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Congresso Olímpico Nacional (alternativo)

Entre o Passado e o Futuro

Manuel Sérgio

Entre o Passado e o Futuro é o nome de um livro de Hanna Arendt. Posso até começar com uma frase deste livro:

“O testamento, que indica ao herdeiro aquilo que legitimamente lhe pertence, transmite ao futuro os bens do passado. Sem testamento ou, para aclarar a metáfora, sem a tradição – que escolhe e nomeia, que transmite e preserva, que indica onde se encontram os tesouros e qual o seu valor – é como se não existisse continuidade no tempo e como se, por conseguinte, não houvesse nem passado nem futuro, em termos humanos, mas apenas a perpétua mudança do mundo e o ciclo biológico dos seres vivos” (Relógio d´Água Editores, 2006, p.19).

Costuma dizer-se que a civilização ocidental assenta sobre quatro pilares:

  1. a filosofia grega;
  2. o espírito jurídico latino;
  3. a religião judaico-cristã e o espírito crítico que nasce com o Renascimento.

Mas... o que distingue o nosso tempo?

A Nova Física diz-nos que a realidade se revela mais como possibilidade do que como causalidade rigorosa e onde, por isso, a fé e a ciência cabem inteiramente. E assim, diante da realidade, há um conhecimento causal e experimental e matematizável e também uma vivência mística da “Unidade fundamental de todas as coisas”. A compreensão do Todo pede bem mais do que aquilo que os laboratórios dão. A fé é necessária, até como nova forma de conhecimento das coisas materiais, já que a matéria é bem mais do que matéria. No fundo, ela é Forma, Simetria, Relação. A crise ecológica do nosso tempo resulta do facto de não descobrirmos Espírito na Matéria. Nesta conformidade, Ciência e Fé completam-se. É que, nem uma, nem outra, descrevem completamente a realidade. Não têm razão, portanto, o positivismo e o neopositivismo, nem todo o tipo de fundamentalismo religioso, porque onde há Espírito há Matéria e onde há Matéria há Espírito.

A Ditadura do Lucro

O neoliberalismo, ou o “pensamento único” que nos prende a um modelo económico globalizante e excludente, afinal o “pensamento único”, ao serviço dos grandes interesses ou da “ditadura do lucro”; a sociedade do espectáculo onde naufragam valores imprescindíveis a uma vida com dignidade – resultam do desconhecimento da Nova Ciência que nasce com o anúncio de Koyré, sustentando que se passou de um “mundo fechado” a um “universo infinito”. Depois de ouvirmos falar alguns economistas que são políticos e alguns políticos que são economistas, que primam ambos pelo cálculo e pelas estatísticas, somos tentados a concluir que nos encontramos diante de pessoas da mais atualizada ciência. Só que, assim como uma teoria física é uma imagem construída por nós (apenas por nós), segundo o físico alemão Heinrich Hertz, também a economia que os neoliberais nos apresentam é, toda ela, feita de acordo com os interesses da “classe dominante”. Por isso, num mundo onde proliferam os economistas de renome internacional, nasceu um novo colonialismo onde o que é bom para a General Motors é proclamado como coisa boa, para o mundo todo! E, num tempo onde se multiplicam as instituições de solidariedade social, a globalização não passa por vezes (demasiadas vezes) de cocacolonizar e recolonizar os países mais pobres, ou que os Estados perderam a sua identidade, pois que é o dinheiro que tudo governa, ou ainda que o desenvolvimento tecnológico, atraente e garrido, não concorre ao termo do desemprego, ou que o Estado de Direito é uma falácia, dado que as leis são “as leis da selva”. De facto, como se provou, não era o Iraque de Saddam Hussein a causa principal da crise generalizada que nos avassala mas, acima do mais, a “divinização” de um sistema económico que põe a ciência ao serviço da mais flagrante injustiça social. Aliás, para os pseudo-cientistas que nos governam, as coisas não são boas por serem verdadeiras ou não, mas por serem, ou não, vendáveis. Por outras palavras: as coisas só são boas, se dão lucro! Qualquer consideração de ordem moral não entra nas contas destes insignes matemáticos!

