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Congresso Olímpico Nacional (alternativo)

O fenómeno da participação e inclusão da mulher nos Jogos Olímpicos

um contributo ético para o valor da igualdade

Cláudia Santos

Nos Jogos Olímpicos antigos as mulheres eram proibidas de entrar no estádio para assistirem aos jogos. Essa regra machista era aplicada mesmo às mães e às esposas dos concorrentes mas, surpreendentemente, não às meninas novas. De facto, era permitido às virgens assistirem aos jogos. A punição para toda e qualquer mulher que ousasse quebrar esta regra era ser jogada dos penhascos de Typaion. Contudo, Kallipateira, quebrou essa regra e não foi punida.

Kallipateira, provinha de uma família de campeões olímpicos. Os seus três irmãos, o primo e o filho eram todos grandes campeões. Por isso perante a morte do marido não hesitou em ser ela própria a treinar o filho Peisirodos. E a fim de poder acompanhar o filho no estádio em Olímpia durante as competições, Kallipateira foi obrigada disfarçar-se de instrutor masculino. Mas quando Peisirodos se consagrou campeão, o entusiasmo de Kallipateira foi de tal ordem que acabou por revelar a sua condição de mulher. Apesar disso, em honra da sua família de campeões foi decidido que Kallipateira não seria condenada à morte. Depois deste incidente foi decidido que os instrutores deveriam participar despidos dos Jogos Olímpicos, tornando o impossível às mulheres entrar disfarçadas. [i]

A problemática da participação desportiva das mulheres ao longo dos tempos para além de geralmente ter sido pouco estudada tem sido mal compreendida. Conhecem-se os trabalhos da brasileira Ana Myragaya Pretende-se, com o presente trabalho, apresentar a evolução da participação e inclusão da Mulher nos Jogos Olímpicos, como um fenómeno de construção social da representação da Mulher na sociedade desde os Jogos da Grécia Antiga. Constitui assim, um contributo para a percepção da evolução do papel da Mulher enquanto agente de grande importância na construção ética do valor da igualdade.

Para rever a posição da Mulher no fenómeno desportivo dos Jogos Olímpicos, é necessário passar por dois momentos distintos: a Grécia Helénica, onde os Jogos Olímpicos foram originalmente organizados, e os séculos XIX e XX, com a reedição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna.

Far-se-á, assim, uma viagem pela Mulher da Antiga Grécia, passando pela Mulher da Era Moderna até à atualidade, do ponto de vista da sua participação e inclusão nos Jogos Olímpicos.

A Mulher enquanto Agente Social Dominado

A Mulher, do ponto de vista sociológico bourdiano, é tida como um agente social “dominado”, reproduzindo a estrutura imposta pelo agente social “dominante”, o Homem. Diz-nos Bourdieu:

Quando, na realidade, longe de afirmar que as estruturas de dominação são a-históricas, tentarei estabelecer que são o produto de um trabalho incessante (portanto histórico) de reprodução para que contribuem agentes singulares (entre os quais os homens, com armas como a violência simbólica) e instituições, famílias, Igreja, Escola, Estado. Os dominados aplicam categorias do ponto de vista dos dominantes às relações de dominação, fazendo-as assim parecer naturais. (…) A violência simbólica institui-se por intermédio da adesão que o dominado não pode deixar de conceder ao dominante (e portanto à dominação) quando não dispõe, para o pensar e para se pensar, ou melhor, para pensar a sua relação com ele, senão de instrumentos de conhecimento que tem com ele em comum e que, não sendo mais que a forma incorporada da relação de dominação, fazem com que a relação em causa pareça natural (…).[ii]

É importante perceber a representação social da mulher no campo de ação desportivo da época e os seus esforços para alcançar novos papéis sociais para além da “mãe” procriadora. A mulher surge como alvo de violência simbólica perante a dominação do homem da época, visto como mais forte, mais robusto e com capacidades únicas e superiores de desempenho desportivo. Pierre Bourdieu retrata muito bem este fenómeno de violência simbólica: “A dominação masculina vê assim todas as condições do seu pleno exercício. A precedência universalmente reconhecida aos homens afirma-se na objetividade das estruturas sociais e das actividades produtivas e reprodutivas, baseadas numa divisão sexual do trabalho de produção e de reprodução biológica e social que confere ao homem a melhor parte, e também os esquemas imanentes a todos os habitus: moldados por condições semelhantes, e portanto objectivamente concordantes, funcionam como matrizes das percepções, dos pensamentos e das ações de todos os membros da sociedade, transcendentais históricos que, sendo universalmente partilhados, se impõem a cada agente como transcendentes. Por conseguinte, a representação androcêntrica da reprodução biológica e da representação social vê-se investida pela objetividade de um sentido comum, entendido como consenso prático, dóxico, sobre o sentido das práticas. E as próprias mulheres aplicam a toda a realidade, e, em particular, às relações de poder nas quais se encontram tomadas, esquemas de pensamento que são o produto da incorporação dessas relações de poder e que se exprimem nas oposições fundadoras da ordem simbólica.”[iii]

