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Comité Olímpico de Portugal

Análise da Situação Financeira - Balanço e Contas de 2011

José Pinto Correia

Exposição de Motivos

Tendo por base o “Balanço e Contas do Comité Olímpico de Portugal (COP) de 2011”, que se encontra devidamente publicado, iremos proceder à realização de uma análise da respectiva situação financeira, usando para tal as bases teóricas e práticas da denominada teoria clássica.

Este trabalho tem o objectivo de fornecer indicações sobre a sustentabilidade e adequação da situação financeira do COP no período em análise (2010 e 2011), também o de poder ser um instrumento que possa servir para divulgar este tipo de informação financeira por todos quantos têm interesse nas actividades do COP e na introdução de um maior nível de transparência das actividades de governação financeira das organizações desportivas nacionais.

É claro que este trabalho é um exercício feito a partir de fora da respectiva organização (o COP), baseado apenas no conhecimento dos seus documentos contabilísticos oficiais e devidamente certificados, pelo que ganharia muito em poder ser complementado com uma maior intimidade com os documentos contabilísticos reais e as informações pertinentes dos respectivos gestores, o que a verificar-se permitiria realizar também a abordagem pela metodologia da teoria funcional da análise financeira e daria indicações complementares sobre o equilíbrio e a sustentabilidade financeira do COP.

A Gestão e a Análise Financeira

A gestão financeira de uma qualquer organização deve preencher três requisitos essenciais:

- Assegurar à organização a estrutura financeira mais adequada,

- Manter a integridade do capital e a sua rendibilidade ou eficiência;

- Permitir a constante solvibilidade da organização.

Uma boa gestão financeira deve consistir essencialmente em adaptar de forma contínua a natureza e o montante das aplicações que correspondam às efectivas necessidades de gestão da organização, mediante o seu financiamento com os recursos possíveis (fontes de financiamento), tendo em consideração os encargos e demais condições de obtenção de tais recursos, a sua escassez, a estrutura patrimonial, a independência da organização, ou ainda a própria segurança e integridade dos capitais próprios (Ferreira, 1976).

“A análise financeira, segundo Neves (2009), visa examinar a evolução da situação financeira e da rendibilidade da organização, com vista a detectar tendências futuras e a dar recomendações sintonizadas com a estratégia da organização.” (Castro, 2011). Por conseguinte, a análise financeira recorre a técnicas que permitam elucidar a situação económico-financeira da organização, ilustrem a tendência de evolução da mesma e facilitem antever soluções de correcção e/ou de reequilíbrio.

Um primeiro patamar da análise financeira é o resultado da apreciação dos rácios de liquidez, cujo mais importante e sintético é o do fundo de maneio. Este indicador exprime a medida em que as exigências correntes de exploração (o chamado activo corrente ou circulante) são financiadas no todo ou em parte pelas exigibilidades de curto prazo, o denominado passivo corrente.

A insuficiência de fundo de maneio assume papel de destaque na apreciação da situação financeira da organização e resulta de parte do activo corrente não ter financiamento de curto prazo, o que determina a existência de dificuldades de tesouraria e dá nota de uma situação financeira desequilibrada.

Por outro lado, os denominados rácios de financiamento complementam a análise feita através do rácio de liquidez e estabelecem relações entre o passivo, o activo e os capitais próprios da organização ou elucidam sobre os meios libertos com a exploração (autofinanciamento), tendo como objecto avaliar a capacidade da respectiva organização em solver os seus compromissos ou exigências de médio e longo prazos.

Metodologia

A análise da situação financeira do COP que aqui é realizada tem por base o respectivo “Balanço e Contas do Exercício de 2011”, devidamente certificados pelo Conselho Fiscal e pelo Revisor Oficial (a empresa BDO).

Face à impossibilidade de aceder aos documentos detalhados da escrituração contabilística efectuada, opta-se por realizar a análise de acordo com os fundamentos e mecanismos da denominada teoria clássica. Esta teoria baseia-se na análise de um conjunto relevante de rácios de liquidez, com particular destaque para o do fundo de maneio, e de rácios de financiamento que medem as relações entre diversos elementos do balanço e permitem retirar indicações válidas sobre a estrutura financeira e o modo relativo como as respectivas grandezas contabilístico-económicas se correlacionam.

