In: Lamartine DaCosta (1997). Olympism and the Equilibrium of Man. Congrés du Havre. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.203-211. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

[54] In: Durry, Jean (1997). Tissié et Coubertin. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.82. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

[55] In: Durry, Jean (1997). Tissié et Coubertin. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.85. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

[56] In: Durry, Jean (1997). Tissié et Coubertin. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.83. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

[57] In:Coubertin, Pierre (1986). Textes Choisis. Zurich, Hildesheim, New York, Weidmann (3 tomes). Cordinateur de l'édition et directeur de recherche: Norbert Müller.Tome II, p. 358.

[58] In: Coubertin (1986). Une Campagne de Vingt-et-un Ans (1887-1908). In: Pierre de Coubertin Textes Choisis Thome II, Muller, Norberth (eds). Zurich, Hildesheim, New York, p.93.

[59] Sobre esta problemática ver: Pires, Gustavo (2012). Francisco Lázaro o Homem da Maratona. Lisboa: Prime Books.

[60] In: Flomoc’mmoan, J. (1962). La Génese des Sports. Paris: Payot, pp. 135-135.

[61] Este objetivo de Coubertin, por ventura o mais importante na filosofia do Olimpismo, só viria a acontecer a partir dos anos cinquenta quando, em 1952, a União Soviética que tinha aderido ao MO internacional, participou, pela primeira vez, nos Jogos Olímpicos da era moderna, Helsinquia (1952).

[62] A visão internacionalista foi-a Pierre de Coubertin buscar aos Jogos Olímpicos de Shropshire organizados, pela primeira vez, em 1859, através da “Wenlock Olympian Society” com empenho do seu mentor o Dr. William Penny Brookes (1809-1895) que, ao tempo, já mantinha relações com o grego Evangelis Zappas (1800-1865) a quem enviou a quantia de 10£ a fim de ser entregue ao vencedor de uma das provas dos Jogos Olímpicos, que Zappas organizou, pela primeira vez em 1859, na cidade de Atenas. O prémio foi atribuído ao vencedor da “corrida longa”.

[63] Lendit é uma palavra que tem a sua origem no latim “indictum”, que significa feira e corresponde a uma antiga festa universitária da idade média que se realizava anualmente que dava lugar a algumas excentricidades físicas. (Lebecq, 1997:178-179).

[64] In: Crowther,  Nigel B. (2007). Sport in Ancient Times. Westport, CT: Praeger Publishers, p. 54.

[65] Período da História da Europa entre, aproximadamente, finais do século XIV e meados do século XVI.

[66] Sérgio, Manuel (2005). Para um Novo Paradigma do Saber e... do Ser. Coimbra: Ariadne, pp 72-73.

[67] “… devienne son adjuvant direct, il faut qu'on lui assigne un but réfléchi de solidarité qui l'élève au-dessus de lui-même. C'est là une condition sine qua non de collaboration entre le sport et la morale.” In: Essais de Psychologie Sportive. Lausanne/Paris, Libr. Payot,1913, pp. 129-137.

[68] In: Revue Olympique nº 67, 1911, p. 99-100.

[69] No primeiro Congresso de Educação Física realizado em 1916 ocorreu um dos ataques mais cerrados dos médicos, dos militares e dos professores de ginástica ao desporto. A décima primeira conclusão do Congresso diz: “Que sendo a ginástica uma escola  educadora da vontade e formadora da coragem sem o propósito exclusivo de criar a força “bruta”, haja todo o cuidado na especialização do que vulgarmente se chama ginástica atlética, atletismo de força e desportos combativos. A cultura física devendo ser consecutiva a uma cuidada, rigorosa e apropriada educação física tem de ser orientada pelos ensinamentos de igiéne e da fisiologia humana, procurando-se sempre a harmonia das formas para a constituição do tipo normal, deve fazer-se rigorosa seleção para permitir a cultura física, apenas aqueles que já educaram o corpo segundo prescrições da sciencia e arte de criar o homem.” Entre nós também é significativa a obra de Alberto Marques Pereira de 1949 intitulada “O Valor Moral da Educação Física”, com palavras do Presidente da República o Marchal Carmona e prefácio de Marcelo Caetano.