Representação da Mulher nos Jogos Olímpicos da Antiguidade

Na Grécia Antiga, os atenienses defendiam que as mulheres deveriam andar cobertas dos pés à cabeça para não serem vistas, impedindo-as assim de participar em competições desportivas, situação em que teriam de se expôr. Segundo a tradição da época o corpo feminino estava condicionado à maternidade.

Os primeiros Jogos Olímpicos da Antiguidade datam de 776 a.C.. Embora apenas homens pudessem competir nos Jogos Olímpicos realizados em honra a Zeus, algumas mulheres tinham permissão para assistir. Essas mulheres eram jovens e solteiras à procura de um marido (Miragaya, 2002). Elas deveriam observar os corpos fortes e falar com os seus irmãos ou pai sobre o atleta que queriam para marido.

As mulheres casadas estavam proibidas de assistir aos Jogos Olímpicos sob pena de morte. As primeiras mulheres atletas vieram de Esparta, particularmente porque os espartanos acreditavam que, as mulheres saudáveis, com condição física e que faziam exercício físico regularmente, teriam filhos saudáveis.

Aparentemente esta filosofia de inclusão pode parecer bastante diferente da filosofia

ateniense, que preconizava a domesticidade e a reclusão feminina (Luzenfichter, 1996).

Mas, no fundo, os espartanos colocavam a atividade física ao serviço da função feminina da procriação. As mulheres não tinham papel de heroínas na condição de serem ativas e atletas. A participação das mulheres não era considerada importante especialmente porque os antigos gregos eram extremamente competitivos e acreditavam muito no conceito de ‘agôn’, ou seja, competição para a excelência. Essa competição, no entanto, só acontecia entre os homens, que eram os únicos que poderiam extenuar-se fisicamente. O principal objetivo dos gregos era ser sempre o melhor em termos de condutas, atitudes, comemorações e festividades. Todos os aspectos da vida, especialmente o desporto, estavam centrados nessa crença cultural. Eles davam valor à

força, competitividade, agilidade, velocidade e outras qualidades físicas que acreditavam ser inerentes apenas ao sexo masculino. E os campeões olímpicos a serem considerados heróis tinham direito a grandes honras e privilégios.

As mulheres eram valorizadas pela qualidade dos filhos que produziam, o que as impedia de competir ou participar em atividades físicas similares, pois a mulher era vista como muito delicada e frágil, restringindo-se à vida doméstica e familiar. Essa crença, cultivada ao longo dos séculos, manteve-se até à reedição dos Jogos Olímpicos Modernos (Atenas, 1896).

Pierre de Coubertin

A partir dos Jogos Olímpicos da era moderna com Pierre de Coubertin (1863-1937), com o desenvolvimento dos hábitos culturais e a própria ciência foi-se paulatinamente assumindo que as mulheres poderiam fazer o mesmo que os homens e, manter o papel ativo de mães em simultâneo.

O Comité Olímpico Internacional

Em 1881, Ernst Curtius, um arqueólogo alemão, que dirigia um grupo de pesquisa, descobriu as ruínas do estádio de Olímpia. A descoberta alemã do sítio arqueológico e, especialmente, seu contato com William Penny Brookes foram dois dos vários fatores que evocaram no barão Pierre de Coubertin um interesse especial nos festivais olímpicos do passado, principalmente devido ao nacionalismo e à educação francesa que havia recebido (Miragaya & DaCosta, 2006). A sua vaga proposta em 1892 para um festival desportivo internacional foi inicialmente recebida com olhares estupefatos. Mas não desistiu. Enquanto secretário geral da Union of French Societies of Athletic Sports (União das Sociedades Francesas de Desportos Atléticos), visitou faculdades, universidades e clubes desportivos particulares. Em 1894, na Sorbonne em Paris, num encontro com representantes de nove países, incluindo os Estados Unidos e a Rússia, argumentou e propôs o renascimento dos Jogos Olímpicos da Atualidade numa escala internacional. Então foi fundado o Comité Olímpico Internacional (COI) a fim de organizar os Jogos Olímpicos e elaborar as regras para os eventos.

