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Berlioux, Monique

Monique Berlioux (1923-2015)

a

Dama de Ferro

                        Gustavo Pires, Sandra Gomes, João David Duarte

 

“O desporto ensina-nos a lutar, depois é necessário esperar um pouco mais para ganharmos”

Monique Berlioux

Poucas mulheres se destacaram no exercício do poder. São reduzidos os exemplos que podem ser apresentados:

  • Sirimavo Bandaranaike do Sri Lanka foi a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra no mundo. Exerceu o cargo durante três períodos, de 1960 a 1965, de 1970 a 1977 e de 1994 a 2000.
  • Indira Gandhi governou a Índia como Primeira-Ministra por 11 anos e dois meses, de 1967 a 1984, quando foi assassinada.
  • Golda Meir foi primeira-ministra Israel de 1969 a 1974.
  • Isabel Perón foi Presidente da Argentina em 1974.
  • Margaret Thatcher, a "dama de ferro", foi a única mulher a ocupar o posto na história do Reino Unido. Além disso, foi o governo britânico de maior duração no século XX: 11 anos e 209 dias (Maio de 1979 a Novembro de 1990).
  • Maria de Lurdes Pintassilgo foi primeira-ministra de Portugal de julho a dezembro de 1979.
  • Lidia Gueiler da Bolívia foi designada presidente interina em novembro de 1979. Foi derrubada em Julho de 1980.
  • Vigdis Finnbogadottir da Islândia presidente de 1980 a 1992.
  • Agatha Barbara de Malta ocupou a presidência do país entre 1982 e 1987.
  • Corazón Aquino das Filipinas ganhou as eleições em fevereiro de 1986 e governou por seis anos.

Mas se os exemplo no domínio da política são escassos no âmbito do desporto quase que são inexistentes. Recentemente em Portugal nas eleições para o Comité Olímpico de Portugal uma das listas concorrentes permitiu-se ir a eleições sem uma única mulher. Infelizmente, esta é a dramática situação que, de uma maneira geral, caracteriza o mundo do desporto.

Monique Berlioux, no domínio do desporto, foi a exceção à regra. Em abril  1981 Anita Verschoth publicou no Sports Illustrated” um trabalho sobre Berlioux cujo título bem à americana era:

“Carrying The Torch: Olympic Committee presidents may come and go, but Monique Berlioux is an enduring power in amateur sport”,

quer dizer, era ela que carregava a tocha olímpica. Os presidentes mudavam mas ela continuava pois era o único poder duradouro num desporto amador. Ora, isto já não era completamente verdade porque, ao tempo, quem governava o COI já era Samaranch que decidira viver em Lausana. Pela primeira vez na história do Movimento Olímpico, um presidente do COI exercia as funções a tempo pleno. Esta nova situação iria custar o lugar a Monique Berlioux. Samaranch acabou por a despedir.

Monique, a Exceção

Monique Berlioux tinha entrado no COI em 1967 pela mão de Avery Brundage. Em meia dúzia de anos, enquanto diretora do Comité Olímpico Internacional,  tornou-se a mulher mais importante e com mais poder no Movimento Olímpico Internacional. Contudo, embora sujeita às fraquezas da condição humana, de uma maneira geral, utilizou o seu poder  com enorme competência em defesa dos interesses do Movimento Olímpico, dos ideais Olímpicos e da Carta Olímpica. Acabou por ser despedida por um homem sedento de poder que iria mudar a face do Movimento Olímpico moderno.

A Propósito de Samaranch

Monique Berliou foi admitida como funcionária do COI por Avery Brundage. Depois, com Michael  Killanin, que ao ser eleito, afirmou não ter um património pessoal tal como Brundage tinha que lhe permitisse viver em Lausana ou viajar frequentemente para lá,  o seu poder cresceu para níveis inimagináveis para uma mulher no seio de uma organização ainda por cima desportiva e fortemente tradicionalista.

Killanin delegou muitas funções na mulher espantosa que foi Monique Berlioux que acabou por, ao tempo de Killanin, dirigir o COI como uma autêntica presidente. Ela começou por ser Relações Públicas do COI entre 1967 e 1971 para ascender à posição de Diretora do COI a partir de 1971 até ser despedida em 1985.

A respeito do seu despedimento Monique passados mais de trinta anos e depois da morte de Samaranch não deixou de esclarecer a situação ao jornalista que a lembrou que tinha sido ela própria a trabalhar para que Samaranch fosse eleito presidente do COI:

“On peut se tromper dans la vie. Il était très aimable et très courtisan avec moi. Je ne me suis pas rendue compte. Il est venu s’installer à Lausanne et a pris les choses en main. Il intervenait dans mon travail, il a voulu introduire ses amis. J’ai eu le tort d’offrir ma démission. Samaranch a voué le CIO à l’argent, ce n’est pas son but. Maintenant, le CIO c’est l’argent, il est devenu très riche. On a oublié le côté éducatif du sport.”[1]