Como diz Sá Silva (2010), a teoria tradicional “propõe o estudo do equilíbrio financeiro a partir da confrontação da temporalidade dos recursos e aplicações da organização ou a partir da confrontação temporal da exigibilidade das responsabilidades da organização com a liquidez dos respectivos activos.” Convém ainda referir que o conceito de equilíbrio financeiro tem por objecto a adequação dos fluxos de financiamento à estratégia de investimento e de gestão do ciclo de exploração da organização; pelo que a garantia do equilíbrio financeiro implica que os capitais utilizados por uma organização para financiar os seus investimentos devam poder permanecer na organização pelo lapso de tempo que corresponda, no mínimo, ao da duração desses mesmos investimentos.

Normalmente, para introduzir a dinâmica da gestão nestas análises da situação financeira usam-se dados relativos a um período consecutivo de três anos de exercício. A nossa apreciação para o COP tem, todavia, a limitação subjacente ao facto de apenas respeitar à apreciação dos dois anos últimos anos de exercício com contas já publicadas, respectivamente os de 2010 e de 2011.

Serão, assim, analisados os seguintes rácios, adoptando as orientações de Baptista & Andrade (2004, 2009):

- Rácio de fundo de maneio ou de liquidez geral;

- Rácio de endividamento,

- Rácio de solvibilidade;

- Rácio de estrutura de endividamento;

- Rácio de período de reembolso;

- Rácio de margem de autofinanciamento.

Com excepção do rácio de fundo de maneio que é de liquidez, todos os demais caiem sobre a tipologia de rácios de financiamento.

A Tabela de Rácios do COP

Pode resumir-se na tabela seguinte o conjunto de rácios considerados nesta análise, com as suas denominações conhecidas, os correspondentes métodos de cálculo e os respectivos valores obtidos directamente do balanço oficial de 2011 do COP:                                                                                                                                                                  

Rácio Método de Cálculo 2010 2011
Fundo de maneio Ativo corrente 598.705 564.910
Passivo corrente 1.257.054 1.075.443
Endividamento Passivo total 1.719.361 1.517.750
Ativo total 1.952.669 1.880.545
Solvibilidade Capitais próprios 233.307 362.795
Passivo total 1.719.361 1.517.750
Estrutua de endividamento (1) Passivo corrente 1.257.054 1.075.443
Passivo total 1.719.361 1.517.750
Estrutua de endividamento (2) Passivo N. corrente 462.306 442.306
Passivo total 1.719.361 1.517.750
Período de renmbolso Passivo N. Corrente 462.306 442.306
Autofinanciamento 237.822 351.384
Margem de autofinanciamento Autofinanciamento 237.822  
Resultado exercício 110.730  

   

Nota:Podiam ainda analisar-se outros rácios, como o de rendibilidade dos capitais próprios, o de rendibilidade do activo total, o de rendibilidade da exploração, o de rendibilidade do capital social ou o de cobertura do imobilizado. Mas estes apenas acrescentariam mais alguns pormenores ao essencial da análise que foi feita com base na bateria de rácios escolhida.

Análise dos Rácios

Passemos, então, à apreciação de cada um dos diferentes rácios acima enunciados, fazendo considerações relevantes sobre a situação financeira do COP que deles pode decorrer.

1.  Fundo de Maneio

O COP tinha em 2011 um activo total no valor de 1.880.545 €, do qual 564.912 € correspondiam ao activo corrente ou circulante e 1.315.633 € correspondiam ao activo fixo ou não-corrente. Quanto ao passivo total, o COP apresentava um passivo de curto prazo ou corrente de 1.075.443 € e um passivo de médio e longo prazo ou não-corrente de 442.306 €. O capital próprio ou fundos próprios eram no montante de 362.795 €, que incluíam 199.625 € de resultado líquido do exercício.

A teoria clássica da análise financeira estabelece como indicador essencial da margem de segurança que uma empresa ou organização apresenta a nível financeiro o cálculo do respectivo fundo de maneio. Este rácio/indicador é dado pelo quociente entre os capitais que constituem o seu activo corrente e os que formam o seu passivo corrente. E um excesso dos primeiros sobre os segundos representa a margem de segurança financeira com que a empresa ou organização enfrenta as suas actividades continuadamente.