Coubertin decidiu que os primeiros Jogos aconteceriam em Atenas, onde se deu a origem dos festivais do passado, e nomeou o grego Demetrius Vikelas como primeiro presidente do COI. Com o mesmo entusiasmo com que saudou a descoberta arqueológica alemã na Grécia e com a mesma energia com que propôs o renascimento dos Jogos Olímpicos, Pierre de Coubertin manteve a sua coerência com a antiga tradição grega da não-inclusão das mulheres atletas nos Jogos.

As Mulheres Fora dos Jogos

Ele era contra a prática de desportos e atividade física pelas mulheres, tal como a maioria dos homens na sua época. Para ele, as mulheres tinham a função de procriação: “a glória de uma mulher viria através do número e da qualidade dos filhos que produzisse. Até onde concerne o desporto o papel da mulher é de encorajar seus filhos para vencer. A ela não cabe bater recordes”. Os Jogos eram “a manifestação periódica solene de desporto masculino baseado no internacionalismo, na lealdade como meio, na arte como conhecimento básico e no aplauso das mulheres como recompensa” (Boutilier & Giovanni, 1991). Segundo Lunzenfichter (1996), Coubertin afirmou que uma “Olimpíada feminina seria impraticável, desinteressante, antiestética e incorreta”.

Pierre de Coubertin opõe-se à participação das mulheres nos Jogos Olímpicos, argumentando com os valores da época:

Quant à la participation des femmes aux Jeux, j’y demeure hostile. C’est contre mon gré qu’elles ont eté admises à un nombre grandissant d’épreuves.[iv]

A Perspetiva dos Médicos

A posição das mulheres no desporto não se tratava só de uma questão ideológica como refere Paul Willis[v] tratava-se também de uma questão científica protagonizada pelos médicos. Ao tempo, o corpo médico conduzia uma campanha virulenta de higienistas que se opunha firmemente contra a prática desportiva das mulheres. Segundo Gilbert Andrieu:

pour les médecins, le sport se conjugue au masculin et la femme, dans la pratique d’un sport compétitif, car c’est bien de lui qu’il s’agit, ne peut que perdre son charme, sa féminité, et plus encore sa capacité à faire de beaux enfants.[vi]

A proposta do corpo médico baseava-se na lógica republicana da época. O desporto competitivo estava interdito às mulheres, mas em contrapartida, a educação física poderia assegurar uma boa saúde às futuras mães:

Si l’éducation physique de la femme dévient une realité scolaire, c’est parce qu’il faut atteindre la santé des futures mères, et si les hommes font du sport c’est toujours pour en faire des hommes d’action, des futures combattants. [vii]

A maioria dos médicos da época afirmava a necessidade de proteger a mulher do Desporto. A obra do doutor Maurice Boigey intitulada L’éducation physique féminine[viii], sintetiza o lugar que a mulher deve ocupar na sociedade francesa da época: “La femme n’est point construite pour combattre mais pour procréer (…) La compétition sportive tue en germe la force de la femme, espoir de notre nation (…)”[ix]

Portanto, ao contrário daquilo que se afirma com uma certa facilidade Coubertin não tinha uma perspetiva misoginia da prática desportiva feminina a maneira de ele analisar o problema tinha a ver com a cultura do tempo que entendia que se defendia a mulher afastando-a do desporto. E é por esta razão que não se verifica a participação da mulher nos Jogos Olímpicos de Atenas em 1896, primeiros jogos da modernidade. Contudo a partir dos jogos da IIª Olimpíada que se realizaram em 1900, já começaram a participar mulheres.