[70] Coubertin, Pierre (1986). Textes Choisis. Zurich, Hildesheim, New York, Weidmann (3 tomes). Cordinateur de l'édition et directeur de recherche: Norbert Müller.Tome II, p. 361, p. 358.

[71] In: Lamartine DaCosta (1997). Olympism and the Equilibrium of Man. Congrés du Havre. Comité International Pierre de Coubertin. 17-20 Septembre, p.203-211. (http://www.coubertin.ch/cipc007.htm).

[72] “L'équilibre, dans la vie, se présente comme un résultat et non un but, comme une récompense et non une recherche. Il ne s'obtient pas en additionnant des précautions mais en alternant des efforts.” In: Coubertin, Pierre (1986). Textes Choisis. Zurich, Hildesheim, New York, Weidmann. Cordinateur de l'édition et directeur de recherche: Norbert Müller.Tome II, p. 361, p. 386.

[73] Quer dizer: “o importante nos Jogos Olímpicos não é ganhar mas sim o participar, tal como o essencial na vida não é conquistar mas lutar bem.” Esta divisa ficou-se a dever a Ethelbert Talbot bispo da Pensilvânia (USA) que a proferiu num sermão dirigidos aos atletas que participavam nos Jogos de Londres (1908). Desenvolvemos este tema num outro trabalho em conjunto com o colega João Marreiris.

[74] Por exemplo em Portugal, após a implantação da República o professores de Ginástica que incluía médicos e militares, assim que os novos dirigentes lhes prometeram uma escola de ginástica e lugares de quadro desistiram logo do MO porqur, de facto, nada tinha a ver com ele. Então foi necessário fundar o Comité Olímpico Português em 1912. A este respeito ver: Pires, Gustavo (2012). Francisco Lázaro, o Homem da Maratona. Lisboa: Prime Books.

[75] “Ce lieu commun est devenu le pendant du commentaire sur le fameux ‘mens sana in corpore sano’ auquel ne manquent pas de recourir les humanistes lorsqu'une fâcheuse aventure les oblige de louer l'activité musculaire à laquelle ils sont demeurés bien souvent, hélas ! totalement étrangers.” In : Revue Olympique, août 1910, pp. 115-118 Coubertin, Pierre (1986). Textes Choisis. Zurich, Hildesheim, New York, Weidmann. Cordinateur de l'édition et directeur de recherche: Norbert Müller.Tome II, p. 700.

[76] In: Ata da 16ª Sessão do COI realizada em Lausanne, em 6 e 7 de maio de 1913, p. 107, 109. Dès que j'ai eu l'âge d'homme et que j'ai cherché à quoi employer les ressources dont je disposais, il m'est apparu premièrement que nos grandes démocraties modernes avaient la figure de toiles d'araignée dont l'éducation serait le centre et, deuxièmement, qu'aucune éducation n'était digne de ce nom qui ne se proposait pour principe essentiel de développer toutes les forces de l'individu. En éducation physique, on était fort éloigné de ce principe. (…) Voilà pourquoi je m'en fus, il y a vingt-sept ans, chercher sur la tombe de Thomas Arnold, qui repose dans son collège de Rugby, des graines de pédagogie sportive pour les transplanter sur le continent, dans l'espoir d'une moisson bienfaisante. (107)

[77] Sobre o boxe o Coronel Balck membro do COI na Suécia informava a Sessão: “il avait essayé de décider le Comité Suédois à mettre dans le Programme un Concours de Boxe, mais il s'est rencontré à une telle opposition qu'il a du y renoncer. D'ailleurs cette branche de sports n'est pas pratiquée en Suède et il serait dans 1'impossibilité de former un Jury. Mais avant tout, l'opinion publique y est si hostile qu'elle risquerait de se révolter.” (In: Ata da Sessão de Budapeste realizada de 23 a 27 de maio de 1911, p.25).