Ora, no caso do COP o rácio de fundo de maneio em 2010 e em 2011 é negativo, o que permite dizer que a organização apresentou assinaláveis dificuldades permanentes de cariz financeiro, com expressão mesmo sobre a sua gestão atempada e contínua de tesouraria. Assim, vejamos:

·         Em 2010, o passivo corrente foi de 1.257.054 € contra um activo corrente de 598.705 €, o que significou que os capitais de curto prazo apenas cobriram 47.6% das exigibilidades do mesmo cariz temporal e deixaram essas necessidades de financiamento cobertas por capitais de médio e longo prazo em cerca de 650.000 €, prejudicando as disponibilidades financeiras e a própria actividade permanente de tesouraria;

Em 2011, o passivo corrente foi de 1.075.443 € contra um activo corrente de apenas 564.912 €, o que significou que os capitais de curto prazo apenas cobriram 52.5% do exigível de curto prazo e deixaram essas necessidades remanescentes de financiamento cobertas por capitais de médio e longo prazo em cerca de 500.000 €, prejudicando continuadamente as disponibilidades financeiras de actividade corrente e a própria actividade de tesouraria programada.

O que se pode concluir deste rácio de liquidez geral é que a situação financeira do COP em 2010 e em 2011 está francamente desequilibrada, apresentando um fundo de maneio negativo de proporção assinalável, o que revela a insuficiência de capitais no activo corrente relativamente aos valores das exigibilidades de curto prazo e conduz a que seja necessário recorrer em permanência a capitais permanentes para suprir essas insuficiências. Acresce que esta situação tem repercussões na própria actividade de tesouraria e acarreta dificuldades constantes em solver os compromissos correntes de natureza financeira, o que também irá ter incidência em dilacções de prazos de pagamento a fornecedores e outros credores (entre os quais o próprio estado).

Aliás, as necessidades de fundo de maneio do COP são ainda bastante maiores do que as insuficiências de 650.000 € e 500.000 € acima referidas, porque essas apenas fariam com que o fundo de maneio fosse igual à unidade, equilibrando os valores do numerador e do denominador do rácio, quando a teoria e a prática organizacional recomendam rácios médios de fundo de maneio que se cifrem em entre o 1.2 e 1.5 unidades.

2. Rácio de Endividamento

Este rácio estabelece a comparação entre o conjunto de capitais que são fornecidos à organização por entidades a ela exteriores, reunindo o passivo corrente e o de médio e longo prazo, e o conjunto integral de aplicações financeiras que compõem o activo da organização. Constatamos que para o COP aqueles capitais externos foram a expressão de que o total do activo foi financiado por actores externos à organização em 88,1% no ano de 2010 e em 80.7% no de 2011. E estas percentagens medem exactamente esse grau de dependência do COP relativamente a fontes de financiamento que lhe eram exteriores.

3. Rácio de Solvibilidade

Este indicador permite caracterizar o grau de independência financeira de uma organização, dado que mede a relação entre os capitais ou fundos próprios e o passivo total, dando a ideia da forma autónoma como cada organização se financiou no total das suas responsabilidades.

No caso do COP, relativamente a este indicador da solvabilidade, encontram-se os seguintes valores: para 2010 a solvabilidade é de 13.6%, e para 2011 há uma melhoria passando o indicador para 23.9%. Estes valores significam que o COP apenas financiava entre 13% e um pouco mais de 23% com capitais ou fundos próprios as suas responsabilidades financeiras totais (expressas no total do passivo), o que significa que tinha uma solvabilidade financeira bastante reduzida, estando muito dependente dos diversos tipos de financiadores externos (expressos nos seus passivos corrente e não-corrente).

4.      Rácio de Estrutura de Endividamento (1) e (2)

Este rácio permite estudar a estrutura do endividamento da organização, fazendo a relação de cada um dos dois tipos de passivo, o corrente e o de médio e longo prazo, no total do passivo. O que se verifica no COP é que o passivo corrente ou de curto prazo assume papel determinante na respectiva estrutura do passivo, tendo representado 73.1% em 2010 e 70.9% em 2011; tal implica que o passivo não-corrente tenha representado apenas 26.9% e 29.1%, respectivamente, em cada um daqueles anos.

5. Rácio do Período de Reembolso

Este indicador permite relacionar o nível de endividamento a médio e longo prazo com a respectiva capacidade da organização libertar meio financeiros, através da sua exploração ou actividade anual. E no caso do COP verifica-se que os meios libertos por autofinanciamento melhoraram em muito a sua proporção no passivo não-corrente, dado que este representou praticamente o dobro do autofinanciamento em 2010 (mais exactamente 1.94 vezes) e em 2011 apenas excedia em 26% esse nível de autofinanciamento (era só de 1.26 vezes). Tais dados também significam que o COP nestes dois anos aumentou muito apreciavelmente os seus meios libertos, que passaram de 237.822 € em 2010 para 351.384 € em 2011.

