
O Fiasco de Pequim
José Antunes de Sousa
À hora precisa e àquela e não outra, que as coisas são o que têm que ser e não o que queremos que sejam, o espectáculo para o mundo arrancou impressivo e avassalador. De tal forma era esperado algo que superasse as gerais expectativas, que por toda a parte as pessoas se acomodaram para assistir e a Terra virou imensa e extática plateia. Até eu tomei, a convite generoso do meu amigo Fernando Correia, lugar nessa grande e privilegiada bancada que é o estúdio do Rádio Clube Português, para, com alguns modestos e balbuciantes comentários, acompanhar essa festa mundial que foi a solene abertura dos jogos olímpicos de 2008.
Foi uma festa executada por homens, sem dúvida, apesar de mais com elos de uma engrenagem do que com homens reais se parecerem e com a intenção firme de que todos os homens a vissem - ou, melhor, que para ela olhassem, mesmo que não vendo tudo o que nela havia realmente para ver. Porque o que caracteriza este nosso mundo da imagem é que o essencial fica escondido por detrás do que se deixa observar - o importante fica subentendido, levemente insinuado. E, no essencial, esta festa foi por homens concebida, mas a pensar nos deuses.
As várias coreografias apresentadas partiam, sem dúvida, de motivos à volta das coisas da China, mas apontavam para algo que, superando-as misteriosamente, as pudesse, de algum modo, sacralizar e divinizar – ou que, apesar das aparências em contrário, criam esses homens que devesse fazê-lo. Confesso que senti assomar, implícito, por detrás de toda aquela infinidade de gestos sincronizados, um empenho, uma viva intenção em obter com tudo aquilo um efeito que tocasse a íntima instância apodíctica das pessoas, essa existencial categoria vergiliana do porque sim (cf. Vergílio Ferreira)(1) e que a popularizada glosa de António Botto tão fielmente retrata: "enfim, gosto - não me perguntem porquê". E bem sabemos que é pela emoção que se nos pegam as mais arraigadas crenças. O efeito último de todas aquelas ideias em plástico movimento foi um sentimento de estranha intimidade com o mistério, um quase mergulho fusional, uma espécie de arroubo místico. E assim se prova, de forma ínvia embora, como é constitutivo em nós esse apelo do sagrado, do genuinamente religioso.
Esta cerimónia de abertura dos jogos olímpicos não destoou, em nada, das suas congéneres expressamente religiosas - nela a mesma liturgia da exaltação e do louvor e uma ritualidade vagamente iniciática.
Em suma, no plano dialógico da sedução das almas, isto é, ao nível da pura manifestação, estas cerimónias veicularam a expressão de uma crença inabalável – a crença no absoluto e a crença de que poder nenhum dos homens se aguenta, a menos que tenha a sustentá-lo o absoluto da sua indiscutibilidade ̶ e o que se não discute está, por via dos factos, sancionado. E nada melhor para os dirigentes chineses do que fazer crer a toda a gente que é de teor divino o desígnio do seu mandato ̶ não vale a pena, pois, discuti-lo.
Eu sei bem que há nos jogos olímpicos a dimensão, tantas vezes invocada, sobretudo por quem perde, da convivialidade universal, a dimensão da festa e que não poucos tendem a classificar como uma borga do tamanho do mundo. É claro que sim, que é um valor olímpico esse convívio entre gente de tão diferentes e exóticas paragens - e, quanto à questão da borga, não duvido que se tenham cometido excessos. Esta é, porém, a dimensão horizontal dos jogos. Só que há outra, a vertical - Altius: cada vez mais alto. Até atingir, lá no mais alto de tudo, o Olimpo, a morada dos deuses. Mas só a vitória aproxima o atleta dos deuses e só a vitória arrasadora lhe abre as portas do Olimpo e o introduz no restrito convívio com os deuses.
Na Grécia Antiga, a persistência no hábito na coroa de ramos de oliveira garantia mesmo ao atleta uma certa condição divina, como o atesta o indulto dispensado à Calipateira que cometeu a ousadia de disfarçada de treinador do filho, assistir, contra severa proibição, aos jogos e que só foi perdoada em atenção à glória olímpica de seu pai, o pugilista Diágoras de Rodes e aos feitos olímpicos dos seus famosos irmãos.
Ora, esta dimensão vertical continua viva, talvez como nunca. Mais: nota-se hoje uma flagrante verticalização do ideal olímpico - só a vitória conta, só a glória basta. E, neste tempo da mensurabilidade argentária de tudo na vida, a medalha olímpica tem sobretudo o valor dos euros que atrai em meetings por esse mundo fora. De facto, esta exclusividade axiológica da vitória leva a que o atleta veja na consagração olímpica mais que tudo uma oportunidade sem igual para rentabilizar a sua carreira.
Ora, é neste contexto da vitória desportiva como um absoluto social ninguém recorda os vencidos, vae victis! ̶ que se explica o sentimento de frustração que invadiu os portugueses na sequência do falhanço de algumas das nossas mais sólidas esperanças. Porque não são as circunstâncias que nos determinam, mas o modo como percepcionamos essas circunstâncias. E a circunstância de haver todo um país à espera da vitória de alguém, em palco definitivo do poder e da glória, tanto pode empolgar como pode derrubar esse alguém, vergado ao peso insuportável de tamanha responsabilidade, a tal pressão associada à premência latejante dos objectivos. Afinal gerir expectativas não é fixarmo-nos nelas, mas centrarmo-nos em nós ̶ lá onde mora o secreto demiurgo da nossa realidade. Exemplo? O Nelson Évora que construiu a sua categórica vitória a partir do bastião de si e não a partir dos gritos da multidão.
De resto, esta dramatização do significado representativo e projectivo destes nossos embaixadores nesse tal palco planetário do poder é que provocou a tal frustração e uma mal disfarçada irritação por tão estrepitoso falhanço dos atletas em que mais vivas expectativas se depositaram.
Aí também, em boa parte, a justificação da rábula protagonizada por Vicente de Moura, presidente do Comité Olímpico Português, à frente do qual tem tido acção meritória, mas que, também ele, perante o fiasco que ameaçava ser geral, deitou a toalha ao chão, esquecendo que os problemas têm a cor com que os pintamos com o humor de cada momento e que a infelicidade vem-nos daquilo que da vida pensamos, não da própria vida: parece que não vai haver medalhas? ̶ demito-me. Afinal há medalhas e a minha gente já está feliz? ̶ bem, então não se justifica demitir-me porque, afinal, basta uma medalha de ouro para afogar as mágoas colectivas de um povo, sobretudo quando este está habituado a contentar-se com pouco. É a nossa tradicional frivolidade e este nosso engodo quase libidinoso pelos intervalos, pelos interstícios da vida que estimamos lúgubre e triste.
Mas nem tudo o que reluz é ouro. Porque é de ouro também o suor, a dedicação, o sacrifício, a pertinácia de tantos e tantos atletas, guiados pelo sonho olímpico, mesmo que lhes tenha sido vedado o altar supremo da glória.
Mesmo com o deslize, aliás completamente inocente, de Marco Fortes, eu curvo-me perante o exemplo do olímpico esforço destes homens e destas mulheres – e que o possam repetir em 2012!
Agosto de 2008
(1) José Antunes de Sousa, Vergílio Ferreira e a Filosofia da sua obra literária, Instituto Piaget, Lisboa, 2010