[78] Os suecos tinham feito aprovar um artigo no regulamento dos JO (artigo XII) que dizia simplesmente que “Le Comité Suédois d'Organisation se reserve le droit de rejeter les demandes d'inscriptions sans être obligé d'en indiquer les raisons, en avisant confidentiellement le Comité National compétent” (In: Ata da Sessão de Budapeste realizada de 23 a 27 de Maio de 1911, p.9.).

[79] In: ata: Le Président rend compte d'un article du Journal le Pester-Lloyd dans lequel il est dit que, par suite de désaccords survenus dans le sein du C.I.O. les Membres Suédois auraient même renoncé à l'organisation de la Ve Olympiade. (In: Ata da Sessão de Budapeste realizada de 23 a 27 de Maio de 1911, p.28).

[80] “Le Président, après avoir interrogé les Membres du C.I.O. constate que toutes les Nations sont favorables à la Boxe et que tout le Comité est unanime à demander l'introduction de la Boxe dans les Programmes Olympiques de l'avenir.” E foi aprovada a seguinte moção: “Le C.I.O. tout étant unanime à souhaiter que les concours de Boxe figurent au Programme, est aussi unanime à déclarer qu'il prend en considération les impossibilités exposées par le Comité Suédois et que pour ne pas créer des désagréments aux Membres du Comité Suédois, renonce à réclamer des concours de Boxe, pour l'Olympiade do 1912. ” (In: Ata da Sessão de Budapeste realizada de 23 a 27 de Maio de 1911, p.25-26).

[81] Pierre-Alban Lebecq (1997) intitulado “Paschal Grousset et la Ligue Nationale de l'Éducation Physique”, p.212.

[82] Stasis no discurso de Tucídides significa o conjunto de sintomas que indicam uma perturbação interna nos indivíduos ou estados.

[83] Quando em 1921 a máxima “citius, altius, fortius”, pela primeira vez, apareceu impressa na Carta Olímpica, apareceu também associada ao logótipo do COI representado por cinco anéis de diferentes cores entrelaçados uns nos outros que, para além de significarem a união dos cinco continentes, simbolizavam também a dimensão internacionalista que Pierre de Coubertin, através da institucionalização de “lutas pacíficas e corteses” pretendia atribuir ao Movimento Olímpico.

[84] Por isso, não se pode estranhar que uma das perguntas colocadas por Demetrius Vikelas (1835-1908) que dois anos depois, ao presidir ao Congresso de Paris de 1894, aquando da institucionalização do “Comité International des Jeux Olympiques” tenha sido a seguinte: “Como fazer sobressair os benefícios da educação física no alto significado dos concursos atléticos internacionais?” Ora, se tal pergunta, por um lado, não tinha lógica nenhuma por outro revela que Vikelas estava completamente fora do contexto desportivo tal como a grande maioria daqueles que aderiram ao MO. Segundo David C. Young (1987), Vikelas, ao contrário daquilo que tem sido usualmente referido, “caiu” no Congresso de 1894 inopinadamente.  Não sabia do que se tratava e só lá foi a pedido de uns amigos da Sociedade Pan-helénica de Ginástica que, para ele, era absolutamente desconhecida. Ora bem, ele acabou eleito presidente do Comité Internacional dos Jogos Olímpicos pela simples razão de que os JO, de 1896, seriam realizados em Atenas e Coubertin necessitada de um “testa de ferro” em Atenas.

[85] Note-se que o Coronel Balck foi um dos colaboradores de Tissié no livro “L’Education Physique au Point de Vue Historique, Scientifique, Technique, Critique, Pratique & Esthétique” editado em 1901.

[86] In: Ata da Sessão do COI de 1911 realizada em Budapeste.

[87] Coubertin, Pierre (1931) In: Mémoires Olympiques.

[88] Hirschman, Albert O. (1991). A Estratégia de Desenvolvimento Económico. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura.

[89] Hirschman, 1984, p. 109.

[90] Ver: Paz, Castejon (1973). La rationalization des choix en matiére de politique sportive - esquisse d'une metodologie: Les intruments conceptuels. Strasbourg: Conseil de L'Europe.

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Story | by Dr. Radut