Portuguese English

Avery Brundage (1887-1975)

Apolitismo Desportivo

Avery Brundage (1887-1975) exerceu a liderança do COI de 1952 a 1972, na perspectiva de estabelecer uma barreira entre o desporto. Como engenheiro que era Brundage tinha uma ideologia bem simples, constituída por três ideias fundamentais (talvez até tabus) que, durante os vinte anos da sua presidência defendeu com “unhas e dentes”. Eram elas: 1º) o comercialismo que devia estar completamente afastado das questões olímpicas; 2º) o amadorismo dos atletas que devia ser absolutamente inquestionável; 3º) a política que não se devia envolver nas questões desportivas e vice-versa. Ora, no que diz respeito ao comercialismo, Antonio Samaranch (n.1920), presidente do COI de 1980 a 2001, encarregou-se de acabar com esse tabu, ao abrir a “conta bancária” do COI ao patrocínio das grandes empresas multinacionais. Quanto ao amadorismo, a questão também ficou resolvida com Samaranch, já que os Jogos Olímpicos de Barcelona (1992) abriram as portas aos atletas profissionais. Finalmente, o terceiro tabu de Brundage, a questão do apolitismo,foi ultrapassado por Jacques Rogge o actual presidente do COI.

Tratemos da questão política.

Para fundamentar a sua posição relativamente à questão política Avery Brundage (1973:260) afirmava:

“se aceitamos que em um mundo imperfeito como o nosso, se deixe de praticar desporto, cada vez que as leis humanas são violadas, nunca haverá competições internacionais”.

Ora bem, esta posição expressa por diversas vezes ao longo da sua presidência acabou por envolver o COI em uma das maiores crises políticas do séc. XX que ficou conhecida como o problema das “duas Chinas” que, em 1957, levou à saída da República Popular da China (RPC) do Movimento Olímpico, ao qual só regressaria em 1979.

Claro que a posição de Brundage tem uma enorme contradição.

“Como é que um mundo humano e pacífico pode ser uma pré-condição para a organização dos jogos quando os jogos foram precisamente inventados pelos gregos antigos para promoverem um mundo humano e pacífico?” (Guttmann, 1992:129).

McIntosh, em 1963 no livro “O Desporto na Sociedade”, começa o capítulo décimo quinto precisamente com uma afirmação de Avery Brundage. Este, perante a circunstância do boicote de seis países aos Jogos de Melbourne (1956), motivado pela invasão da Hungria pela URSS e a crise do Canal do Suez, limitou-se a dizer:

“Com as suas decisões, esses países demonstraram desconhecer um dos nossos mais importantes princípios – o de que o desporto nada tem a ver com a política”.

Acerca da afirmação de Brundage, McIntosh (1975:229) comentou:

“Uma visão de relance superficial do passado é o suficiente para demonstrar que, pelo contrário, só muito raramente o desporto nada teve a ver com a política”.

Brundage, com a sua posição intransigente de que o desporto nada tinha a ver com a política, acabou, já no final do seu mandato, por ser ultrapassado pelos próprios colegas do COI que, à margem do seu conhecimento, encetaram contatos informais com a RPC a fim de provocarem o seu regresso ao Movimento Olímpico.

A perspectiva política de Brundage começou a perder peso imediatamente a seguir aos Jogos de Munique (1972), devido aos maus resultados da equipe americana que desencadearam nos EUA uma intervenção das autoridades federais que lamentavam que o desporto tivesse sido “ignorado pela diplomacia” (Nafziger, 1985:249) (3). Contudo, os dirigentes seguintes do COI, Michael Killanin (1914-1999) e Antonio Samaranch continuaram a usar o discurso do “apolitismo desportivo”.

Muito embora o Movimento Olímpico tenha passado por situações de politização extrema como aconteceu em 1972 nos Jogos de Munique (ataque terrorista à aldeia olímpica), 1976 nos Jogos de Montreal (problema das duas Chinas), em 1980 nos Jogos de Moscovo (boicote) e em 1984 nos de Los Angeles (boicote), na realidade, a questão política só agora está a ser encarada com ponderação e inteligência por Jacques Rogge.

Pergunta-se:

porque é que contra todas as evidências a questão do “apolitismo desportivo” prevaleceu durante tantos anos como sendo o discurso politicamente conveniente?

Na nossa perspectiva, por simples ignorância da generalidade dos dirigentes do Movimento Desportivo. Por exemplo, Georges Magname (1964:45) afirma que:

“tanto nos EUA como na França o desporto não era considerado um objeto de estudo”

Ora, se o desporto não era estudado também não podia ser entendido.

Realmente, existia, sobretudo nos EUA, um limitado número publicações relativas aos aspectos técnicos de algumas modalidades desportivas, mas nada mais do que isso.(2) E continuava Magname (1964:45)

“… é em vão que procuramos nas bibliotecas obras em que o desporto é estudado enquanto fato social capaz de jogar uma função na cultura e na civilização”.

Magname (1964:81) não deixou de afirmar como sendo uma evidência que o deporto pode “servir para fins políticos. Mussolini na Itália e, ainda mais, Hitler na Alemanha afirmaram os seus empreendimentos através da juventude pela mobilização precoce que permite uma certa forma de sociedade desportiva”. Mas Magname (1964:121) foi ainda mais longe quando afirmou:

“é depois do desporto que começa a importância do desporto”.