A Nadadora

Monique Berlioux, ou Madame Berlioux como mais tarde ficou a ser conhecida, nasceu no dia 22 de dezembro de 1923 em Metz (França). O seu Pai, Victor Libotte, era Belga e a sua mãe, Suzanne era Francesa. Nos seus primeiros anos de vida Monique, viveu-os com os avós maternos. Ao tempo, tinha problemas de saúde do foro respiratório.Quando completou 10 anos de idade Monique foi novamente viver com a sua mãe que tinha  casado em segundas núpcias com Eugéne Berlioux, um instrutor de educação física pelo que se tornara instrutora de natação. Claro que Monique passou a frequentar as aulas de natação da mãe. Aos 12 anos Monique ganhou o seu primeiro campeonato nacional, nos 100 metros costas. Na sua carreira que durou 14 anos conquistou 40 títulos nacionais (costas) em diversas distâncias e nos 400 metros livres.

Durante a Grande Guerra (39-45) tanto Monique como a mãe funcionaram como "correios" das tropas aliadas.

Jornalismo

Monique acabou por participar nos Jogos Olímpicos de 1948 que se realizaram em Londres. Infelizmente foi acometida de uma apendicite pelo que não conseguiu melhor do que um sexto lugar. Ela podia ter ido a Helsínquia (1952), contudo,  recusou-se a competir por motivos de conflito com a própria Federação. Depois de Helsínquia Monique ainda ganhou o campeonato francês.

Após a sua carreira desportiva Monique decidiu dedicar-se ao jornalismo. Em 1954, foi convidada pela “Associação das Mulheres Comunistas” para participar numa viagem a Pequim. Ela aceitou o convite não deixando de esclarecer que não era comunista pelo que as suas opiniões não seriam certamente favoráveis ao que ia presenciar na China. Todavia, os seus artigos valeram-lhe um emprego num jornal de direita de Paris, o L’Aurore.

 

Casamento

Em 1956, Monique casou-se com Serge Groussard, um jornalista do "Le Figaro".

A Entrada no COI

Em 1967, Berlioux foi trabalhar para o COI. A sua entrada no COI foi curiosa na medida em que quando ela se dirigiu ao COI a sua única intensão era a de que o COI transformasse um livro que acabara de escrever sobre os Jogos Olímpicos num filme. Quando lhe perguntaram como é que tinha entrado para o COI ela respondeu:

C’est une histoire bizarre. Je passe six ans avec Maurice Herzog, commissaire et secrétaire d’Etat aux sports, puis il me nomme à l’inspection générale. Cela me plaît moins. Je me casse une jambe en faisant de la bicyclette. Je réfléchis à ce que je veux faire. J’avais écrit un livre sur les J.O. en 1956 (Les Jeux olympiques) et je vois que je peux faire un film pour la télévision.

Apesar de não ter conseguido o apoio desejado Monique Berlioux conseguiu com o seu currículo (ela, para além de ter sido atleta olímpica, tinha um grau académico em comunicação e era fluente em cinco idiomas) impressionar de tal maneira Brundage que este lhe ofereceu um emprego no COI, como Diretora de Relações com a Imprensa e o Público. E ela não hesitou porque até deixou um lugar no Ministério da Juventude e Desportos para assumir o lugar no COI.

Este facto é tanto mais notável quanto se sabe que só em 1981 foram eleitas as duas primeiras mulheres para o COI  terminando com um período de 87 anos de membros exclusivamente do sexo masculino.

Em 1969, Johann Westerhof que tinha substituído o Chanceler do COI Otto Mayer acabou, também, por entrar em conflito com Avery Brundage e foi obrigado a demitir-se. Ora, esta foi a oportunidade de Berlioux que passou a exercer as funções deixadas por Westerhof. No entanto, o seu estatuto de diretora-geral só foi confirmado em 1971. E Monique Berlioux disse:

Eles tentaram encontrar um homem, é claro, mas não conseguiram encontrar a pessoa certa...

O Exercício de Funções

Monique Berlioux trabalhou no COI, durante 18 anos de 1967 a 1985, dos quais os últimos 14 como Diretora da organização. A sua remuneração era de $ 100.000 por ano. Chefiava uma equipa de 67 elementos. Viajava cerca de 250 000 milhas por ano.

Ela, para além de ter de lidar com dezenas de membros do COI, era responsável por resolver os problemas logísticos de milhares de atletas, técnicos e membros dos mídia. Para além disso ela negociava em nome do COI os direitos de televisão cujas quantias atingiam várias centenas de milhões de dólares.

Monique Berlioux trabalhou com três presidentes, Avery Brundage, Killanine e Juan Antonio Samaranch.

As funções de Berlioux eram impressionantes:

ela planeava reuniões do COI, acompanhava as tomadas de decisão, assegurava uma quantidade impressionante de correspondência, geria o orçamento, ajudava a negociar contratos com as televisões, publicava a edição mensal da revista do COI, servia de porta-voz do COI, dava conferências de imprensa etc...