6.  Rácio da Margem de Autofinanciamento

Este rácio relaciona o nível de autofinanciamento com os proveitos operacionais ou, como aqui utilizámos, com o resultado do exercício. Verifica-se neste caso que o COP teve em 2010 uma capacidade de gerar meios libertos que é mais do dobro dos respectivos resultados do exercício (mais exactamente em 2.15 vezes) e que em 2011 reduz ligeiramente essa relação para 1.76 vezes. Tal ocorre neste último ano, apesar da melhoria do autofinanciamento, porque há correlativamente um mais apreciável aumento do respectivo resultado do exercício (que se cifrou já em 199.625 €).

 

Considerações de Gestão Financeira

O fundo de maneio significativamente negativo em ambos os anos significa que o COP tinha uma estrutura de financiamento apreciavelmente desequilibrada, com um exigível de curto prazo (passivo corrente) muito superior ao seu activo corrente, o que fazia com que uma parte do activo não-corrente (imobilizado) fosse financiada por aquele passivo corrente em boa parte.

A alteração destas circunstâncias e a tentativa de equilibrar a estrutura de financiamento do COP poderia implicar decisões de gestão financeira como as seguintes: uma transformação do passivo corrente em passivo não-corrente (de médio e longo prazo), e/ou um aumento de capital social, ou ainda a redução, por alienação ou celebração de contrato de cedência de uso, de parte do imobilizado. Aliás, o rácio da estrutura de financiamento aponta nesta mesma linha ao demonstrar que o passivo total tem uma proporção bastante elevada de passivo corrente (mais de 70%, em qualquer dos anos).

A solvabilidade pode também recomendar como hipóteses de reconfiguração financeira a adopção da decisão de gestão para conseguir o aumento do grau de cobertura do passivo total pelos capitais próprios, eventualmente através do reforço do capital social, dado que os resultados do exercício estão no caminho certo, são muito apreciáveis e têm aumentado apreciavelmente aproximando-se de 200.000 € em 2011.

O autofinanciamento, que corresponde aos meios libertos efectivamente com cada exercício, tem melhorado apreciavelmente e já representou mais de 350.000 € em 2011. Esse facto ilustra o bom desempenho dos exercícios, com expressão nos respectivos resultados, respectivamente, de 110.730 € em 2010 e de 199.625 € em 2011. Aliás, o nível de autofinanciamento chegaria para liquidar todo o passivo de médio e longo prazos em menos de dois anos com o rácio de 2010 e levaria menos de um ano e meio quando considerado o indicador de 2011.

Anexo – Dados Base do Balanço e Contas de 2011 do COP

Rubricas do Balanço

2010 (em €)

2011 (em €)

Activo Corrente

598.705

564.912

Passivo Corrente

1.257.054

1.075.443

Passivo Total

1.719.361

1.517.750

Activo total

1.952.669

1.880.545

Capitais Próprios

233.307

362.795

Passivo Não-Corrente

462.306

442.306

Autofinanciamento

237.822

351.384

Lucro do Exercício

110.730

199.625

Amortizações do Exercício

62.092

61.759

Provisões do Exercício

65.000

90.000

 

 

Bibliografia:

Baptista, M., e Andrade, P. (2004). Organizações Desportivas. Um Contributo para uma Nova Atitude. Revista Povos e Culturas, 9, Cultura e Desporto, Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, Universidade Católica Portuguesa, 81-120.

Baptista, M., e Andrade, P. (2009). Estudo sobre o (des)equilíbrio financeiro da primeira década do Sporting, Sociedade Desportiva de Futebol, SAD. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, 9(2), 133-142.

Castro, Fernanda Massá (2011). O Efeito das Decisões Financeiras sobre o Equilíbrio Financeiro no Panorama das Federações Desportivas. Estudo de caso comparativo aplicado á Federação de Triatlo de Portugal e à Federação Portuguesa de Atletismo. Dissertação de Mestrado em Gestão do Desporto pela FMH, Lisboa.

Ferreira, Rogério Fernandes (1976). Gestão Financeira, Volume I – Parte Geral, Edição Rei dos Livros, Lisboa.

Menezes, Hélder Caldeira (1987). Princípios de Gestão Financeira. Editora Presença- Documentos, Lisboa.

Neves, Carvalho (2009). Análise Financeira – Técnicas Fundamentais. 2ª Edição. Editora Texto Editora. Alfragide.

Sá Silva, E. (2010). Gestão Financeira – Análise de Fluxos Financeiros. 3ª Edição, Editora Vida Económica, Porto.

13/2/2013

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Story | by Dr. Radut