Na realidade, é depois do desporto que as questões ideológicas e políticas começam a ser levantadas como o fazem:

  • Earle Zeigler (1968) no que diz respeito ao nacionalismo;
  • Jean-Marie Brohm (1972) ao analisar os modelos capitalista e marxista de prática desportiva;
  • Nelson Mandela um especialista do “soft power”, nas políticas propriamente ditas, quando em 1994 começou a envolver na construção da identidade nacional a equipe da África do Sul de rugby.(1) 

Realmente, como referiu Magname, só a partir dos anos sessenta é que começam a surgir investigadores no domínio da sociologia do desporto que, de uma forma explícita ou implícita, o relacionavam com a política e vice-versa.

A questão política do desporto tem o seu primeiro trabalho de fundo com Jean Meynaud (1996) e a obra “Sport et Politique”.

Nos países de língua portuguesa, no Brasil, João Lyra Filho (1906-1988), proferiu a palestra “Sinais de Sociologia dos Desportos” editada pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD) em 1961 e reeditada em 1965 e, em Portugal, José Esteves (1967) abriu a problemática política do desporto com o livro intitulado “O Desporto e as Estruturas Sociais” no qual, pela primeira vez, são tratadas, de uma forma global, as relações do desporto com a política. Entretanto, Noronha Feio (1975:7) no seu livro “Desporto e Política” escrevia:

“durante anos ouvimos dirigentes de destaque na vida portuguesa afirmar que o desporto nada tinha a ver com a política. De uma assentada arrumava-se, grosseiramente, a discussão…”.

Na realidade, foi preciso chegar à década de setenta para o mundo perceber a importância do desporto enquanto instrumento de “soft power” no domínio das relações entre Estados. 

Notas:

1- Carlin, John (2008). Esta obra tem uma tradução portuguesa da “Editorial Presença” sob o título de “Invictus”.

2-  Deve-se ter também em conta que Sílvio Lima (1937:7) no livro “Ensaios sobre o Desporto” escreveu um capítulo sobre “Desporto e Sociedade”.

3- Nafziger (1985:248) considera três níveis de intervenção do Estado no desporto: 1º- simples financiamento; 2º- supervisão através de um órgão de controle que pode ser um ministério ou uma ONG; 3º- exploração diplomática do desporto através do organismo dos negócios estrangeiros. No presente ensaio estamos a considerar precisamente o terceiro nível de intervenção do Estado no desporto através daquilo a que ficou conhecido como a “diplomacia do ping-pong”.

Bibliografia:

  • Brohm, Jean-Marie (1972). Sociologie politique du sport. In G. Berthaud & J-M. Brohm & F. Gantheret & P. Laguillaumie, Pierre (Eds.), Partizans: Sport, culture et repression (16-31). Paris: François Maspero.
  • Brundage, Avery (1973). Memórias. Madrid: Instituto Nacional de Educación Física.
  • Carlin, John (2008). Playing the enemy. New York: The Penguin Books.
  • Coubertin, Pierre de (1913). Essais de psychologie sportive. Lausanne et Paris: Libbrairie Payot & C.
  • Coubertin, Pierre de (1996). Mémoires olympiques. Paris: Editions Revue “EPS”. 1ª ed. 1931.
  • Esteves, José (1967). O desporto e as estruturas sociais. Lisboa: Prelo.
  • Feio, Noronha (1975). Desporto e política. Lisboa: Portugália.
  • Greene, Robert (2001). The art of seduction. London: Profile Books.
  • Guttmann, Allen (1992). The Olympics. A history of the modern games. Urbana and Chicago: University of Illinois Press.
  • Hoberman, M. John (1984). Sport and political ideology. U.S.A.: University of Texas Press.
  • Hoffer, Eric (1989). The true believer: Thoughts on the nature of mass movements. New York: Harper Perennial.
  • Houlihan, Barrie (1997). Sport, policy and politics: A comparative analysis. London and New York: Routledge.
  • Riordan, James (1993).  Sport in capitalist and socialist countries: A Western perspective. In Dunning, Eric & Maguire, Joseph & Pearton, Robert (ed.), The Sports Process – A comparative and developmental approch. USA: Humkan Kinetics Publishers, 245-264.
  • Lima, Sílvio (1937). Ensaios sobre o desporto. Lisboa: Livraria Sá da Costa.
  • Lyra Filho, João (1965). Sinais de sociologia dos desportos. Rio de Janeiro: Gráfica Milone Ltda. Conferência proferida em 1961.
  • Magname, George (1964). Sociologie du sport - Situation du loisir sportif dans la culture contemporaine. France: Gallimard.
  • McIntosh, P.C. (1975). O desporto na sociedade. Lisboa: Prelo. 1ª ed. 1963.
  • Meynaud, Jean (1966). Sport et politique. Paris: Payot.
  • Michaud, Yves (2007). La violence. Paris: PUF.
  • Nafziger, James (1985). Foreign policy in the sports arena. In Arthur Johson & Frey James (ed.), Government and Sport. USA: Rowman & Allanheld, 248-260.
  • Nietzsche, Friedrich (s/d). A competição em homero - Cinco prefácios para cinco livros não escritos. Rio de Janeiro: Editora 7 Letras. 2º Edição. Tradução e prefácio: Pedro Süssekind. (www.4shared.com/get/42056244/cf219879/Nietzsche_-_ Cinco _prefcios_para_ cinco_ livros_no_escritos. html;j sess ionid =  E7B337DE76A1453F40E5CDB41C622375.dc 138).
  • Nye, Joseph (2004). Soft power – The means to success in world politics. New Yorque: Public Affairs.
  • Pires, Gustavo (2009). O Olimpismo hoje. De uma diplomacia do silêncio para uma diplomacia silenciosa. O caso das duas chinas. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto. 9 (2) (supl.1), 159-195.
  • Zeigler, Earle F. (1968). Problems in the history and philosophy of physical education and sport. London: Prentice-Hall International.

  GP, 2/5/1011.

Menu principal

Story | by Dr. Radut