O Gosto pelo Poder

A respeito de Westerhof que tinha substituído, Berlioux dizia que:

He forgot that the president was the boss. You never forget that. Maybe that's the advantage of being a woman. You accept more. I like to stay in the shadows.”

Contudo, Berlioux começou a fazer as coisas acontecerem mesmo antes de ter conseguido algum poder. E ela, segundo Anita Verschoth, até tinha uma expressão muito peculiar:

“One does not ever ask for authority," Madame says. "One takes authority.”[2]

Ela era uma mulher que gostava do poder. E com a sua enorme capacidade de trabalho e talento foi construindo a sua teia de poder. Praticamente do nada e sem dinheiro organizou o secretariado do COI onde passaram a trabalhar 35 pessoas. E transformou o COI que trabalhava à dimensão de uma pequena organização suiça numa organização com uma visão napoleónica sobre o Olimpismo e o Movimento Olímpico.[3]

Competência

Ela sabia que enquanto mulher que era estava debaixo de suspeitas, por isso, como referiu Jacques Belgrand, o contabilista que trabalhava para Berlioux:

“She knows it and that's why she wants to do her work better than a man would."[4]

Peter Ueberroth, presidente da Comissão Organizadora dos Jogos Olímpico de Los Angeles tinha em grande consideração Monique. Dizia ele que ela facultava às comissões organizadores dos Jogos Olímpicos imensas informações que só ela o podia fazer devido à sua longevidade no COI.

“Madame Berlioux in particular was very helpful. She provides the continuity between the Games and helps each organizing committee get pointed in the right direction. Furthermore, the IOC has the right to co-negotiate our TV contracts. Madame was able to advise us of the history of prior negotiations with the same groups. She or her representative attends every negotiating session.”[5]

Nas negociações com as Comissões Organizadoras do Jogos Olímpicos atuava como se fosse o verdadeiro presidente do COI como se comprova pelo relato de Peter Ueberroth:

“In Los Angeles, Berlioux criticized the manner in which the local committee had been treating the press. "She emphatically instructed us to make progress in our relations with the press," says Ueberroth. "She told us that it was our responsibility to let the Olympic committees of all the nations know of our preparations through the media. She said we worked too quietly.”[6]

Estilo de Vida

Monique Berliox era uma mulher vistosa com gostos requintados que se vestia com classe. A este respeito Anita Verschoth dizia:

“She is commanding, vital, dignified, and she wears the right labels: the Hermès dress, the gold wristwatch by Les must de Cartier, the green-rimmed Christian Dior glasses that match her jade necklace. She moves easily among the members of the IOC and their elegant wives.”

E não precisava de pedir licença na medida em que ela era uma mulher politicamente conservadora com opiniões próprias. Dizia Anita Verschoth que:

“She never reads newspaper editorials, she says, "because I like to make my own commentary.”[7]

Lealdade

Berlioux estimava acima de tudo a lealdade. Para ela:

“…the quality most important in a human being is loyalty," Madame says. "I hate being disappointed. Those who disappoint me, I prefer not to see them anymore. I wash them from my memory.”[8]

Estando ao lado de Avery Brundage numa conferencia de imprensa em que este defendia o amadorismo um jornalista resolver questionar em que o presidente do COI uma vez que para um milionário era fácil defender o amadorismo no desporto. Ora, Monique não esperou sequer que Brundage respondesse ao jornalista para lhe ripostar imediatamente:

“If you think money is that important, I feel sorry for you.”[9]

Simultaneamente, ela era uma mulher realista. A propósito do profissionalismo ela dizia:

“You cannot close the door now," she says. "The boat is taking water everywhere. We should not care if the athletes made money between the Games, but if it were at all possible, everybody should be equal at the Games, competing just for the glory of it. If I could, I would open the Games to everybody, but under the condition that maybe two months before and two months after the Games they must stay clean.[10]

Claro que como mulher de poder era acusada de muitas coisas, por exemplo, a de ser feminista ou até mesmo lésbica. Contudo, como dizia Gérald Piaget, um jornalista desportivo do “Tribune de Genève”:

ela era uma mulher de extrema sensibilidade que não era indiferente a um ramo de flores, um galanteio ou uma frase elogiosa.[11]

Contudo, todas as grandes personalidades têm um lado mais humano nas suas maneiras de ser. No auge do seu poder, Myriam Meuwly uma assistente do COI que costumava acompanhá-la, muito provavelmente num momento de fraqueza, ouviu-a dizer:

'What wouldn't I give for a little tenderness."[12]

Na realidade o sucesso de Monique foi conseguido à custa do sacrifício da sua própria vida pessoal. A sua entrega ao COI e aos seus líderes era total.

(...)

Monique recebeu as seguintes condecorações:

  • Commandeur de la Légion d’Honneur ;
  • Grand Officier de l’Ordre national du Mérite.

[2]Verschoth, Anita – Carrying The Torch. In:

 http://sportsillustrated.cnn.com/vault/article/magazine/MAG1124375/index... Consultado em 27 de Maio de 2011.

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