O Futuro Está por Construir

Se se passou do capitalismo à globalização, tal se deve ao facto de ser esta a forma actual do capitalismo! Mal da humanidade se tudo isto fosse o “fim da História”. Pelo contrário: tudo isto há-de ser Passado. De acordo com Max Weber, foi o ascetismo protestante que deu ao lucro, como fim em si mesmo, a grande motivação para se transformar no grande ídolo do nosso tempo. O Futuro está por construir. Uma sociedade desenvolvida deverá entender-se, não só em função da alta tecnologia que produz, mas sobretudo sobre os benefícios dessa tecnologia para todos os cidadãos. Sabemos bem como uma tecnologia, sem outros valores, conduz a inúmeros crimes ambientais. Cientificar não pode significar desumanizar. A primeira revolução industrial caracterizou-se pela domesticação da energia. Começou, em Inglaterra, por volta de 1750, com a utilização da máquina a vapor. No entanto, porque a máquina a vapor era de alto custo, o capital  tornou-se em fator de produção, juntamente com a mão-de-obra. É a época dos caminhos-de-ferro, das teorias de Marx, dos romances de Zola, do carvão como principal fonte de energia e do nascimento do desporto. A esperança de vida aumenta, com as vacinas e a higiene.

A Revolução da Informação

A segunda revolução industrial palmilhou 95 anos, quase todos percorridos a pretender domesticar a electricidade. Num dia de 1806, Hegel contemplou Napoleão, a cavalo, numa rua de Berlim. Ficou extasiado e, em carta, endereçada a um amigo, nesse mesmo dia, grafou: “vi o espírito a cavalo”. A Revolução Francesa, prolongada por Napoleão, representava, para o autor da Fenomenologia do Espírito, o triunfo definitivo da Razão e, como tal, o paradigma da ação era o domínio de tudo o que fosse natureza. A educação física fazia o mesmo: o físico era para servir os ditames da Razão! Com o ano de 1975, a terceira revolução acontece: a da informação! Mas o ano de 1975 findou prenhe de lições, com a derrota dos Estados Unidos, na guerra do Vietname. Como foi possível que um esquálido David tivesse vencido um Golias como outro a História não regista? Foi a vitória da informação e da inteligência estratégica sobre a força bruta de um material de guerra pesado e devastador. Desapareceu então o trabalho, sem o conteúdo da informação. A organização de uma empresa, por exemplo, deve modelar-se a partir do esquema informático. Hoje, a informática e a telemática pontilham a sociedade, com múltiplos microcentros de decisão. É o tempo do trabalho em rede, onde tudo tem a ver com tudo.

Olimpicamente

Os Jogos Olímpicos realizaram-se a vez primeira, em 1896, sob a inspiração de Pierre de Coubertin. A segunda revolução industrial colocava a Razão, como se viu, em alto pináculo. Não havia muitas certezas, mas algumas despontavam com a força dos séculos. Por isso, Coubertin perguntou à Grécia clássica como recriar os Jogos Olímpicos. Não imitar o que a História Clássica ressoava era herético e afrontoso. Ora, em plena revolução da informação, em plena sociedade de consumo, o passado passou e não há metanarrativas (hoje, com olhos de tigre moribundo) que lhe deite as mãos. A morte do marxismo, do fascismo, do nazismo e a crise que se abateu sobre o cristianismo deixam a nossa pós-modernidade com muitas interrogações sobre o ser, o conhecer e o valer. Sartre, Merleau-Ponty, Paul-Ricoeur, Gilles Deleuze, Michel Foucault, Jacques Derrida,  Gaston Bachelard, Theodor Adorno, Max Horkheimer, Thomas Kuhn, Karl Popper, Ludwig Wittgenstein, etc., etc., todos eles raciocinando na perspetiva da época em que viveram, deixaram-nos a nadar num mar de incertezas. Um problema decorre de uma problemática e nela se movimenta; daí, o não haver problema que não seja complexo. Se, como diz Koyré, passámos de um “mundo fechado” a um “universo infinito”, a incerteza é a companheira fiel da existência; por isso, uma ação  é quase sempre uma aventura. Uma ciência não pode viver sem ética, sob pena de desumanizar e desumanizar-se; daí, a economia da globalização neoliberal permitir que dois terços da humanidade continuem imersos na fome, na miséria, na exclusão. Se a motricidade humana supõe a liberdade, tanto no plano do conhecimento, como no  plano da ação e no plano do sentimento - o homem-máquina, o homem-light, o homem-multitudinário não podem confundir-se com o “homem integral” que há-de nascer da prática desportiva. Segundo a Carta Olímpica: “A prática desportiva é um direito humano. Qualquer pessoa deve ter a possibilidade de praticar desporto, de acordo com as suas necessidades”. O Movimento Olímpico é explícito: “O Movimento Olímpico compreende as acções para o exercício do Olimpismo e tem como objectivo contribuir para a construção de um mundo melhor e mais pacífico, utilizando-se do Desporto para educar a juventude. O Desporto, no contexto do Olimpismo, e como meio do Movimento Olímpico, tem que ser praticado sem nenhum tipo de discriminação e deve estar sempre baseado no espírito olímpico que, segundo a Carta Olímpica, deve abranger a compreensão mútua, o espírito de amizade, a solidariedade e o fair play”.