A Inclusão das Mulheres nos Jogos Olímpicos

Hargreaves (1994) identificou três períodos de participação de mulheres atletas nos Jogos Olímpicos da Era Moderna: de 1896 a 1928; de 1928 a 1952 e de 1952 até hoje.[x]

Período de 1896 a 1928

O primeiro período é caracterizado pela tradição da exclusão e alguns esforços para resistir a essa prática. Foi também a época em que as mulheres começaram a trabalhar fora, tendo mais acesso à educação, lutando pelo direito ao voto e tentando ajustar-se às mudanças constantes de uma nova sociedade que exigia novos papéis de género. Este período inclui os anos de 1920, quando, de acordo com Théberge (1991), havia alguma luta pelo controle do desporto feminino internacional e pela forma e definição da participação das mulheres. À medida que o progresso foi empurrando os países industrializados para frente, também pressionou uma mudança no desporto feminino internacional. Em resposta à recusa do COI em incluir o atletismo feminino nos Jogos Olímpicos, a francesa Alice de Milliatt desafiou a situação da época, fundando a Fédération Sportive Féminine Internationale (Federação Desportiva Feminina Internacional) e organizou os primeiros Jogos Olímpicos Femininos em 1922 (Drevon, 2005). Foram tão bem sucedidos que foram re-editados em 1926, 1930 e 1934 como The Women’s World Games (Jogos Femininos Mundiais), tornando-se visíveis ao COI especialmente devido ao enorme interesse do público, contrariando declarações de Coubertin, que dizia que o desporto feminino era ‘desinteressante’. Os Jogos Femininos Mundiais com seu enorme público pressionaram o COI a incorporá-los permanentemente nos Jogos Olímpicos.

Foi ainda durante o período 1896-1928 que apareceram dois pontos cruciais de debate sobre o envolvimento da mulher no desporto.

O primeiro ponto, ainda baseado na tradição e relacionado com a sabedoria médica pobre e limitada da época, com nenhuma evidência que o pudesse provar, promoveu crenças baseadas na suposta fragilidade natural da mulher e condenou a atividade física vigorosa como perigo para a saúde e o bem-estar da mulher. Consequentemente, ao longo das várias Olimpíadas, a participação de mulheres no atletismo e em desportos de equipa, que exigiam contacto físico, era feita de forma restrita e supostamente baseada no caráter da fragilidade. A mulher ainda era o ser que pro-criava, biologicamente diferente do homem, e sujeita a prescrições dos médicos, todos, claro, do sexo masculino. As mulheres foram então excluídas das modalidades de força do atletismo e lentamente as equipas femininas de desportos coletivos foram introduzidas nos Jogos Olímpicos.

O segundo ponto de debate era sobre o controlo do desporto feminino, assunto

novo para a sociedade e para as mulheres. De acordo com a tradição, as posições ativas

de comando e poder deveriam pertencer aos homens e não às mulheres. Estas deveriam

obedecer e manter-se passivas. Muitas disputas ocorreram sobre quem deveria controlar

o desporto feminino nacional e internacional e quais deveriam ser a forma e definição da participação da mulher. Para seguir a tradição mais uma vez, as mulheres continuaram excluídas, fora do controlo da sua própria participação no desporto nacional e internacional.

Período de 1928 a 1952

Hargreaves (1984) identificou este como um período de luta e de consolidação. As mulheres esforçaram-se muito para se tornarem visíveis e para consolidar a sua posição como desportistas. Este era um conceito novo não somente para elas, mas também para a sociedade como um todo. As mulheres estavam numa situação complexa que exigia a

criação de modelos de mulheres que praticavam desportos e que participavam em grandes competições como os Jogos Olímpicos. Até então elas só se podiam espelhar em modelos do sexo masculino: os heróis das Olimpíadas.

As mulheres deram um pequeno passo para a frente e garantiram o seu papel como participantes ativas no desporto e na sociedade. Esta posição de certa estabilidade foi reforçada durante os anos 40, quando as mulheres tiveram que ser mobilizadas em maior número para ocupar os postos deixados pelos homens que tiveram que ir para os

campos de batalha na Europa. A Segunda Guerra Mundial impediu as edições dos Jogos

Olímpicos dos anos 1940 e 1944. Por outro lado, a participação maciça direta e indireta e o consequente aumento da inclusão das mulheres na economia dos seus países que estavam em Guerra, contribuíram enormemente para o re-posicionamento da mulher na sociedade e para a consciencialização do lugar que ocupavam.

Durante esta época, o modelo da mulher desportiva, baseado nas diferenças biológicas e que havia sido construído durante os anos 30, foi levado para os currículos escolares e acabou limitando a forma com que as mulheres olhavam para a sua própria capacidade atlética e desportiva.

