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Competição

No poema didáctico “Os Trabalhos e os Dias”, Hesíodo percebe-se como o génio grego pós-homérico conviveu bem e legitimou esse instinto magnífico que é o “agôn”, consubstanciado numa vida de luta e de vitória.

Hesíodo defendia a importância da competitividade entre os homens, na medida em que só assim eles buscam superação e manifestam a excelência das suas obras.

No entanto, para Hesíodo existiam na Terra, não uma, mas duas deusas da discórdia, com maneiras de ser completamente opostas. Uma delas é cruel, fomenta a má guerra e a discórdia, “nenhum mortal a deve tolerar” comenta o filósofo do super-homem.

E continua, esta Éris que é a primogénita, deu à luz a negra noite, pelo que a ela se ficam a dever os atributos de inveja, rancor e cobiça, na medida em que conduz os homens a “lutas malignas de extermínio uns contra os outros”.

O desporto moderno ao entregar-se ao deus Hermes quando só pensa em dinheiro, corre o risco de passar a ser dominado por esta má Éris.

A outra Éris, segundo Hesíodo, foi dada por Zeus aos homens

Ela move ao trabalho até o homem desajeitado, e aquele que nada possui repara noutro, que é rico, apressa-se, do mesmo modo, a semear e a plantar e a governar bem a sua casa; o vizinho rivaliza com o vizinho que procura alcançar a prosperidade. Por isso, quanto mais nobre for um grego, tanto mais viva será a chama da ambição que dele irrompe, consumindo todo aquele que cruze a sua trajectória.

Esta segunda Éris é boa para os homens na medida em que os adverte do carácter efémero do seu destino.

Nesta perspectiva, a predisposição para a competição não se circunscrevia apenas às actividades físicas. Ela projectava-se nos jogos, na política, nas artes, no trabalho, onde cada um procurava vencer os adversários à altura de si, de maneira a dar um eterno prosseguimento à vontade de competir.

Assim, os gregos superavam a má Éris, representada pelos impulsos de aniquilamento e de morte. Na busca do ideal de excelência procuravam evitar o excesso, o orgulho, a insolência, a violência desmedida, a que chamavam “hybris”, pelo que a boa Éris valorizava o comedimento próprio da excelência que integrava a visão que tinham do mundo.

E assim, nas palavras do filósofo:

Cada grego ilustre passava a outro o facho da competição porque cada grande virtude excitava uma nova grandeza. (Nietzsche, Friedrich (2003). A Competição en Homero. In: “A Competição em Nietzsche”, Introdução, tradução e notas de Rafael Gomes Filipe, Lisboa, Veja, col. Passagens).

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Dicionario | by Dr. Radut