A Declaração do Milénio

Em Setembro de 2000, por ocasião da Assembleia Geral das Nações Unidas, cento e oitenta e nove chefes de Estado e do Governo assinaram a chamada “Declaração do Milénio”. O objectivo primeiro desta Declaração era concretizar um conjunto de acções políticas, que permitissem alcançar oito objectivos:

  • Erradicar a pobreza extrema e a fome;
  • Alcançar o ensino primário universal;
  • Promover a igualdade dos géneros e a autonomia da mulher;
  • Reduzir a mortalidade infantil;
  • Melhorar a saúde fraterna;
  • Combater o HIV/SIDA
  • Garantir a sustentabilidade do meio ambiente;
  • Fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento.

Esta Declaração, repete-se, foi assinada, sem se vislumbrar um relâmpago de rejeição em qualquer um dos subscritores. De facto, os progressos da tecnociência permitem-nos sejamos a primeira geração que pode “erradicar a pobreza extrema e a fome”. Em Londres, em Fevereiro de 2005, Nelson Mandela (para mim, herói e santo) proclamou: “às vezes, toca a uma geração ser grande. A vossa pode ser essa grande geração. Deixai que a vossa grandeza floresça. A tarefa não vai ser fácil. Mas não fazê-lo seria um crime contra a humanidade, contra o que eu peço que nos revoltemos”.

De uma Economia Moral para um Desporto Moral

O olimpismo, que pretende ser uma macroética planetária, nesta época de globalização informática e financeira, poderia transformar-se numa associação mundial, para o desenvolvimento, através do desporto. A preservação da dignidade humana e da igualdade de cada indivíduo, em relação aos demais, são duas ideias plenamente incorporadas no olimpismo. Assim, porque em muitos dos países com comités olímpicos é flagrante a desigualdade económica e social, bem seria que nas reuniões entre o COI e alguns comités olímpicos nacionais, se colocasse na ordem-do-dia a criação de um desporto que levasse aos seus praticantes um sólido espírito crítico diante da condição de pobreza da maioria dos seus concidadãos. E. P. Thompson designou por «economia moral» uma economia baseada em critérios extra-económicos e não monetários (in Michael Lowy, “De Marx ao ecosocialismo”, in Emir Sader e Pablo Gentile (orgs.), Pós-neoliberalismo II – Que Estado para a Democracia?, Vozes, Petrópolis, 1999). Por que não assumir o COI um “desporto moral”? Entre o Passado e o Futuro, está uma concepção substantiva de Justiça (Rawls), que deverá realizar-se nas instituições políticas, económicas e sociais – que deverá realizar-se portanto no olimpismo.

Esperemos que o COI assuma uma “moral universalista”, isto é, queira ser Futuro! O suposto caráter ético de uma instituição universal apenas é defensável, se se conceber essa instituição como uma organização normativa global. O COI pode ser isto mesmo... sempre que queira!

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Story | by Dr. Radut