Período Pós 1952

O ano de 1952 dá início a um período de desafios à hegemonia masculina no desporto olímpico, especialmente devido a dois eventos (Boutilier & Giovanni, 1991).

O primeiro acontecimento foi a entrada da União Soviética e dos outros países do bloco do Leste como novos participantes na expansão dos Jogos que aconteceram em

Helsinque, na Finlândia, no pós-guerra. Estes países não discriminavam as mulheres atletas porque tinham objetivos e tradições culturais diferentes, nas quais as mulheres já

haviam sido incluídas há muito tempo atrás. Valorizava-se o desempenho dos atletas sem discriminação de género dos vitoriosos.

Consequentemente, o número de atletas mulheres participantes aumentou de 385 em 1948 para 518 em 1952. As novas atletas tornaram-se visíveis pelo seu desempenho de sucesso, expondo o seu treino e a sua educação específica nas escolas e faculdades (Schneider, 1996).

Já era o período da Guerra Fria. O número de medalhas significava quantas vezes esses países eram homenageados com suas vitórias. Uma vez que os países do bloco soviético tinham descoberto uma nova forma de se tornarem visíveis e de fazer propaganda política, o mundo ocidental foi forçado a preocupar-se com a sua própria posição nas Olimpíadas e a prestar maior atenção na participação e no desempenho das mulheres. Começaram então a investir no seu treino e preparação.

O segundo evento aconteceu nos anos 60. Foi o movimento feminista que ocorreu na América do Norte e na Europa como conseqüência do desenvolvimento científico e tecnológico, especialmente devido à invenção da pílula anticoncepcional, que ajudou as mulheres a enfrentar os métodos tradicionais, controlar a sua vida sexual, e planear a sua família. Os novos papéis que as mulheres assumiram durante e depois da Segunda Guerra Mundial, especialmente relacionados com a sua entrada no mercado de trabalho e consequente emancipação financeira, adicionaram-se aos avanços da ciência produzindo um re-pensar da posição da mulher na sociedade: um desafio às idéias tradicionais sobre os papéis do género.

O número de atletas olímpicas tem, assim, vindo a aumentar, embora não tenha ainda atingido uma percentagem de 50 % de participação, garantindo igualdade de género na participação dos Jogos Olímpicos.

Ano

Jogos Olímpicos

% Participação de mulheres

1896

Atenas

0

1900

Paris

2,2

2004

Atenas

40,74

Considerações Finais

É essencial considerar o desporto como um direito humano, sendo que este pertence a todos os seres humanos, homens e mulheres. As diferenças biológicas têm que ser respeitadas para que a humanidade atinja a igualdade social, especialmente no desporto. A atividade física e o desporto são direitos do ser humano e devem ser incluídos em todas as práticas.

O objetivo desejável da liderança olímpica é para que as mulheres de cada país participem nos Jogos Olímpicos como atletas, treinadoras, e administradoras, assim como, enquanto representantes nos CONs, nas federações e no COI. Aumentar o número de representantes femininas no movimento mundial é ainda uma tarefa mais desafiadora na medida em que cada país se move à sua própria velocidade em direção à igualdade de género de acordo com o seu próprio contexto (DaCosta & Miragaya, 2002).

De acordo com Schneider (1996), "qualquer organização que reivindica o desenvolvimento humano como um dos seus principais objetivos tem que apoiar a representatividade completa da mulher em todos os níveis da organização. Negar às mulheres o seu próprio espaço - do lado dos homens como iguais e parceiros - é errado e vergonhoso".

Desde 1896, é possível observar que as mulheres progrediram muito nos seus desafios e lutas. Trabalharam arduamente para se inserir na sociedade de forma igualitária e têm sido bem sucedidas em vários aspetos, conquistando a

cidadania e a sua inclusão nos Jogos Olímpicos, embora não tenham ainda atingido a igualdade em termos de números.

Persistem ainda algumas barreiras a superar, das quais a mais crucial é dividir o poder com a figura masculina que representa a tradição e o poder no desporto. As mulheres têm questionado papéis tradicionais tornando-se mais conscientes do seu lugar no terceiro milénio.

O crescimento da inclusão e participação da Mulher nos Jogos Olímpicos e a sua persistência num esforço de integração nas práticas desportivas têm contribuído para a introdução e reprodução de alguns dos princípios fundamentais do Olimpismo, expressos na Carta Olímpica ao longo do tempo.  Farei referência apenas aos que estão diretamente relacionados:

- O Olimpismo é uma filosofia de vida que exalta e combina de forma equilibrada as qualidades do corpo, da vontade e da mente. Aliando o desporto à cultura e educação, o Olimpismo procura ser criador de um estilo de vida fundado no prazer do esforço, no valor educativo do bom exemplo, na responsabilidade social e no respeito pelos princípios éticos fundamentais universais;

- O objetivo do Olimpismo é o de colocar o desporto ao serviço do desenvolvimento harmonioso da pessoa humana com vista em promover uma sociedade pacífica preocupada com a preservação da dignidade humana;

- A prática do desporto é um direito do homem. Todo e qualquer indivíduo deve ter a possibilidade de praticar desporto, sem qualquer forma de descriminação e de acordo com o espírito Olímpico, que requer entendimento mútuo, com espírito de amizade, solidariedade e fairplay;

- Toda e qualquer forma de descriminação relativamente a um país ou a uma pessoa com base na raça, religião, política, sexo ou outra é incompatível com a pertença ao Movimento Olímpico. 

Referências Bibliográficas

Andrieu, G. (1990), L’éducation physique au xxe siècle: une histoire des pratiques, Joinville-le-Pont, collection “Les cahiers de l’EPS”.

Bourdieu, P. (1999), A Dominação Masculina, Oeiras, Celta Editora.

Comité Olímpico Internacional; Mestre, A. & Lopes, F. (trad.) (2012), Carta Olímpica, Lisboa, Instituto Português do Desporto e Juventude.

Boutilier, M. & Giovanni, L. (1991), Ideology, Public Policy and Female Olympic Achievement: a Cross-National Analysis of the Seoul Olympic Games, In Landry, F., Landry, M. & Yerlès, M. (Eds), Sport ... The Third Millenium, p. 397 – 412.

Boigey, M. (1925), L’éducation physique féminine, Paris, libr. Félix Alcan.

Coubertin, P. (1955), Memorias Olimpicas, Lausanne, Bureau Internacional de pedagogia Deportiva.

DaCosta, L. & Miragaya, A. (2002), Worldwide Experiences and Trends in Sport for All, Aachen: Meyer & Meyer.

Drevon, A. (2005), Alice Milliat La passionaria du Sport Féminin, Paris, Vuibert.

Hargreaves, J. (1984), Women and the Olympic phenomenon, In Tomlinson A. & Whannel, G. (Eds), Five Ring Circus. London, Pluto Press p. 53-70.

Luzemfichter, A. (1996), Women and Olympism. International Olympic Academy, Paper presented at the 36th International Session for Young Participants - IOA Report, Ancient Olympia.

Miragaya, A. (2002), The female Olympian, In DaCosta, L. Olympic Studies Current Intellectual Crossroads, Rio de Janeiro, Editora Gama Filho.

Miragaya, A. & DaCosta, L. (2006), The Process of Inclusion of Women in the Olympic Games, Tese de doutorado, Universidade Gama Filho

Monnin, É.(2008), L’Olympisme à l’école?, France, Presse universitaires de Franche-Comté, Pôle éditorial multimédia de l’université de technologie de Belfort-Montbéliard.

 Müller, N. (coord.) (1986), Pierre de Coubertin, Textes choisis, Zurich, Weidmann, 3 vols.

 

 


[i] Pausanias, Description of Greece V.6.7-8, tr. by S.G. Miller.

[ii] Bourdieu, P. (1999). A Dominação Masculina, Oeiras, Celta Editora, pg. 30.

[iii]Id., pg. 29.

[iv] Müller, N., Pierre de Coubertin, Textes choisis, op. Cit., p.477.

[v] Willis, Paul (1982).Women in Sport in Ideology- In: Sport, “Culture and Ideology”. London: Routledge & Kegan Paul, pp. 117-135.

[vi] Andrieu, G. (1990). L’éducation physique au xxe siècle: une histoire des pratiques, Joinville-le-Pont, collection “Les cahiers de l’EPS”, p. 60.

[vii] Id., p. 61.

[viii] Boigey, M. (1925). L’éducation physique féminine, Paris, libr. Félix Alcan.

[ix] Andrieu, G., L’éducation physique au xxe siècle: une histoire des pratiques, op. cit, pp. 60-61.

[x] Hargreaves, Jennifer (1994). Sporting Females: Critical Issues in the History and Sociology of Women's Sports. London: Routledge

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Story | by Dr. Radut